Sobre o Natal e as Raízes Judaicas

Quem me conhece sabe que eu tenho muita simpatia pelas raízes judaicas da fé cristã. Entendo que a fé cristã não é, em essência, uma religião nova, mas apenas a fé judaica completa, isto é, com a profecia da vinda do Messias cumprida. A divisão posterior, que gerou duas religiões, judaísmo e cristianismo, embora já fosse prevista por Deus, jamais foi o seu ideal.

Por isso, eu sigo da fé judaica que também compete aos gentios – como o sábado e a distinção entre carnes, que são instituições anteriores à lei mosaica – e vejo com bons olhos até aquilo que não creio ser obrigatório aos gentios, como as festas judaicas – Lua Nova, Páscoa, Pães Asmos, Primícias, Pentecostes, Trombetas, Dia da Expiação, Tabernáculos e Purim. E penso que teria sido muito legal se, não havendo a divisão entre judaísmo e cristianismo, crentes judeus e gentios em Yeshua comemorassem juntos essas festas. Todas elas, aliás, podem ser comemoradas de modo cristocêntrico, como entendimento de que toda a Escritura Hebraica testifica de Jesus.

Para além disso, eu também não tenho nada contra judeus étnicos que passam a crer em Jesus continuarem com seus costumes específicos para judeus, incluindo a circuncisão de suas crianças ao oitavo dia. São judeus. Isso é próprio deles. Desde que essas coisas não sejam impostas aos gentios, não há qualquer problema aqui.

Agora, apesar de toda essa minha simpatia para com as raízes judaicas, eu discordo da noção que alguns mantém de que comemorar o Natal seria um pecado. E aqui exponho meu raciocínio. Seria um pecado comemorar o aniversário de alguém? Creio que não. É justo ficar feliz porque alguém está completando mais um ano de vida. E nada mais adequado do que festejar este fato com o aniversariante e pessoas próximas. O mesmo é possível dizer em relação a aniversários de casamento. Aliás, é exatamente por isso que existe festa de casamento, uma tradição que é legitimada na Bíblia, diga-se de passagem. Ao crente, essas comemorações tomam um aspecto ainda mais legítimo, pois é natural que haja oração de gratidão no evento e, por vezes, até um breve culto a Deus.

O próprio fato de existirem festas anuais ordenadas pelo próprio Deus aos hebreus demonstra que aniversários são legítimos. O que é a Páscoa Hebraica senão o aniversário da libertação do povo da escravidão no Egito? E o que não passa a ser a Páscoa senão o aniversário, também, da morte e da subsequente ressurreição do Messias Jesus? Portanto, aniversários são relevantes.

Ora, se isso é fato, então não há problema em comemorar o aniversário de Jesus. É natural que os crentes se sinta felizes anualmente porque Cristo um dia se fez carne, foi gestado por nove meses e nasceu. Sem o nascimento de Cristo, também não haveria seu ministério, sua morte e sua ressurreição. E é digno de nota que os anjos e os pastores no campo comemoram o primeiro Natal, segundo consta em Lucas 2:8-20. Sim, há uma comemoração de Natal na Bíblia.

Alguém poderia argumentar aqui que nós, crentes, não deveríamos comemorar festas que não foram ordenadas explicitamente na Bíblia. Mas esse pensamento é apenas a falácia do apelo ao silêncio. Não se pode provar algo cabalmente a partir do silêncio. Logo, não é porque a Bíblia não ordena algo que isso é proibido. Se fossemos praticar essa lógica, inclusive, nem usar a internet poderíamos, já que a Bíblia nada diz sobre isso. Em vez disso, nosso raciocínio precisa ser: a Bíblia proíbe explicitamente? Algum princípio bíblico é ferido por tal prática? Se não, então é lícito. Para além disso, cabe lembrar que pelo menos duas festas judaicas mencionadas na Bíblia não foram ordenadas por nenhum profeta, muito menos por Moisés: o Purim, que surge na época da rainha Ester (Et 9:16-32) e o Chanuká, também chamado de Festa das Luzes ou Festa da Dedicação, que surge no período dos Macabeus e é mencionado no Novo Testamento (Jo 10:22). Em suma, eventos importantes podem gerar novas comemorações. Isso é perfeitamente judaico e biblicamente legítimo. Sendo assim, comemorar o nascimento de Jesus não pode ser um pecado.

Mas o problema, para algumas pessoas, parece residir nos seguintes pontos: (1) Jesus não nasceu, de fato, em 25 de Dezembro e (2) nesta data era comemorada pelos pagãos a festa do deus-sol. Logo, o Natal seria inválido porque não remete à data real do nascimento de Jesus, mas a uma festa pagã. Como eu respondo a isso?

Quanto ao primeiro ponto, de fato, ninguém sabe com certeza quando Jesus nasceu. Alguns supõem que foi pelos idos de Setembro/Outubro. Eles partem de informações como o fato de que Jesus foi concebido seis meses depois de João Batista, e este, por sua vez, foi concebido quando Zacarias, seu pai, oficiava no templo. Zacarias era do turno de Abias, no que tange a escala dos sacerdotes. Como havia 24 turnos, cada qual oficiando em duas semanas por ano, o turno de Abias caía no quarto mês do calendário litúrgico judaico, o que equivale aos nossos meses de Junho/Julho. Se somarmos, portanto, os seis meses de gestação de João Batista a esta data, chegamos ao mês de concepção de Jesus. E somando mais nove meses, chegamos ao mês de seu nascimento. Isso seria por volta de Setembro ou Outubro.

Mas a questão não é tão simples. Primeiro: o ano judaico não possui 48 semanas. Ele varia assim como o nosso. Logo, isso levanta a pergunta: quando chegava no último turno do ano, a contagem recomeçava do primeiro e seguia ininterruptamente? Ou começava do primeiro, mas era interrompida para se iniciar novamente no início do novo ano litúrgico? Não sabemos. Se a primeira opção for a correta, então os turnos não cairiam nos mesmos meses todos os anos. E isso impossibilita dizer que o turno de Abias era em junho/julho.

Segundo: há fontes históricas que indicam que os turnos não serviam as duas semanas seguidas. Eles serviam uma semana e depois do turno 24 a contagem recomeçava. Ou seja, ainda que o turno de Abias fosse em Junho/Julho, ele também servia em outro período do mesmo ano. Então, mais uma vez, isso impossibilita dizer com certeza que a contagem começa em junho/julho.

Terceiro: não sabemos se após os momentos em que o serviço do templo foi parado pelos inimigos, os turnos voltaram a funcionar de onde pararam ou seguindo a lógica da ordem do mês. Isso também impossibilita dizer com certeza quando João foi concebido, o que é a base para saber o período da concepção de Jesus.

Quanto: cabe lembrar ainda que não sabemos se Jesus nasceu com exatos nove meses. Um bebê não prematuro pode nascer entre a semana 37 e 40 semanas. Alguns chegam até 42.

Em suma, são tantas variáveis que é muito difícil cravar uma data. A pergunta que surge, então, é: na falta de uma data, seria um erro escolher uma para comemorar? Não vejo porque seria. Note que isso é bem diferente de ter uma data e escolher outra. Ou pior: de Deus dar uma data e nós, deliberadamente, escolhermos outra. É o que muitos fazem com o sábado, substituindo-o pelo domingo (ou por dia nenhum) e com a Páscoa, cuja data bíblica é 14 de Nissan e não necessariamente sempre um domingo. Portanto, na falta da data, prover uma não parece algo errado. O mais importante, neste caso específico, não é o dia em si, mas a comemoração, a lembrança. Se o dia exato fosse relevante para Deus, isso constaria na Bíblia.

Quanto ao segundo ponto, seria um erro comemorar o Natal porque na mesma data pagãos antigos comemoravam o dia do deus-sol? Ora, não vejo lógica nisso. Se, por exemplo, eu descobrir que no dia do meu aniversário de nascimento ou de casamento alguém festeja algum deus pagão, eu não vou deixar de comemorar minhas datas especiais. O que os outros fazem não é problema meu. Eu sei o que eu estou comemorando. De igual forma, o cristão que comemora o Natal está festejando o nascimento de Jesus, não do deus-sol.

“Ah, mas a data 25 de Dezembro foi escolhida justamente por causa da festividade pagã!”. Ainda que seja verdade, isso me parece um motivo a mais para comemorar. Se todos estão comemorando o deus-sol, nada mais cristão que afirmar, neste mesmo dia, que quem deve ser reverenciado não é deus-sol nenhum, mas Jesus Cristo, o qual pode ser chamado de Sol da Justiça, diga de passagem (Ml 4:1-6).

Em suma, comemorar o Natal pode ser uma ótima maneira de contrariar o mundo. Aliás, cabe ressaltar que o paganismo já declinou há muitos séculos, de modo que essa associação entre Natal e a adoração ao deus-sol na mesma época nem faz mais sentido histórico. Hoje, o que tem ocorrido é o contrário: o Natal, como festa cristã, tem sido secularizado pelos não cristãos. Seria positivo, portanto, que assim como o Natal fez frente ao paganismo no passado, desbancando o deus-sol, que faça frente ao secularismo, reafirmando que escolhemos essa época não para festejar valores mundanos, mas para celebrar o nascimento do nosso Senhor e Salvador.

Por essas razões, eu não vejo problema algum em comemorar o Natal e julgo algo bastante apropriado. Se, no entanto, alguém não se sente bem em celebrar o nascimento de Jesus nesta data, não há obrigação bíblica neste sentido. Aqui vale o conselho inspirado de Paulo:

“Quem és tu que julgas o servo alheio? Para o seu próprio senhor está em pé ou cai; mas estará em pé, porque o Senhor é poderoso para o suster. […] Cada um tenha opinião bem definida em sua própria mente. […] Porque nenhum de nós vive para si mesmo nem morre para si. Porque, se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor, morremos. Quer, pois, vivamos ou morramos, somos do Senhor. Foi precisamente para este fim que Cristo morreu e ressurgiu: para ser Senhor tanto de mortos como de vivos. Tu, porém, por que julgas o teu irmão? E tu, por que desprezam o teu? Pois todos compareceremos perante o tribunal de Deus. Como está escrito: ‘Por minha vida, diz o Senhor, diante de mim se dobrará todo o joelho, e toda a língua dará louvores a Deus’. Assim, pois, cada um de nós dará contas de si mesmo a Deus” (Rm 14:4-12).

Feliz Natal!

Por Davi Caldas

Fonte: Reação Adventista

Sobre Weleson Fernandes

Escritor & Evangelista da União Central Brasileira

Verifique também

Voltando para casa

Deus criou um dia para si (Sábado), a fim de ser lembrado como Criador e …

Resgatar laços com judeus e a fé judaica: fogo estranho?

Recentemente postei um texto intitulado “Voltando para casa”. No artigo eu cito uma série de …

Tréplica sobre a questão dos alimentos puros e impuros

O amigo e irmão (em Cristo) Raphael Meza gentilmente leu meu texto “Por que a …

Deixe uma resposta

×

Sejam Bem Vindos!

Sejam bem Vindo ao Portal Weleson Fernandes !  Deixe um recado, assim que possível irei retornar

×