RESUMO
O presente artigo analisa a doutrina do Santuário Celestial segundo a perspectiva teológica da Igreja Adventista do Sétimo Dia, destacando sua relevância profética e soteriológica para a compreensão do juízo pré-advento e do fechamento da porta da graça. A partir de uma abordagem bíblico-teológica, investiga-se o modelo do santuário terrestre, sua tipologia em relação ao ministério de Cristo, e o cumprimento escatológico das profecias de Daniel 7–9. O estudo sustenta que, segundo a interpretação adventista, desde 1844 Cristo realiza a obra final de expiação no Lugar Santíssimo, antecedendo o fechamento definitivo da graça. O artigo conclui que a doutrina do santuário fornece estrutura essencial para a mensagem dos três anjos, para o entendimento do grande conflito e para a formação de uma espiritualidade consciente da urgência escatológica.
Palavras-chave: Santuário Celestial; Juízo Investigativo; Escatologia Adventista; Daniel 8:14; Porta da Graça.
1 INTRODUÇÃO
A doutrina do Santuário Celestial ocupa posição central na teologia da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Mais que um componente doutrinário, ela forma a chave interpretativa da missão de Cristo após a cruz e do desenvolvimento final do plano da salvação. A expressão “antes da porta se fechar” alude ao momento em que a intercessão de Cristo no santuário celestial se concluirá, marcando o fim da oportunidade de arrependimento humano.
Ellen White (2005, p. 428) afirma que:
“Quando Cristo deixar o santuário, então começará o tempo de angústia.”
Assim, o tema possui implicações não apenas teológicas, mas espirituais e missionais. O presente artigo tem como objetivo examinar, à luz das Escrituras e da hermenêutica adventista, a mensagem profética que emerge do ministério de Cristo no santuário celestial.
2 O PANO DE FUNDO BÍBLICO DO SANTUÁRIO
2.1 O Santuário Terrestre como Modelo
O santuário erigido por Moisés foi construído segundo o “modelo” mostrado por Deus (Êx 25:9). Sua estrutura , átrio, lugar santo e lugar santíssimo , formava uma representação pedagógica do plano da salvação. O serviço anual do Dia da Expiação (Lv 16) demonstrava o momento de purificação e juízo, tipificando a obra final de Cristo.
O Santuário era uma construção santificada pela presença especial de Deus, dedicada exclusivamente à Sua adoração. Nas Escrituras hebraicas, ele também é descrito como palácio, templo ou casa de Deus. O que o distinguia de qualquer outra edificação não era sua forma externa, mas o fato singular de ser a morada da Divindade entre os seres humanos.
No Monte Sinai, o próprio Deus ordenou a Moisés a construção de um santuário, dando-lhe instruções precisas:
“Conforme tudo o que Eu lhe mostrar para modelo do tabernáculo e para modelo de todos os seus utensílios, assim vocês o farão” (Êxodo 25:9; cf. v. 8, 40).
Em obediência a essa ordem, foi erguido um santuário portátil, cuidadosamente construído segundo as prescrições divinas, conhecido como Tabernáculo.
O Santuário, juntamente com os serviços religiosos realizados nele, tinha como propósito ensinar ao povo de Israel três verdades fundamentais:
- A santidade absoluta de Deus
- A condição pecaminosa do ser humano
- O caminho de restauração e reconciliação com Deus
Por que Deus desejou a construção de um santuário?
A resposta está na própria declaração divina feita a Moisés:
“E farão para Mim um santuário, para que Eu habite no meio deles” (Êxodo 25:8).
Com essas palavras, Deus estava expressando um desejo profundamente relacional: “Quero morar com vocês, estar próximo, caminhar ao lado de vocês e desfrutar da comunhão com o Meu povo”.
O santuário terrestre tornou-se, de modo especial, o lugar onde Deus habitava entre Israel como Salvador e Líder. Era ali que o Céu tocava a Terra, onde o infinito se aproximava do finito. Por isso, era considerado o lugar mais sagrado de toda a Terra.
Ao ordenar: “Façam para Mim um santuário, para que Eu habite entre vocês”, Deus estava ensinando aos israelitas, de maneira concreta e visual, verdades espirituais e eternas. Essa mesma realidade é apresentada no Novo Testamento quando o apóstolo Paulo afirma que Deus deseja habitar no ser humano, cujo corpo se torna o templo ou santuário do Espírito Santo (1Co 3:16–17; 2Co 6:16).
João expressa essa verdade ao declarar:
“O Verbo Se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade” (João 1:14).
O termo grego traduzido por “habitou” é skenóō, que significa “armar uma tenda”. Essa expressão remete claramente à imagem do tabernáculo erguido no centro do acampamento israelita , uma referência direta à presença divina no meio do povo.
O santuário simbolizava a ligação entre o Céu e a Terra, uma conexão que se tornou plena quando Deus veio pessoalmente ao mundo na pessoa de Jesus Cristo. Ele Se fez um de nós para revelar o amor do Pai, compartilhar nossas experiências, oferecer um exemplo perfeito de vida, socorrer-nos em meio às tentações, sofrer por nossos pecados e representar-nos diante de Deus (Hb 2:14–17).
Por isso, Mateus, citando Isaías, declara:
“Ele será chamado Emanuel, que quer dizer: Deus conosco” (Mt 1:23).
O Tabernáculo, portanto, era uma manifestação visível da grande verdade de que Deus vive eternamente, está sempre presente e escolhe habitar com o Seu povo para protegê-lo, governá-lo, julgá-lo, guiá-lo e abençoá-lo. Era ali que o Senhor tornava conhecida a Sua vontade.
2.2 O Santuário Terrestre – Sombra e Realidade
O plano de Deus é executado de forma harmoniosa tanto no Céu quanto na Terra. Tudo o que Ele realiza aqui segue um propósito e um modelo divinos. Da mesma maneira, todas as atividades do santuário israelita eram realizadas conforme instruções vindas do próprio Deus.
A Bíblia ensina que as ofertas e os sacrifícios apresentados no santuário constituíam uma figura ou sombra das realidades celestiais (Hb 8:3–5; 9:9, 23–24). Em outras palavras, o santuário e seus rituais tornavam visíveis, ainda que de forma limitada, as verdades espirituais do Céu. Por meio desses símbolos, o israelita piedoso podia contemplar, ainda que parcialmente, o plano da salvação.
A ilustração da sombra nos ajuda a compreender esse conceito. Nossas sombras reproduzem nossos movimentos de maneira imperfeita: alongam-se ou se encurtam conforme a luz, distorcem proporções, mas sempre refletem algo da realidade. Se movemos o braço, a sombra também se move; se saltamos, ela nos acompanha. Contudo, a sombra não existe sem a pessoa real.
Da mesma forma, o santuário terrestre só podia existir porque havia um santuário celestial. As atividades realizadas na Terra correspondiam às ações divinas que ocorrem no Céu. O santuário israelita era, portanto, um reflexo visível de uma realidade invisível.
Quando o apóstolo Paulo afirma que o santuário do Antigo Testamento era uma “sombra das coisas celestiais” (Hb 8:5; 10:1), ele ensina que os rituais realizados ali permitiam ao povo discernir, ainda que de maneira velada, a obra que Deus realiza no Céu. Os serviços do santuário representavam o que já havia sido feito, o que estava sendo feito e o que ainda seria realizado na obra da salvação.
Esse mesmo princípio aparece na oração do Pai Nosso, quando Jesus ensina:
“Seja feita a Tua vontade, assim na Terra como no Céu” (Mt 6:10).
Ou seja, os acontecimentos terrenos deveriam refletir a realidade celestial.
Assim como a sombra imita nossos movimentos, as cerimônias do santuário hebraico representavam a obra salvadora de Deus. No entanto, assim como a sombra não é a realidade em si, o tabernáculo terrestre não era a realidade celestial, mas apenas sua representação.
O sistema de sacrifícios apontava para o sacrifício e o ministério de Cristo. O animal oferecido representava o “outro eu” do pecador. Ao ver o sacerdote dividir o animal e oferecê-lo no altar, o israelita arrependido reconhecia que o pecado trazia morte e separação de Deus, e que ele próprio merecia esse juízo.
Nossa esperança de salvação encontra-se no Lugar Santíssimo do santuário celestial, onde Jesus ministra hoje como nosso grande Sumo Sacerdote, apresentando Seu próprio sangue em favor da humanidade.
Todo o sistema do santuário constituía uma verdadeira “profecia compacta do evangelho”, apontando para o sacrifício e o sacerdócio de Cristo, que, por meio de Sua morte, venceu aquele que tem o poder da morte, isto é, o diabo (Hb 2:14), e abriu um caminho de vida para pecadores perdidos.
Por fim, é essencial lembrar que nenhuma sombra é uma representação perfeita da realidade. A obra da expiação no Céu envolve dimensões tão profundas e amplas que nenhum modelo terrestre poderia retratá-la plenamente. Toda sombra, por mais fiel que seja, sempre revela a realidade de forma limitada e imperfeita.
2.3 O Santuário Celestial nas Escrituras
O Novo Testamento identifica Cristo como Sumo Sacerdote do santuário “verdadeiro, que o Senhor erigiu, e não o homem” (Hb 8:2). O livro de Hebreus apresenta o ministério celestial como realidade superior, da qual o modelo terrestre era apenas “sombra dos bens futuros” (Hb 10:1).
Não poderia existir um santuário terrestre que servisse como sombra se não houvesse, antes, um santuário verdadeiro no Céu. Por isso, podemos afirmar com segurança bíblica que há um santuário real na presença de Deus. Ainda que não saibamos exatamente como ele é em sua forma, estrutura ou substância , nem se é constituído de materiais semelhantes aos que conhecemos na Terra , sua existência é claramente revelada nas Escrituras.
A Bíblia apresenta diversos textos que confirmam essa realidade:
“O ponto central do que estamos dizendo é que temos um Sumo Sacerdote que Se assentou à direita do trono da Majestade nos Céus, como ministro do santuário e do verdadeiro tabernáculo, que o Senhor estabeleceu, e não o homem” (Hb 8:1–2).
“Quando Cristo veio como Sumo Sacerdote dos bens já realizados, por meio do maior e mais perfeito tabernáculo, não feito por mãos humanas, isto é, não pertencente a esta criação, Ele entrou no Santuário uma vez por todas, não com sangue de bodes e bezerros, mas com o Seu próprio sangue, obtendo eterna redenção” (Hb 9:11–12).
“Cristo não entrou em santuário feito por mãos humanas, que é figura do verdadeiro, mas no próprio Céu, para agora comparecer por nós diante de Deus” (Hb 9:24).
“Abriu-se, então, o santuário de Deus que se encontra no Céu, e foi vista no Seu santuário a arca da aliança” (Ap 11:19).
“Depois destas coisas, olhei, e abriu-se no Céu o santuário do tabernáculo do testemunho” (Ap 15:5).
Esses textos deixam claro que, tanto para o apóstolo Paulo quanto para o livro do Apocalipse, o santuário celestial não é uma abstração simbólica, mas uma realidade concreta.
O apóstolo João, ao receber visões celestiais, contemplou uma porta aberta no Céu e foi convidado a subir. Nessa experiência, ele viu o trono de Deus e “sete tochas de fogo” que estavam “diante do trono” (Ap 4:1,5). Em outra ocasião, o santuário celestial foi novamente aberto diante de seus olhos, permitindo-lhe contemplar o Lugar Santíssimo, além do véu, onde viu “a arca da aliança” (Ap 11:19) — correspondente celestial do baú sagrado construído por Moisés para guardar a Lei de Deus.
Assim, podemos afirmar com convicção que o santuário celestial existe e é real, da mesma forma que Deus é real. Afinal, algo é real quando verdadeiramente existe.
Ellen G. White declarou que o santuário terrestre era “uma representação em miniatura do templo celestial, onde Cristo, nosso grande Sumo Sacerdote, depois de oferecer Sua vida em sacrifício, ministraria em favor do pecador”.
Em outra declaração, ela afirma:
“O que era realizado de maneira tipológica no ministério do santuário terrestre é efetuado de forma real no ministério celestial. Após Sua ascensão, nosso Salvador iniciou Sua obra como nosso Sumo Sacerdote”. Essa verdade está em harmonia com as palavras do apóstolo Paulo:
“Cristo não entrou em santuário feito por mãos humanas, figura do verdadeiro, mas no próprio Céu, para comparecer agora por nós diante de Deus” (Hb 9:24).
É importante compreender, contudo, que uma sombra continua sendo apenas uma sombra, e não a própria realidade. Embora represente aquilo que é real, ela não constitui uma reprodução idêntica, especialmente no que diz respeito aos aspectos materiais e físicos. As sombras fornecem uma ideia da realidade, mas, como o próprio Paulo afirma, não são “a imagem exata das coisas” (Hb 10:1).
3.1 Uma Porta Aberta em 1844
No santuário de Israel, a porta que levava do lugar santo ao lugar santíssimo, era aberta a cada ano, no Dia da Expiação (que era o dia do juízo). Com relação ao Santuário Celestial é dito que:
- “Pois Cristo não entrou num santuário feito por mãos, figura do verdadeiro, mas no próprio Céu, para agora comparecer por nós perante a face de Deus; nem também para Se oferecer muitas vezes, como o sumo sacerdote de ano em ano entra no santo lugar com sangue alheio. Ora, neste caso, seria necessário que Ele tivesse sofrido muitas vezes desde a fundação do mundo; agora, porém, ao se cumprirem os tempos, Se manifestou uma vez por todas, para aniquilar, pelo sacrifício de Si mesmo, o pecado.” (Hebreus 9:24 a 26)
(Assim, a oportunidade de Salvação ainda está aberta a todos, inclusive para você! Só que ela acabará quando cristo deixar o Lugar Santíssimo. O evento histórico que marcará isso são a queda das 7 pragas (AP 16). O Espírito Santo sempre tem razão, hoje é o dia de se decidir por Cristo, Hoje é o dia da sua, da nossa salvação. Porque amanhã Cristo poderá ter deixado de ser advogado e será apenas juíz e aí não haverá mais oportunidade de salvação para ninguém!)
3.2 A Corte Celestial de Daniel 7
Daniel descreve um cenário de juízo em que “foram abertos livros” (Dn 7:10). A teologia adventista interpreta esse juízo como pré-advento, iniciando-se antes da volta de Cristo.
3.3 Daniel 8:14 e a Purificação do Santuário
A profecia das 2300 tardes e manhãs (Dn 8:14) constitui a base da doutrina adventista do juízo investigativo. Segundo o entendimento tradicional, a purificação corresponde à obra final de Cristo no Lugar Santíssimo (WHITE, 2000).
A profecia de Daniel 8:14, que trata da purificação do Santuário Celestial, é o alicerce das nossas mais sublimes expectativas. O anjo Gabriel garantiu a Daniel que essa visão é verdadeira, e temos a palavra de Jesus Cristo — a “Testemunha Fiel e Verdadeira” (Apocalipse 3:14) , de que o plano de redenção, selado na cruz, alcançará seu ápice vitorioso (Filipenses 1:6).
O Fim da Demora Profética
O “livrinho aberto” nas mãos do anjo forte em Apocalipse 10 aponta diretamente para essa visão de Daniel. Embora o profeta tenha sido orientado a selar a visão por se referir a um tempo distante, o próprio Cristo, sob a figura de um mensageiro celeste, jura solenemente: “Já não haverá demora” (Apocalipse 10:6).
Isso indica que, após o período dos 2.300 anos (que terminou em 1844), começou a última etapa da história da salvação. A partir daí, o Apocalipse foca no Santuário Celestial:
“Abriu-se, então, o santuário de Deus, que se acha no céu, e foi vista a arca da Aliança no seu santuário…” (Apocalipse 11:19)
A Arca e o Dia da Expiação Antitípico
João não contempla o santuário terrestre, que era apenas uma sombra, mas o verdadeiro Tabernáculo no Céu (Hebreus 9:11). Ao visualizar a Arca da Aliança, João nos remete ao Lugar Santíssimo, o centro do antigo Dia da Expiação (Yom Kippur). No ritual terrestre, este era o dia do julgamento e da limpeza final dos pecados. No Céu, isso significa que Cristo iniciou a fase culminante de Sua mediação: o Juízo Investigativo.
A Extinção do Pecado e a Restauração da Imagem de Deus
A obra que Cristo realiza agora vai além do perdão; ela visa a erradicação completa do pecado. Perdoar é o primeiro passo, mas o plano divino exige que a mancha do mal seja banida do Universo para que a angústia não se levante duas vezes (Naum 1:9).
Deste ministério procedem benefícios vitais para o crente:
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Purificação Plena: Ser achado em paz, sem mácula e irrepreensível (2 Pedro 3:14).
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Restauração Espiritual: A recuperação total das faculdades mentais e espirituais em harmonia com Deus.
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Vindicação diante do Acusador: Satanás não pode mais acusar aqueles cujas vestes foram lavadas no sangue do Cordeiro (Apocalipse 12:10).
A Responsabilidade do Tempo do Fim
Assim como o antigo Israel devia “afligir a alma” no Dia da Expiação, nós somos chamados a um profundo exame de coração. Este não é um tempo para religiosidade superficial, mas para uma entrega total.
O profeta Joel (2:15-17) estabelece uma convocação urgente que ecoa até hoje:
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Santificai a congregação.
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Promulgai um santo jejum.
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Chorem os ministros e orem: “Poupa o Teu povo, ó Senhor”.
Afligir a alma não é autoflagelação, mas sim alinhar nossa vontade à de Deus, buscando a Cristo como o único remédio para nossa condição.
Cristo: Advogado, Juiz e Testemunha
Não precisamos temer o juízo se estivermos em Cristo. Ele é a Testemunha Fiel que conhece nossa sinceridade e o Juiz que nos oferece Suas próprias vestes de justiça. O juízo investigativo não é contra o povo de Deus, mas a favor dele, assegurando que o pecado e a morte não tenham mais jurisdição sobre suas vidas.
“Eu, Eu mesmo, sou o que apago as tuas transgressões por amor de Mim, e dos teus pecados Me não lembro.” (Isaías 43:25)
O mundo moderno pode ter perdido o senso da gravidade do pecado, mas para o Céu, ele continua sendo o intruso mortal que exigiu o sacrifício do Filho de Deus. Enquanto nosso Sumo Sacerdote ainda intercede, façamos da oração do salmista a nossa própria: “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração” (Salmo 139:23).
Desde 1844, o Universo testemunha a cena mais solene e grandiosa de toda a história: o verdadeiro Dia da Expiação. Para o cristão, não existe promessa mais profunda do que esta proclamação que emana do trono de Deus. Nossa esperança eterna não repousa em esforços próprios, mas na sentença que Cristo profere em nosso favor enquanto cooperamos com a obra transformadora do Espírito Santo.
1. Uma Declaração Além do Alcance Humano
Como bem observou o teólogo Edward Heppenstall, a declaração de purificação feita por Deus excede qualquer pronunciamento humano.
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Não é baseada na sabedoria dos intelectuais;
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Não depende das tradições dos antigos;
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Não é influenciada pela opinião das maiorias.
É, única e exclusivamente, a Palavra de Deus. Quando Ele ordena a pureza eterna, Ele está preparando o terreno para um Universo perfeito, onde o mal nunca mais terá lugar.
2. O Triunfo sobre o Mundo e o Sofrimento
Nada que este mundo ofereça , seja o brilho passageiro do sucesso ou as sombras da dor e do sofrimento , pode se comparar à segurança de ser declarado “limpo” pelo Redentor. Para aqueles que “lavaram suas vestiduras e as alvejaram no sangue do Cordeiro” (Apocalipse 7:14):
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O pecado perde sua jurisdição;
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A morte perde seu aguilhão;
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A influência do mal é completamente quebrada.
3. O Nome Aprovado nos Registros do Céu
Ter o nome aprovado no Livro da Vida, no exato momento em que nosso caso é apresentado perante o Pai, é a realidade mais significativa que um ser humano pode experimentar. É o selo de que pertencemos à família de Deus para sempre. Cristo, como nosso Sumo Sacerdote, não apenas nos defende; Ele nos cobre com Sua justiça, garantindo que o registro do pecado seja apagado e substituído pela Sua perfeição.
Ellen G. White escreve em O Grande Conflito, p. 483:
Todos os que verdadeiramente se tenham arrependido do pecado e que pela fé hajam reclamado o sangue de Cristo, como seu sacrifício expiatório, tiveram o perdão aposto ao seu nome, nos livros do Céu; tornando-se eles participantes da justiça de Cristo, e verificando-se estar o seu caráter em harmonia com a lei de Deus, seus pecados serão riscados e eles próprios havidos por dignos da vida eterna. O Senhor declara pelo profeta Isaías: “Eu, Eu mesmo, sou O que apago as tuas transgressões por amor de Mim, e dos teus pecados Me não lembro.” Isaías 43:25. Disse Jesus: “O que vencer será vestido de vestes brancas, e de maneira nenhuma riscarei o seu nome do livro da vida; e confessarei o seu nome diante de Meu Pai, e diante de Seus anjos.” “Qualquer que Me confessar diante dos homens, Eu o confessarei diante de Meu Pai que está nos Céus. Mas qualquer que Me negar diante dos homens, Eu o negarei também diante de Meu Pai, que está nos Céus.” Apocalipse 3:5; S. Mateus 10:32 e 33.
3.4 A Profecia das 70 Semanas e o Messias
Daniel 9 fornece o ponto de partida histórico das 2300 tardes e manhãs, começando com o decreto de Artaxerxes em 457 a.C. As 70 semanas apontam para Cristo como o Messias que confirma a aliança e encerra a necessidade de sacrifícios.
Daniel 9: A Oração, o Messias e o Cronograma da Redenção
O capítulo 9 de Daniel inicia-se com uma das súplicas mais tocantes das Escrituras. Nela, o profeta não se coloca como um observador distante, mas identifica-se profundamente com as falhas de seu povo. Sua contrição não nasce de uma falsa modéstia, mas do reconhecimento de que a única esperança para a humanidade reside na misericórdia de Deus.
1. Uma Confissão sem Reservas
Diferente do que muitos fazem, Daniel não busca atenuantes para o pecado. Ele utiliza uma gama variada de termos para descrever a rebeldia de Israel, apresentando os fatos com crueza e honestidade. Ele compreende que o exílio e a dor de Jerusalém são consequências diretas de terem se apartado dos mandamentos divinos (Daniel 9:5, 16).
[Image showing Daniel praying and Gabriel flying to him]
2. Gabriel e o Elo Perdido de Daniel 8
Enquanto Daniel ainda orava, o anjo Gabriel ,o mesmo que explicara a parte histórica da visão no capítulo 8 ,surge para concluir sua missão. É crucial notar que Daniel havia ficado enfermo e espantado com a visão anterior, pois o elemento do tempo (as 2.300 tardes e manhãs) não havia sido esclarecido (Daniel 8:27).
Gabriel retorna com um propósito específico: “fazer-te entender o sentido… entende a visão” (Daniel 9:22-23). Ele retoma exatamente o ponto onde parou, focando na porção profética do tempo.
As Setenta Semanas: O Período “Cortado”
Gabriel inicia a explicação detalhando um período de 70 semanas (490 anos) “determinadas” sobre o povo judeu. No original, o termo traduzido como “determinadas” significa cortadas ou separadas. Logicamente, esse período menor foi extraído do período maior de 2.300 anos.
Os Seis Propósitos da Missão de Cristo
A profecia aponta seis objetivos fundamentais que seriam alcançados nesse período, todos centrados na obra de Jesus:
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Cessar a transgressão: Reconciliar o homem com Deus.
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Dar fim aos pecados: Prover a solução definitiva para o mal.
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Expiar a iniquidade: Oferecer substituição perfeita na cruz.
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Trazer a justiça eterna: Imputar a perfeição de Cristo ao crente.
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Selar a visão e a profecia: Confirmar a veracidade do cronograma profético.
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Ungir o Santo dos Santos: Inaugurar o ministério sacerdotal de Cristo no Santuário Celestial.
O Ponto de Partida e o Cumprimento Messiânico
Gabriel estabelece o marco inicial: a saída da ordem para restaurar e edificar Jerusalém. Entre os decretos persas, apenas o de Artaxerxes I (457 a.C.) conferiu autonomia jurídica e política a Jerusalém, cumprindo os requisitos proféticos.
| Período | Evento Profético | Data de Cumprimento |
| Início | Decreto de Artaxerxes | 457 a.C. (Outono) |
| 69 Semanas | Unção do Messias (Batismo) | 27 d.C. (Outono) |
| Metade da 70ª | Morte de Cristo (Sacrifício cessa) | 31 d.C. (Primavera) |
| Fim da 70ª | Martírio de Estevão / Evangelho aos gentios | 34 d.C. |
O Desfecho da Profecia
Ao final das 70 semanas (490 anos), em 34 d.C., o tempo destinado exclusivamente à nação judaica encerrou-se. Restaram, portanto, 1.810 anos dos 2.300 originais. Somando esse restante ao ano 34 d.C., chegamos ao ano de 1844.
Nesta data, conforme a profecia, o Santuário Celestial ,o verdadeiro tabernáculo , começou a ser purificado. Este é o início do Juízo Investigativo, a fase final do ministério de Cristo antes de Sua volta gloriosa.
Um Apelo à Vigilância
A profecia das 70 semanas é a prova matemática de que Jesus é o Messias. Se a primeira parte da profecia se cumpriu com precisão milimétrica na cruz e no batismo, temos a garantia absoluta de que a segunda parte ,o julgamento e a purificação do santuário ,é igualmente real.
O risco de ignorarmos o tempo de nossa visitação é tão perigoso hoje quanto foi para Israel no primeiro advento. O convite do “evangelho eterno” é para que temamos a Deus e Lhe demos glória, pois “é chegada a hora do Seu juízo” (Apocalipse 14:7).
4 1844 E O INÍCIO DO MINISTÉRIO NO LUGAR SANTÍSSIMO
A interpretação das profecias levou os pioneiros adventistas à conclusão de que em 1844 Cristo iniciou a fase final de seu ministério sacerdotal. O Grande Desapontamento conduziu à redescoberta da doutrina do santuário e redefiniu o significado da purificação profetizada.
A purificação do santuário celestial, prefigurada no antigo Dia da Expiação, encontrou seu marco histórico inicial em 1844 (conforme a profecia de Daniel 8:14). Esse evento não é apenas uma data cronológica, mas o início de uma fase decisiva no plano da redenção: o julgamento divino.
O Tribunal e a Intercessão
As Escrituras descrevem esse momento como uma cena solene em que livros são abertos perante o tribunal do Universo (Dn 7:9, 10). É uma realidade que convoca a atenção de toda a humanidade, pois a “hora do Seu juízo é chegada” (Ap 14:6, 7). No entanto, esse julgamento não deve ser encarado com pavor servil, mas com esperança cristocêntrica.
De acordo com a compreensão bíblica e os escritos de Ellen White, o ministério de Cristo no Lugar Santíssimo desde 1844 oferece benefícios vitais:
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Perdão Pleno: Jesus atua como nosso Intercessor, aplicando os méritos de Seu sacrifício aos que se arrependem.
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Purificação: Mais do que um registro removido, é a oportunidade de uma vida alinhada com a vontade de Deus.
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Garantia de Salvação: A fase atual do Seu sacerdócio é o prelúdio para Sua segunda vinda, quando Ele aparecerá para conceder a salvação final aos que O aguardam (Hb 9:28).
Uma Realidade Presente
O trabalho sacerdotal de Cristo não é estático; ele é dinâmico e contínuo. Ele permanece ativo em favor de cada ser humano, buscando restaurar em nós a imagem divina. O convite hoje é para que cada um de nós se aproprie dessa intercessão, reconhecendo que temos um Advogado incansável diante do Pai.
“O alvo final do sacerdócio de Cristo é levar o Seu povo da purificação do santuário à glória da eternidade.”
5 “ANTES DA PORTA SE FECHAR”: DIMENSÕES ESCATOLÓGICAS
5.1 O Conceito de Porta da Graça
A “porta” simboliza oportunidade espiritual, como nas parábolas de Jesus (Mt 25). O fechamento da porta indica o término da mediação divina.
“Porta da Graça” é uma expressão usada pelos Adventistas para se referir ao encerramento do tempo de graça dado à humanidade para que se arrependa dos seus pecados e volte-se para Deus.
Este “fechamento da porta das oportunidades” ocorrerá no futuro quando Jesus terminar Sua obra no Santuário Celestial e sair de lá a fim de nos buscar (ver Daniel 12:1, 2). Assim, a porta do Santuário Celestial , onde Cristo intercede , será fechada.
Vários momentos da história bíblica revelam que Deus estabelece um limite moral além do qual Ele não permite que pessoas ou civilizações continuem avançando na prática deliberada do pecado.
Nos dias de Noé, Deus concedeu 120 anos de oportunidade, durante os quais houve pregação, apelo ao arrependimento e convite à salvação. Aqueles que rejeitaram entrar na arca, ao final desse período, ficaram do lado de fora quando a porta foi fechada.
No tempo do antigo Israel, quando a maldade nacional atingiu níveis alarmantes e persistentes, Deus permitiu o cativeiro, não como vingança, mas como juízo corretivo e consequência da rejeição contínua à Sua vontade.
Mais tarde, quando o povo judeu rejeitou de forma definitiva os mensageiros enviados por Deus — culminando na rejeição de Jesus Cristo e no apedrejamento de Estevão — deixou de exercer o papel exclusivo de “povo de Deus” como portador da missão divina ao mundo.
Esses exemplos demonstram que Deus, como Juiz justo, mantém um registro moral da história humana. Quando um determinado limite é ultrapassado de maneira consciente e persistente, Ele não permite que o pecado continue indefinidamente sem intervenção.
A Bíblia ensina que haverá um momento em que a humanidade alcançará um grau tão profundo de impiedade que Deus retirará Seu Espírito daqueles que rejeitaram de forma definitiva segui-Lo. Ao mesmo tempo, Ele manterá Seu Espírito sobre aqueles que O amam e permanecem fiéis. Esse período é comumente chamado de “fechamento da porta da graça”, quando a oportunidade de escolha e arrependimento se encerra porque o tempo da misericórdia chegou ao fim.
A Escritura confirma essa solene realidade nas palavras de Apocalipse 22:11:
“Continue o injusto fazendo injustiça, continue o imundo ainda sendo imundo; o justo continue na prática da justiça, e o santo continue a santificar-se.”
5.2 O Fechamento da Graça
A teologia adventista afirma que haverá um momento em que Cristo cessará sua intercessão. Nesse momento, o destino eterno de cada pessoa estará decidido.
O livro de Apocalipse descreve um momento solene na história da humanidade: o instante em que o destino de cada indivíduo se torna definitivo. Em Apocalipse 22:11, as palavras divinas ecoam como um decreto final, estabelecendo que aquele que escolheu a injustiça permanecerá nela, enquanto aquele que buscou a santidade será confirmado em sua jornada. Este é o encerramento do “período de graça”, o ponto em que as escolhas se tornam irrevogáveis.
O Julgamento Prévio à Sua Vinda
A promessa de que Cristo retornará para recompensar cada um conforme as suas obras (Mateus 16:27; Apocalipse 1:7) pressupõe que, no momento de Sua manifestação gloriosa, os vereditos já terão sido proferidos. Se Jesus volta para buscar os Seus e executar o julgamento, é evidente que a oportunidade de salvação se encerrou antes do toque das trombetas. No Segundo Advento, não haverá espaço para mudanças de última hora; cada coração já terá selado sua própria escolha diante da eternidade.
O Exemplo Histórico do Dilúvio
Para compreendermos essa transição, a Bíblia nos remete aos dias de Noé. Por mais de um século, a mensagem de arrependimento foi proclamada, mas a maioria preferiu o descaso.
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O Fechamento da Porta: Assim como a porta da arca foi fechada pelo próprio Deus antes que a primeira gota de chuva caísse, o tempo da graça também terá um limite.
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A Ilusão do Amanhã: Muitos acreditam erroneamente que haverá uma “segunda chance” após a vinda do Senhor. No entanto, a Escritura e a lógica do Plano da Redenção nos mostram que, uma vez que o Salvador surja nas nuvens, o tempo de decidir terá passado. A situação será um reflexo exato do que ocorreu antes do Dilúvio: a separação final entre os que estão dentro e os que ficaram de fora.
É essencial compreender a sequência dos eventos finais para que não sejamos pegos de surpresa:
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O Término da Investigação: A porta da graça não se fecha no momento da volta de Jesus, mas um pouco antes. Enquanto Ele ainda está no Santuário Celestial, o destino de cada ser humano é selado para a vida ou para a morte.
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A Fixação dos Destinos: Uma vez encerrada a obra de mediação, o caráter de cada indivíduo permanece fixo. O justo continuará sendo justo, e o injusto permanecerá em sua escolha, pois o tempo de transformação e arrependimento terá expirado.
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O Intervalo Final: Entre o fechamento da porta da graça e o aparecimento de Cristo nas nuvens do céu, o mundo passará por um breve período em que os fiéis viverão sem um intercessor no santuário, protegidos apenas pela presença de Deus e pela firmeza de sua fé.
Uma Questão de Escolha Permanente
O encerramento da graça é, na verdade, a ratificação divina das nossas escolhas diárias. A vinda de Cristo é a execução de um julgamento que já ocorreu nos tribunais celestiais. Portanto, a preparação não deve ser adiada para o momento do aparecimento do Senhor, pois, quando Ele for visto por todo olho, o tempo de oportunidade já terá sido substituído pela realidade da recompensa.
A porta da arca da nossa salvação ainda está aberta, e o convite do Espírito Santo continua a ecoar. Hoje é o tempo de garantir que nosso nome esteja escrito no Livro da Vida, enquanto o Sumo Sacerdote ainda intercede por nós.
O Convite de Hoje
Enquanto o sol da graça ainda brilha, a urgência é o presente. A Bíblia é enfática ao dizer: “Hoje” é o tempo aceitável (Hebreus 3:13). Atualmente, temos acesso livre ao Santuário Celestial, onde Cristo atua como nosso Sumo Sacerdote e intercessor (Hebreus 8:1-2).
Não há pecado que a graça não possa alcançar, nem erro que o arrependimento sincero não possa apagar (1 João 1:9). Cristo não apenas perdoa, mas concede o poder transformador para que o ser humano viva em obediência e novidade de vida.
Aproxime-se de Jesus exatamente como você está. Cultive a comunhão por meio da oração e do exame das Escrituras. Essa conexão diária não apenas garante sua segurança espiritual, mas transforma seu caráter, tornando-o uma luz para aqueles que ainda caminham em trevas.
A teologia bíblica aponta para um momento culminante em que o santuário celestial concluirá sua obra de purificação. Quando o exame dos registros daqueles que professaram seguir a Cristo ao longo das eras for finalizado, ocorrerá o que conhecemos como o fechamento da porta da misericórdia.
Neste instante, a intercessão cessa, não por falta de amor divino, mas porque cada alma terá atingido a maturidade de sua própria decisão.
5.3 Implicações para a Humanidade
Vivemos, segundo a compreensão adventista, no período imediatamente anterior ao fechamento da porta da graça, o que intensifica a urgência espiritual e missionária.
A porta da graça foi aberta quando Deus decidiu que salvaria o ser humano caso o homem pecasse. Isto foi decidido antes da fundação do mundo. Apocalipse 13:8; Efésios 1:4, 5.
Quando Adão e Eva pecaram, Deus tornou esta graça salvadora conhecida por meio da promessa de um redentor que pagaria pelos pecados de toda
a humanidade. Gênesis 3:15.
Desde então, a salvação é oferecida a todos os homens. Hoje diante de você está uma porta aberta; é a porta da graça de Cristo. É o caminho que pode levar você para a vida eterna.
A porta da graça se fechará, e aí não haverá mais chance de salvação. Hoje você tem a escolha; vida ou morte.
6. O Santuário Celestial e a Mensagem dos Três Anjos
6.1 O Primeiro Anjo: O Anúncio do Juízo
A proclamação: “É chegada a hora do seu juízo” (Ap 14.7) harmoniza-se com o juízo investigativo iniciado em 1844. O primeiro anjo convoca o mundo à adoração verdadeira.
A igreja de Deus no tempo do fim foi chamada para dar um solene toque de advertência ao mundo inteiro. Sua missão é conclamar homens e mulheres a temer a Deus e a dar-Lhe glória, pois chegou a hora do Seu juízo. Trata-se do anúncio do grande e terrível Dia do Senhor, proclamado anteriormente pelos profetas (Ap 14:7; Joel 2).
Essa mensagem é apresentada nas Escrituras da seguinte forma:
“Vi outro anjo voando pelo meio do céu, tendo um evangelho eterno para pregar aos que habitam na Terra, a cada nação, tribo, língua e povo, dizendo com grande voz: ‘Temam a Deus e deem glória a Ele, pois é chegada a hora do Seu juízo; e adorem Aquele que fez o céu, a Terra, o mar e as fontes das águas’” (Ap 14:6–7).
O primeiro anjo chama a humanidade a temer a Deus e a glorificá-Lo, porque o Seu juízo já teve início. Essa mesma advertência ecoa nas palavras do profeta Joel, que convoca o povo ao arrependimento sincero e ao retorno completo ao Senhor, pois o Dia do Senhor é grande, terrível e está próximo — um dia em que a Terra tremerá e os céus estremecerão (Joel 2).
Temer a Deus, nesse contexto, não significa pavor, mas reverência, respeito e obediência. É reconhecer Sua autoridade e voltar-se para Ele com seriedade, à luz do fato de que a hora do juízo chegou. Assim, a essência da mensagem do primeiro anjo pode ser resumida da seguinte forma: temam o Juiz e adorem o Criador, pois há um Deus que governa o universo e julga com justiça.
Temer a Deus é viver conscientes de que Seus olhos estão sobre nós em todo tempo. É compreender que Ele nos vê onde quer que estejamos e em tudo o que fazemos. Esse temor se manifesta na obediência aos Seus mandamentos, não apenas em público, mas também na intimidade do lar. A obediência à lei divina é o sinal visível do amor a Deus (Ec 12:13). Temer a Deus é amá-Lo de todo o coração e responder ao Seu amor, sentindo a necessidade de retornar à Sua presença e à Sua glória (Dt 6:5).
Essa mensagem, porém, é proclamada especificamente no tempo do fim. O próprio texto afirma que “a hora do juízo é chegada”, e o juízo teve início em 1844. Por isso, a proclamação da mensagem do primeiro anjo torna-se um sinal distintivo que identifica a igreja de Deus nos últimos dias. Ao buscar a igreja verdadeira, é essencial verificar se ela anuncia fielmente essa mensagem.
Além disso, o anjo exorta à adoração do Criador — Aquele que fez o céu, a Terra, o mar e as fontes das águas. Essa linguagem é uma referência clara ao mandamento do sábado, memorial da criação (Êx 20:8–11). Dessa forma, a observância do sábado emerge como outra característica distintiva da igreja do tempo do fim, pois o juízo divino e o descanso do sétimo dia caminham juntos na proclamação do evangelho final.
Fica igualmente evidente que a igreja do tempo do fim seria um movimento global. A mensagem do “evangelho eterno” deveria alcançar todos os habitantes da Terra, abrangendo cada nação, tribo, língua e povo. Trata-se de uma obra de alcance mundial, sem fronteiras geográficas ou culturais.
Em resumo, a mensagem do primeiro anjo é solene e urgente. Ela deve despertar séria reflexão, pois o Juiz já Se assentou e os livros foram abertos. Ao mesmo tempo, é uma mensagem de esperança, pois anuncia que a longa tragédia do pecado está próxima do fim e que a justiça de Deus finalmente prevalecerá.
6.2 O Segundo Anjo: A Queda de Babilônia
Babilônia simboliza sistemas religiosos corrompidos (Ap 14.8). A mensagem do segundo anjo chama ao abandono do erro e ao retorno à verdade bíblica.
A igreja de Deus no tempo do fim proclama que Babilônia caiu, encontra-se em ruínas espirituais e jamais se levantará novamente (Ap 17:1–6; 18:2, 4, 8). Trata-se de um anúncio solene, que revela o colapso irreversível dos sistemas religiosos que se afastaram da verdade divina. A Escritura apresenta essa mensagem nos seguintes termos:
“Seguiu-se outro anjo, o segundo, dizendo: ‘Caiu! Caiu! A grande Babilônia, que fez todas as nações beberem do vinho do furor da sua prostituição’” (Ap 14:8).
No livro do Apocalipse, o nome “Babilônia” é usado de forma simbólica para representar o conjunto das forças religiosas e espirituais que, nos últimos dias, se opõem à igreja de Deus. Esse sistema é caracterizado por ensinar mandamentos humanos em lugar da verdade bíblica e por substituir a revelação divina por tradições e doutrinas de homens.
Não apenas o catolicismo romano deturpou verdades essenciais das Escrituras, mas também o protestantismo apóstata, que, embora tenha iniciado a grande Reforma contra os abusos e corrupções do papado, acabou estagnando espiritualmente. Esse protestantismo recusou-se a avançar com a luz progressiva da Palavra de Deus e rejeitou, em 1844, a segura “palavra profética”, da qual o apóstolo Pedro declara:
“Vocês fazem bem em dar atenção a ela, como a uma luz que brilha em lugar escuro, até que o dia clareie e a estrela da alva nasça em seus corações” (2Pe 1:19).
Ao rejeitar a mensagem do primeiro anjo, esse sistema religioso também passou a negar a validade do quarto mandamento, que chama o ser humano a adorar a Deus como Criador de todas as coisas.
A “fornicação” mencionada pelo anjo simboliza o adultério espiritual , a união ilegítima entre a verdade e o erro. Trata-se da corrupção das verdades puras da Palavra de Deus, isto é, da apostasia. Essa apostasia teve início logo após a morte dos apóstolos e vem se aprofundando ao longo da história, alcançando seu ápice nos últimos dias.
A queda de Babilônia é, portanto, uma queda espiritual. Isso significa que os sistemas representados pelo catolicismo, pelo protestantismo apóstata, pelo espiritismo e por outras correntes filosófico-religiosas não possuem mais a possibilidade de se erguer espiritualmente para corrigir seus erros e desvios. Eles se afastaram da luz e, segundo a profecia, não se levantarão novamente. O anúncio do anjo é um chamado à lucidez espiritual: não há esperança de salvação dentro desses sistemas religiosos enquanto permanecerem em sua apostasia.
A mensagem do segundo anjo não é uma mensagem de consolo, mas de juízo. Ela revela a inevitável queda da Babilônia mística e denuncia a corrupção da religião. A missão desse anjo é expor essa falsificação espiritual diante da humanidade. Seu propósito não é meramente acusar, mas advertir com urgência.
As Escrituras afirmam que o dragão, a besta e o falso profeta , símbolos centrais dessa Babilônia espiritual, serão finalmente lançados no lago de fogo e enxofre, recebendo a justa retribuição por sua rebelião contra Deus (Ap 16:13; 19:20; 20:10).
6.3 O Terceiro Anjo: O Alerta Final
A advertência contra a marca da besta (Ap 14.9–12) revela o clímax do conflito espiritual. O santuário ilumina esse chamado, destacando a importância da fidelidade a Deus antes do fechamento da porta da graça.
A igreja de Deus no tempo do fim proclama a mensagem do terceiro anjo, advertindo solenemente contra a adoração da besta e de sua imagem, e reafirmando a validade da observância do sábado , o sétimo dia da semana , como o sinal distintivo entre Deus e Seu povo (Ap 14:9–12). Trata-se da advertência final do Céu à humanidade. A Escritura a apresenta nos seguintes termos:
“Seguiu-se a estes outro anjo, o terceiro, dizendo em alta voz: ‘Se alguém adora a besta e a sua imagem e recebe a sua marca na testa ou na mão, também esse beberá do vinho do furor de Deus, preparado sem mistura, no cálice da Sua ira, e será atormentado com fogo e enxofre, diante dos santos anjos e na presença do Cordeiro. A fumaça do seu tormento sobe para todo o sempre. E não têm descanso algum, nem de dia nem de noite, os adoradores da besta e da sua imagem e quem quer que receba a marca do nome da besta. Aqui está a perseverança dos santos, os que guardam os mandamentos de Deus e a fé em Jesus’” (Ap 14:9–12).
Essa é a advertência mais solene já enviada pelo Céu, especialmente dirigida ao protestantismo que se recusou a reconhecer e aceitar a mensagem do primeiro anjo. Para muitos, suas palavras soam como ameaça ou intimidação, mas, em sua essência, tratam-se de um apelo misericordioso e urgente. É um aviso claro: aqueles que escolherem adorar a criatura em lugar do Criador experimentarão as consequências da ira divina.
Segundo essa mensagem, a adoração torna-se o ponto central do grande conflito. Na batalha final entre a verdade e o erro, cada ser humano será chamado a tomar uma decisão consciente. Não haverá neutralidade. Aqueles que optarem por adorar a besta e sua imagem beberão do vinho da ira de Deus e enfrentarão o juízo descrito na profecia.
A besta mencionada na mensagem representa o poder papal, ou catolicismo romano, enquanto sua imagem simboliza o protestantismo apóstata, que, nos eventos finais, se unirá ao poder civil para perseguir o povo de Deus e impor a marca da besta por meio da força do Estado.
Em contraste, o selo ou marca de Deus é a santificação do sétimo dia da semana, o sábado, estabelecido como sinal do relacionamento entre o Criador e Seus filhos. A própria Escritura afirma:
“Também lhes dei os Meus sábados, para servirem de sinal entre Mim e eles, para que soubessem que Eu sou o Senhor que os santifica” (Ez 20:12; cf. v. 20).
“Certamente vocês guardarão os Meus sábados, pois é sinal entre Mim e vocês de geração em geração, para que saibam que Eu sou o Senhor, que os santifica” (Êx 31:13; cf. vv. 12–17).
A marca da besta, portanto, é o oposto do selo divino. Ela se manifesta na santificação do primeiro dia da semana, uma instituição religiosa promovida pelo papado como prova de sua autoridade eclesiástica, conforme profetizado em Daniel 7:25.
A mensagem do terceiro anjo também destaca a perseverança dos santos e os identifica claramente como aqueles que “guardam os mandamentos de Deus e a fé em Jesus” (Ap 14:12). Esses fiéis são apresentados como um grupo pequeno, que vive no temor do Senhor e permanece leal aos antigos mandamentos do Deus de Israel, mesmo diante da oposição e da perseguição.
Essa mensagem é, acima de tudo, um chamado à decisão pessoal. Cada pessoa deve escolher entre adorar a besta ou adorar a Deus, entre alinhar-se ao erro ou permanecer do lado da verdade. A salvação é uma experiência individual. Aqueles que adoram a Deus e perseveram em obedecer aos Seus mandamentos receberão Sua aprovação final.
Imediatamente após a proclamação dessa mensagem, a profecia aponta para o retorno glorioso de Cristo (Ap 14:14–16), indicando que o tempo da graça está chegando ao fim.
A Igreja Adventista do Sétimo Dia é a única organização religiosa que proclama, de forma contínua e mundial, a tríplice mensagem angélica de Apocalipse 14. Ela não é simplesmente mais uma denominação entre tantas outras, nem apenas mais um corpo religioso. Trata-se de um movimento levantado pelo próprio Deus , um movimento profético, chamado a anunciar a verdade divina para os últimos dias da história humana.
Conclusão
A doutrina do Santuário Celestial, na perspectiva adventista, articula o plano da salvação desde o sacrifício de Cristo até o juízo final. O ministério atual de Cristo no Lugar Santíssimo revela a seriedade do tempo presente e conclama a humanidade a uma decisão antes que a porta da graça se feche. A mensagem dos três anjos constitui o clímax dessa revelação.
Os três anjos de Apocalipse 14 representam o povo de Deus engajado na grande missão de levar o evangelho eterno a todos os povos da Terra. Essas mensagens não descrevem anjos literais proclamando o evangelho, mas simbolizam um movimento humano levantado por Deus para anunciar as últimas advertências ao mundo.
O primeiro e o segundo anjos estão diretamente ligados ao grande movimento mundial que aguardava a segunda vinda de Cristo em 1844, conhecido historicamente como o movimento milerita. Esse movimento cumpriu seu papel profético ao anunciar a proximidade do juízo e chamar as pessoas ao preparo espiritual para o encontro com o Senhor.
Contudo, a profecia indicava que a obra de Deus não terminaria com o Grande Desapontamento de 1844, quando Cristo não retornou conforme o esperado. Pelo contrário, após esse evento, um novo movimento mundial deveria surgir. Essa continuidade profética é claramente apresentada em Apocalipse 10:11, quando, após a experiência do livrinho que era doce na boca e amargo no estômago, é declarado:
“É necessário que você ainda profetize a respeito de muitos povos, nações, línguas e reis”.
Essa afirmação indica de forma inequívoca que, depois do desapontamento de 1844, Deus despertaria um povo especial, com uma missão bem definida: proclamar a verdade para o tempo do fim e advertir o mundo contra a adoração da besta papal, de sua imagem protestante e de sua marca , a santificação do domingo como dia sagrado.
A Igreja Adventista do Sétimo Dia surgiu em harmonia com as profecias de Daniel 8 e de Apocalipse 10 e 11 a 14, sendo levantada pela providência divina para cumprir essa missão solene e gloriosa designada pela inspiração.
Ellen G White diz:
“O assunto do santuário e do juízo investigativo deve ser claramente compreendido pelo povo de Deus. Todos necessitam conhecer por si mesmos o ministério e a obra de seu grande Sumo Sacerdote. Do contrário, será impossivel exercer a fé que é essencial neste tempo ou cumprir o papel que Deus deseja que desempenhemos. Cada indivíduo tem uma eternidade a ganhar ou a perder. Cada qual tem um caso pendente no tribunal de Deus. Cada um terá de encarar o grande Juiz. Quão importante é que cada pessoa contemple muitas vezes a solene cena do Juízo, em que os livros são abertos, e, assim como Daniel, cada um receberá a recompensa que lhe cabe“ O Grande Conflito, p 409
Ao proclamar ao mundo o evangelho eterno, anunciar que a hora do juízo começou em 1844, chamar à adoração do verdadeiro Deus como Criador, declarar a queda de Babilônia, advertir contra a adoração da besta, de sua imagem e de sua marca, anunciar as sete últimas pragas e o destino final dos impenitentes no lago de fogo após o milênio, a Igreja Adventista do Sétimo Dia demonstra cumprir plenamente o quadro profético delineado nas Escrituras.
Diante desse conjunto de verdades, não resta dúvida quanto à identidade da igreja de Deus no tempo do fim. A Tríplice Mensagem Angélica constitui o coração de sua missão e o fundamento de seu chamado profético para preparar um povo para o breve retorno de Cristo.
REFERÊNCIAS
(ABNT NBR 6023:2018)
BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Almeida Revista e Atualizada. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.
NICHOL, Francis D. (Org.). Comentários Bíblicos Adventistas do Sétimo Dia. 7 v. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 1980.
WHITE, Ellen G. O Grande Conflito. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2005.
WHITE, Ellen G. O Desejado de Todas as Nações. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2000.
WHITE, Ellen G. Patriarcas e Profetas. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 1995.
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