Osíris e Hórus: Protótipos do Jesus da Fé?

Resumo: O presente artigo analisa a proposição de que a narrativa da vida de Jesus Cristo apresentada no Novo Testamento consiste numa transposição detalhada do mito egípcio dos deuses Osíris e Hórus, conseqüentemente não podendo ser caracterizada como verdade histórica. Inicialmente, o autor descreve e comenta o que é possível se conhecer acerca do mito de Osíris-Hórus principalmente a partir das fontes originais hieroglíficas e pictográficas. Em seguida, examina os principais argumentos utilizados pelos defensores da idéia de um “Jesus mítico” derivado dos relatos religiosos do antigo Egito. O objetivo central do trabalho é o de verificar a plausibilidade de tais argumentos, analisando se realmente são válidos como prova de que o Jesus dos Evangelhos é, na verdade, um mito.

Introdução

Em junho de 2007 foi lançado no serviço Google Vídeo da Internet um documentário independente denominado Zeitgeist,1 produzido pelo diretor norte-americano Peter Joseph. Devido ao seu conteúdo agressivo, polêmico e intrigante, tornou-se, em poucos meses, um fenômeno de audiência (8 milhões de acessos somente até novembro daquele ano).

O filme se divide em duas partes, a primeira das quais foi ironicamente intitulada “The Greatest Story Ever Told” (“A Maior História Já Contada”), em referência a uma das mais célebres obras cinematográficas sobre a história de Jesus Cristo. Nessa seção o diretor trabalha a idéia de que o Jesus divino da fé cristã é um híbrido literário, astrológico e mitológico. De acordo com o filme, a biografia de Jesus nos evangelhos canônicos teria sido construída a partir da junção de aspectos variados de uma grande quantidade de lendas da antigüidade. A tese do autor é a de que o culto a Jesus faz parte de um estratagema especificamente forjado nos primeiros séculos da era cristã pelas autoridades seculares e religiosas com o intuito de sujeitar e explorar os povos.

O presente artigo pretende explorar um dos mais importantes mitos relacionados pelo documentário Zeitgeist como prototípicos da história de Jesus descrita nos evangelhos: a lenda egípcia dos deuses Osíris e Hórus. A primeira parte do trabalho contém uma tentativa de reconstrução do mito egípcio a partir das fontes originais hieroglíficas e pictóricas disponíveis na atualidade pelo esforço de arqueólogos e egiptólogos. Também são aproveitadas observações de diversos autores especializados em mitologia egípcia.

Traçado o resumo do mito de Osíris-Hórus em seus aspectos mais importantes, o artigo investiga, na seqüência, os principais argumentos utilizados na defesa de que a história do Jesus adorado pelos cristãos deriva da narrativa egípcia, cujos registros são vários séculos mais antigos do que os evangelhos. A análise pretende levantar o que existe de plausível nessas colocações e o que pode ser descartado a partir da comparação dos aspectos de uma narrativa com os da outra. O objetivo final é o de verificar se os argumentos são válidos como prova de que o Jesus dos evangelhos é, na verdade, um mito.

O principal expoente dentre os autores que advogam a tese do “Cristo mítico” com base no estudo do mito de Osíris-Hórus, é o egiptologista inglês Gerald Massey,2 cujos argumentos foram publicados, pela primeira vez, no final do século 19. Três obras suas são citadas como fontes para o documentário Zeitgeist.3 Outros estudiosos que igualmente se opõem à veracidade histórica do Jesus da fé devido à suposta derivação da narrativa egípcia também foram pesquisados para este artigo,4 mas como suas colocações praticamente transcrevem o material produzido de antemão por Massey, a análise tomou como objeto majoritariamente a obra deste último autor.

O tema é, sem dúvida, importante para os dias de hoje. O cristianismo é a maior religião do planeta em número de adeptos. Sua legitimação depende da total veracidade dos eventos da vida de Jesus Cristo narrados nos evangelhos, tornando-se óbvias as implicações de uma desconstrução da unidade narrativa evangélica que revele a história bíblica como não passando de expressão mítica. Diante da acusação feita contra o cristianismo como sendo um instrumento de controle e coação das massas usado pelos poderes políticos e eclesiásticos, torna-se em extremo relevante verificar se a história que serve de base àquela religião é verossímil e merece confiança.

Uma tentativa de reconstrução do mito de Osíris-Hórus

O culto funerário do deus Osíris, no qual o deus Hórus e outras divindades do panteão egípcio tomam parte relevante, ganhou enorme preponderância no Egito a partir da fase histórica denominada de Médio Império (2160-1580 a.C.). Ele enfatiza dois dos elementos mais especialmente focados pela religiosidade humana: a ressurreição e o juízo pós-morte.

Antes que se esboce aqui o mito em questão, será extremamente útil para o propósito deste trabalho esclarecer que a literatura religiosa do antigo Egito foi trazida à luz de forma bastante fragmentária pelas descobertas arqueológicas, e, portanto, não apresenta uma conveniente sistematização das narrativas mitológicas desenvolvidas nessa região em passado tão distante, que remonta a milhares de anos antes de Cristo. Em não poucos casos, do estudo e comparação dos textos encontrados nos papiros, paredes, colunas e objetos extrai-se significação enigmática ou mesmo algum grau de contradição entre as informações. Para uma idéia dessa dificuldade, observe-se os seguintes comentários:

Os Textos da Pirâmide exprimem quase exclusivamente as concepções relativas ao destino do rei depois da morte. Apesar do esforço dos teólogos, a doutrina não está perfeitamente sistematizada. Descobre-se uma certa oposição entre concepções paralelas e, por vezes, antagônicas.5

As grandes composições religiosas, tais como o Livro dos Mortos , chegaram até nós num triste estado e estão cheias de enigmas; a sua fraseologia oca, as suas metáforas extravagantes, os seus jogos etimológicos se chocam, quando não são ininteligíveis ou destituídos de sentido. … Muitas figuras divinas foram transformadas pela mitologia até ficarem irreconhecíveis.6

Tal situação por si já constitui uma barreira colossal à tentativa de encontrar uma contrapartida no mito egípcio de Osíris-Hórus para os diversos detalhes da vida de Jesus. Destacado esse ponto, passa-se agora à recuperação do mito egípcio em suas linhas gerais.

Osíris e Hórus eram, em princípio, adorados como divindades solares. Há vários exemplos de representação desses deuses tanto identificados com o disco solar, quanto levando o disco solar sobre a cabeça.7 Além disso, freqüentemente esses deuses são tomados um pelo outro.8

A narrativa do mito osiriano pode ser reconstituída apenas de forma fragmentária a partir das fontes antigas, principalmente dos textos e imagens do chamado Livro dos Mortos . Esses textos apresentam Osíris como sendo previamente mortal e tendo sido assassinado pelo seu invejoso irmão, o deus Set.9 Ísis é a esposa sofredora que localiza o corpo sem vida do marido e coabita com ele por meio de feitiçaria, concebendo uma criança: o deus Hórus.10 Esse filho é criado pela deusa longe das vistas de Set, em um lugar secreto entre os pântanos de papiro do delta do Nilo.

Novo ato do drama tem início quando Set, descobrindo o esconderijo, aprisiona mãe e filho em uma casa, da qual ambos escapam ajudados pelo deus Tot. Em sua fuga, são protegidos por sete escorpiões, um dos quais pica seu filho, que vem a morrer. Então ela e sua irmã Néftis clamam a ajuda do deus Rá, o qual envia Tot com palavras mágicas que restauram Hórus à vida e à saúde.11

Interessante como possa parecer, a lenda da ressurreição de Hórus é um episódio periférico em relação ao ponto central do mito: a ressurreição de Osíris.12 Certos autores sugerem que a força de apelo do mito está na crença de que Osíris fora inicialmente um ser humano (o rei do Egito, conforme a exposição de Plutarco)13 que foi morto de maneira vil, mas ressuscitou para ser o senhor supremo do mundo inferior, o grande juiz dos mortos.

Uma tradição sobre a ressurreição de Osíris informa que seu corpo foi reconstituído por Ísis, Hórus e Anúbis,14 agindo sob instruções do deus Tot: Boa porção de cerimônias mágicas parecem ter sido introduzidas no processo, as quais, por sua vez, passaram a ser utilizadas pelos sacerdotes no caso de todo egípcio morto em conexão com o embalsamamento e sepultamento do morto na esperança da ressurreição. Osíris, entretanto, foi reputado como a causa principal da ressurreição humana, sendo ele capaz de conferir vida após a morte por havê-la alcançado.15

Com relação ao retorno de Osíris à vida, é notável a ênfase dada ao respeito filial de Hórus pela memória do pai assassinado, atitude cuja lembrança conquistou muita honra entre os egípcios. Saussaye informa que foi Hórus quem fixou os detalhes da mumificação16 do deus, estabelecendo o padrão para todo filho egípcio piedoso. A esse respeito, ele foi considerado o “ajudador dos mortos” (tal como havia sido o auxiliador de Osíris), e tido como o mediador entre eles e os juízes do Duat . Assim, os seres humanos passaram a ansiar pela assistência de Hórus após a morte como guia ao mundo inferior, e também por sua atuação como mediador no juízo a favor deles.17

Após a ressurreição de Osíris, ocorre uma batalha entre Hórus e Set pelo trono do falecido rei.18 Essa batalha é vencida por Hórus, que então desce à terra dos mortos para dar a Osíris a boa notícia de sua coroação como legítimo sucessor do pai.19 Finalmente, há um aspecto bastante interessante em relação à morte de Osíris e a vitória de Hórus sobre as forças do mal, encarnadas em Set. A história de Osíris e Hórus era reencenada em cada processo de morte e sucessão do rei no trono do Egito. No entanto, Osíris progressivamente tornou-se o modelo exemplar não somente para os soberanos, mas também para cada indivíduo. Seguindo o seu exemplo, os falecidos conseguem transformar-se em “almas”, ou seja, em seres espirituais perfeitamente integrados.20

Análise da comparação de Jesus com Osíris-Hórus

Traçado um esboço geral do mito de Osíris-Hórus em seus aspectos mais importantes, passa-se agora à menção e análise dos principais argumentos pelos quais diversos autores têm proposto que a narrativa encontrada nos evangelhos acerca de Jesus Cristo deve ser encarada como uma recuperação posterior do mito egípcio.

Para S. Brandon, “em termos de fenomenologia das religiões, Osíris é uma prefiguração de Cristo como deus morto e ressuscitado, e como salvador, embora sua morte não fosse interpretada em sentido soteriológico”.21 De acordo com esse argumento, retomando o mito do deus Osíris – que passou pelo estágio humano,22 foi morto de maneira violenta e ressuscitou, passando a ser o juiz-salvador da humanidade –, os evangelhos também apresentariam um deus-homem (Jesus Cristo) que morre de forma chocante e ressurge para ser juiz-salvador do mundo.

Seria incorreto negar a existência de certa semelhança. No entanto, alguns contrastes em detalhes fundamentais de ambas as histórias são irreconciliáveis:

1) No mito egípcio, Osíris é filho de uma divindade inferior, Geb (o deus da terra), amante de Nut, que é a esposa infiel de Rá, o chefe supremo dos deuses. Outros quatro irmãos gêmeos são com ele gestados – Ísis, Néftis, “Hórus, o ancião”, e Set, sendo que Ísis é a consorte de Osíris desde o ventre materno. De Osíris e Ísis nasce o deus “Hórus, o filho”, enquanto o deus Anúbis nasce de um relacionamento extra-conjugal de Osíris com sua irmã Néftis.23 Esse complicado emaranhado politeísta no qual Osíris se encontra envolvido, bem como a marcante atribuição aos deuses de caracteres naturalistas24 e de paixões humanas inferiores – especialmente do sexo adúltero e incestuoso – destoa radicalmente da singularidade exclusivista e da moralidade de Cristo nos evangelhos. Ele é descrito como Deus, junto com Deus-Pai (João 1:1-3),25 e, em sua encarnação, como o único de sua espécie (do grego monoguenês , cf. João 3:16). Quanto a Ele não há referência a consortes ou descendentes, pois sua encarnação se deu pelo propósito específico da redenção do mundo (João 3:17). Sua ética conjugal exclui a possibilidade do adultério como algo tolerável entre os homens (Mateus 19), do que se deduz que tal prática é incompatível com a divindade.

2) O Osíris “humano” antes do assassinato é identificado com o primeiro faraó do Egito, responsável pela organização do reino temporal. Mas Jesus Cristo, em sua encarnação, nasce e é criado no modesto ambiente de uma família judaica pobre. Em nenhum momento de sua vida e ministério terrestres Ele reivindica para si trono temporal, uma vez que seu reino não estaria neste mundo, sendo de outra natureza (João 18:36).

3) A mais importante diferença entre Osíris e Jesus Cristo diz respeito à missão soteriológica de cada um. Não há espaço para a doutrina da expiação do pecado no culto egípcio, enquanto ela é o ponto central da religião judaico-cristã. Osíris é enganado e assassinado por seu irmão Set, ao passo que Jesus Cristo é senhor de sua morte, conhecendo-a de antemão e voluntariamente rumando em direção a ela. Osíris é salvador da humanidade apenas no sentido da sua ressurreição, que abre precedente para as demais ressurreições; relativamente à sua fase humana não há referência a qualquer missão redentiva, e, ao tornar-se o grande juiz dos mortos no mundo inferior, outros deuses é que defendem a alma do defunto perante ele. Por outro lado, a salvação provida por Cristo é bem mais ampla: Ele sela sua posição como salvador do mundo por ocasião da consumação de sua morte, a qual substitui a humanidade culpada no castigo pelos pecados, apagando-os (1 Coríntios 15:3); pela graça de Deus os seres humanos que confessam seus pecados e aceitam o sacrifício expiatório de Cristo são tornados justos e, por ocasião do juízo, poderão comparecer irrepreensíveis perante a divindade (1 João 1:9); a obra salvífica de Jesus prossegue no Céu após a sua ressurreição, onde Ele realiza um ministério intercessor a favor dos pecadores com base ainda no seu sacrifício (Hebreus 7:25). No culto osiriano, por outro lado, sem o benefício da expiação, o falecido simplesmente tem suas obras pesadas numa balança diante de Osíris pelo deus Anúbis.26

4) Decorrendo da questão exposta acima, emerge uma quarta divergência: no Livro dos Mortos não existe uma única linha que permita supor a possibilidade de a alma vir a se perder por ocasião do juízo.27 No Novo Testamento, ao contrário, a previsão de perdição eterna para os que não aceitarem o plano divino é constante e incisiva (Mateus 25:31-46; Marcos 16:16; 2 Tessalonicences 1:7-9).

Outro argumento diretamente relacionado a Osíris vem do professor de mitologia comparada Joseph Campbell, e é, para dizer o mínimo, indigno do renome desse especialista. Sempre tomando como base o texto de Plutarco ( De Iside et Osiride ), o autor sugere que a transformação de Ísis em andorinha – quando esta sobrevoa com lamentações a árvore que envolve o sarcófago com o corpo de Osíris recém descoberto – constitui uma antecipação da imagem do Espírito Santo descendo, corporificado numa pomba, sobre Jesus no seu batismo.28 O fundamento para tal analogia é por demais frágil.

Não é apenas com Osíris que Jesus Cristo é comparado. Muitas colocações que vinculam a narrativa evangélica à religião egípcia se centralizam na figura de “Hórus, o filho”. Antes de abordá-los será proveitoso considerar uma observação mencionada pelo erudito ateu John G. Jackson, destacado defensor da idéia do “Cristo mítico”:

Em linhas gerais, o deus-sol Hórus pode ser distinguido de seu homônimo, o filho de Osíris, pela posse de certos títulos que variam de acordo com as províncias ou cidades nas quais ele era adorado. Com o passar do tempo, cada uma das diferentes formas do deus-sol Hórus, diferenciada das outras por um distinto epíteto, veio a ser considerada como uma divindade independente, e freqüentemente encontramos muitas divindades duplicadas sendo adoradas contemporaneamente, como se elas não tivessem relação uma com a outra, em períodos posteriores da história do Egito.29

A consideração acima leva à conclusão de que a recuperação na atualidade do mito original de Hórus, dada a diversidade de formas (com suas características peculiares) desse deus adoradas pelos egípcios ao longo dos séculos, é tarefa complicadíssima que não pode ser satisfeita senão de modo imperfeito.30 Feita essa ressalva, continua-se a análise.

Para começar, Campbell afirma que a figura de Maria como mãe da criança salvadora já era encontrada na história de Ísis e Hórus. “ O antigo modelo para a Madona, na verdade, é Ísis amamentando Hórus”,31 diz o especialista em mitologia comparada. Tal afirmação merece crédito, pelo menos em parte. É fato arqueologicamente comprovado que o culto à deusa Ísis foi incorporado à religião romana e sobreviveu até o início da oficialização do cristianismo por Constantino, no quarto século d.C., havendo templos dedicados à deusa Ísis em cidades como Roma e Pompéia. Quando o culto a Maria, fundado em premissas extra-bíblicas, começou a estabelecer-se em definitivo na igreja cristã do início da Idade Média,32 ele acabou por incorporar certos elementos do culto de Ísis e de outras deusas, e, de certa forma, passou mesmo a identificar-se com esses cultos.33 Dessa forma, não é extraordinário que as esculturas medievais da virgem Maria amamentando o menino Jesus guardem grande semelhança com as esculturas de Ísis amamentando seu filho Hórus.34 No entanto, esse sincretismo tardio não pode ser usado como evidência de que a história do nascimento de Jesus é uma repetição modificada da história do nascimento de Hórus, já que a adoração a Maria é uma prática estranha à Bíblia. Quanto à identificação de Maria com Ísis com base no fato de haver engravidado de Deus, três aspectos enfraquecem significativamente o argumento: 1) a diferença brutal entre a forma como aconteceu a concepção em cada uma das narrativas;35 2) o fato de que Maria dos evangelhos é a humilde serva humana que aceita passivamente uma determinação divina, enquanto Ísis é uma poderosa deusa que deliberadamente coabita com um deus em estado de passividade; e 3) Maria é uma virgem ainda não desposada, enquanto Ísis é a esposa que já vivia maritalmente com seu esposo divino antes que Set o matasse.

Considera-se, a partir de agora, os principais pontos abordados na comparação do evangelho com o mito osiriano feita por Gerald Massey, ferrenho promotor da tese de que o culto a Jesus Cristo é uma continuação da religião solar egípcia. Um dos primeiros argumentos que figuram em Ancient Egypt, Light of the World dirige a atenção para a iconografia cristã primitiva e medieval, que consagrou as imagens de Jesus (e, evidentemente, de Maria e dos diversos outros santos) com o halo redondo de luz sobre a cabeça, o que seria uma reminiscência do disco solar sobre a cabeça de Rá e Hórus.36 Há grande probabilidade de o argumento, como no caso anterior, ser procedente,37 mas apenas em relação à religião cristã desenvolvida a partir do século quarto, não à dos tempos apostólicos. Pode-se assegurar documentalmente que Constantino cristianizou o Império Romano por meio da fusão da religião de Cristo com o culto aos deuses tradicionalmente venerados pelo povo. Dessa forma, à semelhança do que ocorreu no caso de Maria, o culto à divindade solar foi perpetuado no império através da adoração a Jesus Cristo.38 Uma vez que a cultura religiosa romana havia assimilado elementos do culto egípcio, não é difícil admitir que alguns desses elementos, quando efetuada a mescla com o cristianismo, tenham realmente sido transferidos à pessoa divina de Cristo. Mas vale ressaltar uma vez mais: tal sincretismo, muito posterior ao relato dos evangelhos, não pode ser usado como argumento comprometedor da veracidade histórica da narrativa da vida de Jesus.

Alguns raciocínios de Massey são tão complicados – e, por vezes, inusitados –, que se tornam difíceis de acompanhar. Por exemplo, ele assegura que a palavra grega Cristós (“ungido”) deriva de uma antiga palavra egípcia para múmia, krst .39 Sua pretensão é a de que o ritual do embalsamamento e mumificação, que encontra no mito do deus-defunto Osíris seu grande modelo e protótipo, é repetido simbolicamente na unção de Jesus em duas ocasiões: em seu batismo e, mais especialmente, no episódio da unção em Betânia (Marcos 14:1-9), no qual o próprio Cristo afirma que Maria Madalena o havia ungido para a sua sepultura (v. 8). Massey acredita que, assim como a mumificação (processo no qual se utilizava grande quantidade de óleos aromáticos) prenunciava no mito egípcio a ressurreição luminosa de Osíris como rei-juiz e a inauguração do ministério de guia e intercessão de Hórus, igualmente na história “mítica” de Jesus sua unção abre para Ele o caminho para uma nova e luminosa fase divina a partir da ressurreição.

Em primeiro lugar, cumpre esclarecer que a palavra Cristós é o termo grego utilizado como sinônimo para a palavra hebraica Mashiah (“Messias, ungido”), que, em diversas passagens do Antigo Testamento, refere-se à pessoa de Cristo com séculos de antecipação.40 Mesmo que se pudesse comprovar de forma cabal (e não é) uma derivação etimológica do termo grego a partir da palavra egípcia, isso não seria evidência comprometedora do evangelho, pois Cristós é apenas o sinônimo para a palavra hebraica mais antiga. Em segundo lugar, o autor parece tentar encaixar de forma um tanto forçada os detalhes da narrativa dos evangelhos no ritual de mumificação de Osíris.41 Entretanto, ambos os episódios citados por Massey possuem nos evangelhos significação toda particular, e as delicadas nuances envolvidas em cada um deles42 reduzem sensivelmente a possibilidade de que derivem do mito da unção da múmia osiriana.

Outro ponto em que Massey insiste repetidamente é o de que Hórus no mito aparece em dois estágios de idade, infante e adulto, sem que haja qualquer menção do que ocorreu no período transcorrido entre esses estágios. “Era um mistério genuinamente egípcio o de um menino que, aos 12 anos de idade transforma-se, de repente, em um adulto de 30”, afirma o egiptólogo, tentando estabelecer um vínculo com o fato de a Bíblia silenciar quanto aos eventos transcorridos durante os anos da juventude e início da maturidade de Jesus.43 Como ele pode saber, entretanto, que o Hórus do mito tinha exatamente 12 anos quando foi restaurado à vida (o último evento mencionado antes que ele apareça como o vingador de seu pai) e 30 quando de sua batalha contra Set? Aparentemente, o autor está apenas especulando ao explorar de modo forçado uma coincidência que parece secundária.

Também se afigura como pura especulação a denúncia feita por Massey de que a história de Jesus é um híbrido literário onde teriam sido enxertados certos aspectos da astrologia egípcia, à qual o mito osiriano se encontrava amalgamado.44 Para o autor, a escolha do número 12 para quantificar os discípulos que acompanharam Jesus em seu ministério indica uma clara referência dos escritores dos evangelhos aos signos do zodíaco egípcio. Massey afirma que Hórus, como o deus solar, é a figura central do esquema astrológico, funcionando como um “professor”45 dos outros deuses. Suas considerações podem ser sintetizadas no seguinte trecho:

Nós queremos, então, mostrar que os típicos 12, chamados apóstolos ou discípulos, numa linguagem mais antiga, origiaram-se de 12 personagens que representavam doze poderes estelares na mitologia astronômica, aos quais foram dados tronos para serem governantes em 12 signos do zodíaco ou no céu. Estes são designados como os 12 preservadores ou salvadores do tesouro da luz. Eles formam o ciclo de 12 deuses menores em torno do deus-sol no cume do monte.46

A fragilidade da argumentação astrológica acima descrita é flagrante, uma vez que o aparecimento do horóscopo é tardio no Egito. Foi apenas no período dos Ptolomeus (323 a 31 a.C.) que os egípcios adotaram o esquema astrológico do zodíaco babilônico, e isto pela via indireta grega.47 É impossível indicar com exatidão – e isto o próprio Massey reconhece – os deuses do panteão egípcio que compunham o zodíaco, pois os vestígios arqueológicos apontam em diversas direções. Assim, ora temos Hórus incluído na lista, ora fora dela. Rá está presente em algumas representações, em outras não. A lista sugestiva de Massey exclui Tot, que, no entanto, aparece em diversos círculos zodiacais.48Não se pode afirmar com segurança, portanto, que o Jesus dos evangelhos é o Hórus solar do zodíaco egípcio.

Diversos argumentos na obra de Massey não podem ser levados a sério, tão desprovidos estão de fundamento sensato.49 Uma última colocação do autor, no entanto, merece ser explorada: com base no mito osiriano recontado por Plutarco, o autor defende que assim como a morte de Osíris é precedida pela traição executada por alguém muito próximo a ele (seu irmão gêmeo Set), também a morte de Jesus é precedida nos evangelhos pela traição perpetrada por alguém muito próximo (seu discípulo Judas).50 Ainda de acordo com ele, ambos os traidores desejam auferir vantagem de seu reprovável ato, e, em ambas as narrativas, a traição acontece em meio a um banquete, que é a “última ceia”.51 Não se pode negar que haja similaridades, como também não se deve ignorar a probabilidade de tais semelhanças constituírem meras coincidências, e não necessariamente impliquem numa recontagem da história anterior. De qualquer modo, existem diferenças marcantes nesse caso: 1) Set trama e executa a morte de Osíris, enquanto Judas trai seu mestre sem vistas à sua morte; 2) no mito egípcio não há em Set, ao ocupar o trono do irmão morto, o mínimo traço de consciência pesada, enquanto a história do remorso e suicídio de Judas é um evento importante nos evangelhos; e 3) o banquete dos deuses referido por Plutarco, na medida em que é uma ocasião de lazer festivo regado a muita bebida embriagante, parece diametralmente oposto à singela, restrita e reverente ceia pascal que antecede a prisão de Jesus, cujo significado espiritual é um aspecto vital no Novo Testamento.

Conclusão

A comparação da história de Jesus narrada nos evangelhos com a história de Osíris-Hórus destacada na religião do Egito, permite concluir o seguinte: as tentativas de atribuir ao relato neotestamentário a condição de transposição literária do antigo mito egípcio simplesmente não se sustentam.

Em primeiro lugar, o mito egípcio tal como era conhecido na época do Antigo Império não se deixa recompor senão de modo muito fragmentário e cheio de lacunas. Diferentes tradições do mito desenvolveram-se paralelamente e sabe-se que, ao longo dos séculos, o mito sofreu alterações que muito provavelmente devem ter contribuído para descaracterizar sensivelmente a história original. O único relato contendo uma sistematização do mito provindo da antigüidade é uma obra tardia do primeiro século d.C.

Em segundo lugar, muitos dos argumentos utilizados pelos advogadores da idéia do “Jesus Mítico” concentram-se em aspectos de uma fase da religião cristã em que os princípios bíblicos sofreram um processo de mescla com elementos da cultura religiosa do Império Romano, à qual, por sua vez, já se haviam amalgamado diversos aspectos cultuais de outras nações, inclusive a egípcia. Nesse caso, a presença de certos detalhes da religião egípcia misturadas ao culto cristão após o quarto século não servem de argumento válido contra a veracidade histórica da narrativa da vida de Jesus segundo aparece nos evangelhos.

Finalmente, a análise das comparações específicas dos eventos narrados no Novo Testamento com o mito egípcio de Osíris-Hórus revela muita especulação e conclusões mal fundamentadas por parte dos defensores da tese do “Jesus mítico”. Gerald Massey, que, mais de um século após a sua morte, continua sendo o grande expoente desse grupo, traçou paralelos tão forçados, que chegam a ser absurdos. Quando algumas das semelhanças por ele apontadas realmente procedem em relação a um evento ou doutrina, tem-se, ao mesmo tempo, diversos outros aspectos tão completamente diferentes, que relegam aquelas similaridades ao terreno das coincidências. Além disso, dentro da bibliografia pesquisada para este artigo, uma leitura das obras que apresentam o Jesus divino do cristianismo como derivando do mito osiriano (desde Massey no século 19, até, por exemplo, Tom Harpur, que ainda vive nos dias atuais), revela uma característica marcante em todas elas: a quase total ausência de referências às fontes documentais originais.

Sendo assim, o presente estudo permite concluir que a veracidade histórica dos eventos narrados nos quatro evangelhos do Novo Testamento acerca da vida de Jesus Cristo, adorado como Deus pelos cristãos durante os últimos 2 mil anos de história, não pode ser contraditada com base na comparação entre esses eventos e a mitologia egípcia.

Artigo de Renato Groger – Pastor e Jornalista. Diretor da Imprensa Universitária Adventista (UNASPRESS)

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Notas

1 Zeitgeist é um termo alemão cuja tradução em português é “ espírito de época” ou “ espírito do tempo” . O Zeitgeist significa, em suma, o conjunto do clima intelectual e cultural do mundo, numa certa época, ou as características genéricas de um determinado período de tempo ( Wikipedia , enciclopédia virtual, acessada em 18/11/2008, ver verbete “zeitgeist” ).

2 Gerald Massey (1828-1907) é o nome mais freqüentemente citado como fonte pelos autores que defendem a narrativa bíblica da vida de Jesus como sendo o mito de Hórus recontado. Em sua obra Ancient Egypt, Light of the World (Whitefish, Montana: Kessinger Publishing, 1990), um exaustivo estudo da religião egípcia com mais de 900 páginas – republicado até os dias de hoje –, o autor traça diversos paralelos entre Jesus e Hórus.

3 No website oficial do filme, http://www.zeitgeistmovie.com/sources.htm, são listadas, além de Ancient Egypt, Light of the World , as seguintes obras de Massey: The Historical Jesus and the Mythical Christ ( New York: Cosimo Classics, 2006) e Egyptian Book of the Dead and the Mysteries of Amenta ( Mineola, NY: Dover Publications, s.d.) .

4 Além do material de Gerald Massey, as obras pesquisadas foram as seguintes: Acharya S, The Christ Conspiracy: The Great Story Ever Sold (Kempton: Adventures Unlimited Press, 1999); Joseph Campbell, O Poder do Mito (São Paulo: Palas Athena, 1990); Edward Carpenter, Pagan and Christian Creeds: Their Origin and Meaning (San Diego: Book Tree Publishing, 1998); Tom Harpur, The Pagan Christ (New York: Walker & Company, 2005) e John G. Jackson, Christianity Before Christ (Austin: American Atheist Press, 1985). Massey apresenta o estudo mais exaustivo.

5 Mircea Eliade, História das Crenças e das Idéias Religiosas , tomo 1, vol. 1 (Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1983), 120. Os Textos da Pirâmide são uma coleção de textos egípcios religiosos da época do Antigo Império que constituem os mais antigos escritos sagrados de que se tem notícia no mundo. Os Textos da Pirâmide eram reservados exclusivamente ao faraó e não continham ilustrações. As magias ou cânticos presentes nessa coleção objetivavam proteger o faraó contra a corrupção, preservando seu corpo após a morte e ajudando-o a alcançar o paraíso.

6 Chantepie de La Saussaye, História das Religiões (Lisboa: Editorial Inquerito, 1940), 106. O Livro dos Mortos era uma coletânia de feitiços, fórmulas mágicas, orações, hinos e litanias escritos em rolos de papiro que eram depositados ao lado das múmias nos túmulos. O objetivo desses escritos era o de ajudar o falecido em sua viagem pelo mundo subterrâneo até o paraíso chamado Duat .

7 Veja, por exemplo, um fragmento do texto da seção 126 do Livro dos Mortos com respeito a Hórus: “Honra a vós, oh deuses, de corpos isentos de maldade, que vivis de justiça e de verdade e vos nutris delas na presença do deus Hórus, que habita em seu divino disco ” (Juan A. G. Larraya, trad., El Libro de los Muertos [Barcelona: José Janés Editor, 1953], 203, grifo acrescentado). Cumpre colocar que a tradução do Livro dos Mortos utilizada como fonte neste artigo foi produzida por Larraya a partir do material da chamada Terceira Recensão (ou Recensão Tebana), que se apresenta na forma de papiros que estiveram em uso da 18ª à 20ª dinastia. Esses papiros apresentam grande número de vinhetas ilustrativas com as cenas de juízo. Na realidade, na raiz desses mitos encontra-se o fascínio humano pelos eventos naturais. Assim, Osíris representa em sua morte o sol se pondo, enquanto que o filho Hórus, que lhe assume trono, representa o sol nascente.

Note a forma como se estabelece ora a identidade, ora a relação filial entre Rá e Osíris na seção 21 do Livro dos Mortos : “Ontem és Osíris, amanhã és Rá, … no dia em que comemoramos o festival do encontro do defunto Osíris com seu pai Rá. … És Osíris, ou como outros dizem, Rá é seu nome” (ibid., 49).

9 As representações do deus Osíris exibem-no como “o deus-defunto redivivo”, geralmente com o corpo envolto nas bandagens e em posição estática, ao contrário dos outros deuses, que aparecem caminhando ou realizando outros atos. Observe a seguinte passagem da seção 51 do Livro dos Mortos : “Oh, tu que não podes te mover [referindo-se aqui ao defunto que se apresenta diante do tribunal divino], semelhantemente a Osíris. … Oh, tu, cujos membros não se movem, como os de Osíris” (Larraya, El libro de los Muertos , 98). Uma tradição importante registra que Set encontra o corpo de Osíris e o esquarteja em 14 partes, as quais, com exceção do membro viril, são localizadas e sepultadas por Ísis (Pepi 2, linha 1.867).

10 O mais completo relato antigo da concepção do deus Hórus foi decifrado por E. Wallis Budge no início do século 20 a partir dos hieróglifos da Estela de Amenmose (Museu do Louvre, Paris, C286). O texto integral da estela foi originalmente publicado pelo especialista em 1912, na obra Legends of the Gods , e se encontra reproduzido no site da web http://www.sacred-texts.com/egy/leg/leg22.htm (acessado em 20/09/2008). A versão é corroborada por certas passagens dos Textos da Pirâmide . Veja, por exemplo, Pepi 1, linha 475, e Pepi 2, linha 1.263, onde se lê, respectivamente: “Tua irmã mais velha [de Osíris] tomou teu corpo em seus braços, … e o estreitou ao peito quando o achou jazendo sobre a planície de Netat”, e “Tua irmã Ísis veio a ti rejubilando de amor por ti. Tu te uniste a ela, tua semente entrou nela. Ela concebeu na forma da estrela Sótis, que é Hórus, o filho que vingou seu pai” (http://www.sacred-texts.com/egy/pyt/index.htm, acessado em 20/09/2008).

11 A lenda da ressurreição de Hórus se encontra especialmente preservada entre os encantamentos da Estela Matternich, hoje exposta no Metropolitan Museum of Art, de Nova York. Uma boa tradução, com comentário de E. Wallis Budge, pode ser encontrada no site http://www.sacred-texts.com/egy/leg/leg11.htm.

12 As alusões à participação de Hórus e Ísis na ressurreição de Osíris são esparsas, difíceis de reconstituir. Nas paredes do grande templo da deusa Hátor, em Dendera (Egito), podem-se observar cenas em que Osíris aparece ora levantando-se na presença de Hórus (http://commons. wikimedia.org/wiki/Image: Osiris_Horus_Dendera_Temple.jpg, acessado em 26/09/2008); ora na de Hórus e Ísis (http://commons.wikimedia.org/wiki/Image:Denderah_Isis_resuscite_Osiris.jpg). Segundo os Textos da Pirâmide , Hórus encontra-o num estado de torpor inconsciente e consegue reanimá-lo: “Osíris, olha! Osíris, escuta! Levanta-te! Ressuscita!” (Pepi 1, linha 258) e “Osíris! Tu partiste, mas retornaste; adormeceste, mas foste despertado: morreste, mas de novo vives” (Pepi 2, linha 1.004).

13 Plutarco, tendo vivido entre a segunda metade do primeiro século e início do segundo, é considerado um dos principais representantes da última fase da literatura grega antiga. A partir de um período passado no Egito, o escritor produziu um tratado sobre a religião egípcia denominado De Iside et Osiride , o qual é a única tentativa antiga de sistematização do culto osiriano, e, por isso mesmo, extremamente prestigiado entre os egiptólogos. Em resumo, o texto de Plutarco relata que Osíris nasce de um relacionamento adúltero entre a deusa Nut (esposa de Rá, o comandante de todos os deuses) e Seb, o deus da terra. Seus irmãos gêmeos são Hórus (chamado “o ancião”, não devendo ser confundido com o Hórus filho de Ísis), Set, Néftis e Ísis, sendo esta última deusa sua consorte já desde o ventre materno. Osíris é considerado o primeiro governante do Egito, o responsável pelas primeiras leis e início do processo de civilização do país. No entanto, seu irmão Set (a encarnação do mal), inveja-lhe a posição eminente e prepara para ele uma ardilosa armadilha. Durante um banquete em honra de Osíris, o rei é preso em um sarcófago, que é lacrado e atirado no Nilo. Set, então assume o trono real e a rainha Ísis se torna uma fugitiva do reino, passando a procurar o amado por toda a parte. Depois de algum tempo, Ísis consegue resgatar o corpo de Osíris, mas enquanto a deusa está ocupada em buscar seu filho Hórus, que havia deixado sob os cuidados do deus Tot, Set o descobre e o desmembra em 14 partes, que são espalhadas por diferentes lugares da terra. Navegando em um barco de papiro, a sofredora Ísis encontra os pedaços e os sepulta cada um em seu próprio lugar. A narrativa conclui com o espírito de Osísis retornando do além (o mundo inferior, chamado Duat), onde fora entronizado como rei dos mortos, e aparecendo em sonhos ao filho já adulto. Seu objetivo era o de encorajá-lo e treiná-lo para a batalha de vingança contra Set, a qual é vencida por Hórus. Set, num desesperado esforço, ainda tenta acusar Hórus diante dos deuses, qualificando-o como filho ilegítimo, mas aqueles não lhe dão crédito (esse resumo foi elaborado com base na tradução para o inglês feita por Frank Cole Babbitt [1937] a partir do original grego da obra De Iside et Osiride , obtida na webpage http://penelope. uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Plutarch/Moralia/Isis_and_Osiris*/home.html [acessada em 08/09/ 2008], sendo que a narrativa do mito de Osíris se encontra especialmente nos primeiros 19 capítulos do texto). Lewis Spence ( Ancient Egyptian Myths and Legends [Mineola, NY: Dover Publications, s.d.], 4) afirma que, apesar de seu valor inequívoco, De Iside et Osiride é obra comparativamente tardia e, portanto, não pode ser tomada como autoridade incontestável.

14 A narrativa de Plutarco (veja nota 13) conta que Anúbis era filho de Osíris com sua irmã Néftis, a qual o deus amou pensando tratar-se de Ísis. Temendo a perseguição de Set, a mãe escondeu a criança, mas Ísis a encontrou com a ajuda de cães, e a criou como seu assistente e guardião. Era representado com a cabeça de chacal e tido como protetor dos deuses.

15 Spence, Ancient Egyptian Myths and Legends , 79. A esse respeito veja a seção 153 do Livro dos Mortos : “Honra a ti, oh Osíris, meu divino pai! Embalsama meus membros para que eu não pereça nem venha a extinguir-me. … Honra a ti, oh Osíris, meu divino pai, que conserva teu ser com teus membros. Não decaíste, não te converteste em bichos, não foste à corrupção ou à podridão. … meus membros gozarão de perdurável existência. Não decairei, não me corromperei, não apodrecerei, nem me converterei em bichos. Não verei a decomposição na presença do deus” (Larraya, trad., El Libro de los Muertos , 268-269).

16 A mumificação, conforme elucida Saussaye ( História das Religiões , 132), não é uma inovação da doutrina osiriana, sendo praticada no Egito desde a mais alta antigüidade. Está relacionada com as noções primitivas da alma, mas foi explicada pela doutrina osiriana. Uma vez que o morto foi preparado à maneira de Osíris, revive como Osíris. Sendo assim, os ritos funerários difundidos a partir do Médio Império têm, indubitavelmente, sua origem na doutrina osiriana: o fim da viagem, para o defunto, é o reino de Osíris.

17 E. A. Wallis Budge, The Gods of the Egyptians , vol. 1 (Mineola, NY: Dover Publications, s.d.), 490. De acordo com as vinhetas pintadas nos papiros que compõem o Livro dos Mortos (Larraya, trad., El Libro de los Muertos , xvi e xvii), enquanto o deus Anúbis tinha sob sua responsabilidade pesar na divina balança o coração do falecido diante do tribunal presidido por Osíris, Hórus era quem o conduzia pela mão até diante do trono do governador do Duat (veja reprodução de algumas dessas ilustrações no site http://www.answers.com/topic/horus, acessado em 12/10/2008). Ali, Hórus proclamava a integridade do falecido diante de Osíris e suplicava que a divindade o aceitasse e “lhe proporcionasse um corpo espiritual, imortal e incorruptível, ou, em outras palavras, que o transformasse em um ‘Osíris’”. Aceita a sua demanda, o falecido podia com inteira liberdade usufruir de sua vida após a morte.

18 O papiro Chester Beatty I, conservado na Biblioteca Chester Beatty, em Dublin, contém uma detalhada narrativa datada do 12º século a.C. acerca da contenda entre esses dois deuses pelo trono de Osíris, na qual são apresentadas as cenas do julgamento do caso pelos deuses. Uma boa tradução dos hieróglifos desse material para o inglês aparece em William Kelly Simpson (ed.), The Literature of Ancient Egypt (New Haven: Yale University Press, 1972), disponível na webpage http://www.nefertiti.iwebland.com/texts/horus_and_seth.htm (acessada em 12/10/2008). O documento, no entanto, não destaca tanto a questão da vingança (como o faz, por exemplo, o Livro dos Mortos ), mas a do direito ao trono. Além disso, deve ser observado o fato de que Set é considerado ora tio, ora irmão de Hórus no texto, o que sugere uma mescla de lendas diferentes. A vitória de Hórus é descrita em certos trechos do Livro dos Mortos. Observe o capítulo 140: “Sou Hórus … Ninguém tem autoridade sobre ele, potente é o seu olho contra seus inimigos; vingou seu imortal pai, destruiu a inundação de sua mãe, derrotou seus adversários, apagou a violência … Sou vigoroso pela força que me protege, sou filho de Osíris e meu pai divino escuda seu corpo com poder e robustez” (Larraya, trad., El Libro de los Muertos , 232); o capítulo 162: “Salve, Osíris; sou teu filho. Venho trazendo aferrolhados os diabos de Set”(ibid., 305); e, finalmente, o capítulo 92: “Hórus se converteu em príncipe divino da Barca do Sol e a ele foi entregue o trono de seu pai Osíris, e Set, essa criatura de Nut, encontra-se prostrado pelas cadeias que para mim havia forjado” (ibid., 153).

19 Segundo Jack Finegan ( Myth and Mystery [Grand Rapids, MI: Baker Book House, 1989], 49), a partir daqui o mito se divide em duas variantes, uma das quais mostra Hórus e Set passando a governar partes diferentes do país (Hórus, o baixo Egito, e Set, o alto Egito). Na outra, Set é banido para o deserto e Hórus governa sozinho. Já no papiro Chester Beatty I (citado na nota acima), a narrativa da batalha entre Hórus e Set termina com o deus Rá, o chefe supremo do panteão egípcio, fazendo um pedido muito peculiar à Enéade (a assembléia dos deuses ): “Permiti que Set, filho de Nut, me seja dado para que habite comigo e esteja em minha companhia como um filho. Ele tornará ao céu e será temido.” Os Textos da Pirâmide apresentam outra versão do término do conflito: os deuses condenam Set, convertido numa barca, a carregar o corpo inanimado de Osíris pelas águas do rio Nilo (Pepi 1, linha 626-27, 651-52 etc.). De acordo com Eliade, “Set não pode ser definitivamente eliminado, pois também encarna [à semelhança dos outros deuses] uma força irredutível” ( Eliade, História das Crenças e das Idéias Religiosas , 123 ).

20 Eliade, História das Crenças e das Idéias Religiosas , 125.

21 S. Brandon, Diccionario de Religiones Comparadas (Madri: Ediciones Cristandad, 1975), 1118.

22 Larraya sustenta no prefácio de sua tradução do Livro dos Mortos que Rá e os outros autênticos personagens divinos se acham cercados dos atributos de eternidade, majestade, glória e poder. Esses traços distintivos confeririam a eles um distanciamento incomensurável dos seres “efêmeros” (humanos, mortais), que lhes estariam prestando uma temerosa adoração por conhecerem seus atributos, mas não a sua essência. Osíris, ao contrário, “está bem próximo ao homem e ao humano. Desde épocas primitivas é pessoal, acessível, cognoscível, inclinado a comover-se ante as ardentes súplicas dos mortais que aspiram à vida eterna. É uma divindade intermediária e compreensiva devido à sua experiência mortal” (Larraya, El Libro de los Muertos , xi).

23 Os eventos são postos em ordem por Plutarco em seu De Iside et Osiride (http://penelope. uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Plutarch/Moralia/Isis_and_Osiris*/home.html, acessada em 08/09/ 2008).

24 Veja, por exemplo, no capítulo 21 do Livro dos Mortos : “Osíris, como outros dizem, é o falo de Rá, com o qual ele se uniu a si mesmo”. A atribuição de traços naturalistas aos deuses por vezes chega às raias da mais absoluta sordidez. Um detalhe totalmente estranho à maneira como a Bíblia aborda a figura divina de Jesus, pode ser lido, por exemplo, no texto egípcio do já citado Papiro Chester Beatty I (http://www.nefertiti.iwebland.com/texts/horus_and_seth.htm). Em determinado ponto da contenda entre Hórus e Set pelo trono de Osíris, Set enganosamente propõe a paz com Hórus. Após uma festa, aproveitando-se do sono pesado do filho de Osíris, Set aproxima-se sorrateiramente e tenta ejacular entre as suas coxas, mas, acordando a tempo, Hórus colhe o sêmen em suas mãos. Consternada com o ocorrido, Ísis corta as mãos de Hórus e lhe fabrica outras novas. Em seguida, a deusa aplica determinado ungüento sobre o membro do filho, provocando-lhe a ereção e colhendo seu sêmem em um jarro. O material, então, é misturado pela deusa em segredo à comida de Set, que acaba por engoli-lo.

25 A tríade representada pela família Osíris-Ísis-Hórus do politeísmo egípcio, freqüentemente mencionada em certos círculos como argumento comprobatório do equívoco da doutrina cristã da trindade, não pode ser comparada à relação de co-existência, onisciência, onipresença e onipotência igualmente partilhada pelas pessoas do Deus-Pai, Deus-Filho e Deus-Espírito Santo, que compõem a divindade monoteísta triúna caracterizada nas páginas do Novo Testamento.

26 Essa forma egípcia de entender o juízo universal pode ter, de alguma forma, migrado para as religiões de outras nações do mundo antigo e alcançado, assim, o sistema doutrinário católico romano medieval, que também preservava a idéia da balança de Deus pesando as ações dos homens. Uma redescoberta dos ensinos do Novo Testamento quanto à expiação dos pecados e da disposição da graça de Deus só ocorreu no cristianismo durante o período da Reforma Protestante, no século 16.

27 Saussaye, História das Religiões , 136, e Larraya, El Libro de los Muertos , xvii.

28 Joseph Campbell, O Poder do Mito (São Paulo: Palas Athena, 1990), 194.

29 James G. Frazer, The Worship of Nature (Nova York: University Books), 566-567, citado por John G. Jackon, Christianity Before Christ (Texas: American Atheist Press, 1985), 113.

30 Compare com as notas 5 e 6. Saussaye acrescenta que o mito de Hórus “tornou-se irreconhecível. … os textos abundam em contradições e absurdos que, examinados superficialmente, podem passar por profunda sabedoria” (Saussaye, História das Religiões , 139). Em seu trabalho de decifração dos textos antigos, o egiptólogo e orientalista Sir Ernest A. Wallis Budge (1857-1934) descobriu pelo menos 13 formas diferentes do deus Hórus, a sua maior parte representada com cabeça de falcão (Budge, The Gods of the Egyptians , 466-499).

31 Ibid., 192.

32 Os evangelhos não fazem nenhuma previsão para este culto. Eles apresentam Maria como sendo uma mulher agraciada com um dom maravilhoso do Céu (ser a mãe do Messias predito nas profecias do Antigo Testamento), constituindo apenas o veículo humano amorosa e honrosamente utilizado por Deus para a introdução da pessoa divina do Filho no mundo como um homem. O próprio Jesus Cristo procurou desfazer os equívocos quanto à sua filiação, não deixando espaço para a hipótese de Maria manter em referência a Ele qualquer espécie de relação diferente da de qualquer outro ser humano pecador necessitado da salvação por Ele estendida (veja, por exemplo, as passagens de Lucas 2:39-49 e Marcos 3:31-35). Paulo escreveu que “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Romanos 3:23) e que “há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem” (1 Timóteo 2:5). A adoração a Maria como figura divina é completamente estranha ao cristianismo do período imediatamente posterior à morte de Jesus Cristo. Isto se evidencia, em primeiro lugar, da leitura do livro de Atos dos Apóstolos e das cartas apostólicas anexadas ao cânon do Novo Testamento, e, em segundo lugar, da apreciação da própria história do cristianismo. Foi apenas em 431 d.C., por ocasião do Concílio de Éfeso, que se começou a configurar oficialmente tal culto, com base no dogma da maternidade divina de Maria, pelo qual a igreja conferiu à mãe de Jesus a prerrogativa de intercessora dos crentes. Posteriormente, o segundo Concílio de Constantinopla (553 d.C.) introduziu o dogma da virgindade perpétua. Para maiores detalhes quanto à evolução histórica dos dogmas referentes a Maria, ver José M. Rocha, “O culto a Maria: uma criação do papado” em Parousia , ano 4, nº 1 (Engenheiro Coelho, SP: Unaspress, 2005), 53-62.

33 Campbell menciona que por ocasião do Concílio de Éfeso (431 d.C.), um grande grupo de adoradores da deusa Diana, para cujo culto fora erigido um dos templos mais famosos da antigüidade, aglomerou-se em torno do local de reunião, e pôs-se a gritar, em reverência a Maria: “A deusa, a deusa, certamente ela é a deusa!” ( Campbell, O Poder do Mito , 195) .

34 Ver um exemplo de escultura de Ísis amamentando Hórus em http://www.artgallery. sa.gov.au/MediaCentreEgyptLouvre2007/MediaImagesEgypt.html (assessado em 16/11/2008).

35 Ver resumo do mito osiriano exposto anteriormente.

36 Gerald Massey, Ancient Egypt, Light of the World , 218-219.

37 Não é possível provar de forma cabal que a auréola de luz da iconografia cristã é realmente o mesmo disco solar ligado aos deuses da mitologia egípcia. Essa afirmação está no campo das hipóteses.

38 Veja, por exemplo, o seguinte trecho da lei dominical editada por Constantino em 7 de março de 321 d.C: “Que os magistrados e o povo que reside nas cidades descansem no venerável Dia do Sol, e que todas as portas sejam fechadas. No campo, porém, que as pessoas ocupadas na agricultura possam livre e legalmente continuar suas atividades; porque amiúde sucede que nenhum outro dia é mais adequado para a semeadura do cereal ou para o cultivo de vinhas; para que não seja perdido pela negligência o momento oportuno para tais operações que é concedido pela munificência do Céu” (Codex Justinianus, iii, Tit. 12.3, citado por Kenneth Strand, “Como o domingo tornou-se o popular dia de culto” em Parousia , ano 4, vol. 1 [Engenheiro Coelho: Unaspress, 2005], 68). Essa lei foi o primeiro grande passo para a completa substituição do descanso no sétimo dia legado pela Bíblia e pelos primeiros apóstolos, pela obrigatoriedade da guarda do domingo na igreja cristã. Para mais detalhes quanto à introdução do culto solar no cristianismo, ver Carlyle Haynes, Do Sábado para o Domingo (Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2001), 34-52.

39 Massey, Ancient Egypt , 217. O escritor menciona uma pintura gnóstica dos primeiros séculos da era cristã nas catacumbas de Roma (que não pôde ser localizada pelo autor deste artigo), na qual o menino Jesus é representado envolto em bandagens, como uma múmia, repousando em uma espécie de sarcófago e tendo o halo redondo de luz sobre a cabeça.

40 A esse respeito é relevante salientar que a história de Jesus narrada nos Evangelhos pode ser encontrada, em seus detalhes mais importantes, espalhada nos diversos trechos do Antigo Testamento. A data de elaboração desses textos sagrados hebraicos, após a descoberta dos chamados Manuscritos do Mar Morto , entre 1946 e 1956, pôde ser fixada com segurança em séculos antes de Cristo.

41 Ele chega a defender que o deus Anúbis é o protótipo da personagem de João Batista (Massey, Ancient Egypt, 219-220). Ele articula um raciocínio muito difícil de ser provado a partir dos textos egípcios originais, que é o seguinte: Anúbis é o precursor de Hórus na medida em que realiza o ritual da unção da múmia de Osíris. Por meio desse ritual Hórus estaria sendo confirmando como o “filho amado de Osíris”, tendo agora o direito de substituir o pai no trono. E tal como acontece com João Batista em relação a Jesus no texto dos evangelhos, Anúbis retira-se humildemente, após realizar sua missão, para que seja de Hórus toda a glória. Segundo Massey, Anúbis permanece sempre em uma zona intermediária, auxiliando o morto em sua passagem para o paraíso, mas nunca entrando no inefável lugar. Essa comparação é gratuita e improvável.

42 No episódio de Maria, por exemplo, existe uma importante ênfase no ato do ser humano em resposta a um maravilhoso amor concretizado no perdão divino.

43 Massey, Ancient Egypt , 226. A essa altura, o autor sustenta de forma mirabolante que Maria procurando pelo menino Jesus aos 12 anos (Lucas 2) corresponde a Ísis procurando os pedaços de seu esposo destroçado por Set, uma vez que a morte de Osíris exige que a criança-Hórus passe o quanto antes a “cuidar dos negócios” de seu Pai (Ibid., 796, cf. Lucas 2:49).

44 Ibid., 780-785.

45 O autor não menciona as fontes nas quais baseia essa idéia acerca de Hórus.

46 Massey, Ancient Egypt , 785. Quanto à sentença final do trecho reproduzido, cumpre informar que o autor alega que o episódio da transfiguração de Jesus Cristo (Mateus 17) nada mais é do que “o brilho solar adquirido pelo deus Hórus após descer ao paraíso para assumir o trono de seu pai, Osíris” (Ibid., 780).

47 Wikipedia , enciclopédia virtual, acessada em 17/11/2008, ver verbete “egyptian astrology”, baseado em Derek e Julia Parker, The New Compleat Astrologer (Nova York: Crescent Books, 1990)

48 Uma procura simples por imagens do zodíaco egípcio em um site de busca na Internet pode comprová-lo.

49 Alguns desses argumentos já foram expostos. Aqui estão relacionados outros, apenas para uma idéia: 1) Jesus expulsando os cambistas do templo, após a sua unção como filho amado no batismo, é Hórus combatendo os inimigos de Osíris e confirmando, assim, seus direitos como filho divino (Massey, Ancient Egypt , 798); 2) Jesus ressuscitando a Lázaro, que sai do sepulcro envolto em faixas, é Hórus levantando a múmia osiriana em sua ressurreição (ibid., 842); 3) O Espírito Santo corporificado em pomba por ocasião do batismo de Jesus representa o deus Rá, pai de Osíris, em sua forma de falcão com o disco solar sobre a cabeça (ibidem) e, neste caso, a trindade Pai-Fillho-Espírito Santo seria um espelho da tríade Rá-Osíris-Hórus do panteão egípcio.

50 Ibid., 868.

51 Para Massey, o corpo partido de Cristo representado pelo partir do pão na ordenança neotestamentária da Ceia do Senhor perpetua a antiga cerimônia egípcia da “refeição sagrada” tomada sobre o sarcófago de Osíris, o qual teve o seu corpo também partido para que os seres humanos pudessem ter a vida eterna (ibid., 221). Não há explicitação de fonte pesquisável no livro de Massey quanto a essa “refeição sagrada”, e o autor do presente artigo, em pesquisa particular, também não localizou nenhuma.

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Escritor & Evangelista da União Central Brasileira

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