A Filha de Jefté – Juízes 11:29-40

Será interessante ler toda a história de Jefté para ter um quadro completo das suas implicações. Do relato se deduz que Jefté fizera um voto precipitado e insensato. Os comentaristas têm apresentado duas interpretações para o voto de Jefté.

1º) Ele sacrifica a própria filha em holocausto para cumprir o imprudente voto que fizera.

2º) Sua filha foi devotada à perpétua virgindade.

Comentário Adventista se coloca ao lado daqueles que defendem o oferecimento da filha em holocausto. Declara que Jefté fez um voto precipitado, o qual poderia ser anulado por ser uma expressa transgressão do sexto mandamento.

Patriarcas e Profetas na página 506 afirma: “O dever a que fica empenhada a palavra de qualquer pessoa deve ser considerado sagrado, caso não a obrigue à prática de um ato mau“.

A aceitação de que ele ofereceu a filha em holocausto provaria sua total ignorância da lei de Deus (Lev. 18:21; 20:2-5; Deut. 12: 31; 18:10). A descrição que a Bíblia faz da sua pessoa não autoriza tal conclusão, especialmente ser colocado entre os heróis da fé em Heb. 11:32. Particularmente não aceito que quem tivesse praticado um ato em flagrante desrespeito às leis divinas, (como declaram os versos acima) tivesse o privilégio de ser colocado na galeria dos heróis da fé. Salvo se houvesse um sincero arrependimento do seu procedimento desastrado.

Os exegetas, defensores do sacrifício da filha argumentam que era comum entre os moabitas, até entre os israelitas, a prática de sacrifícios humanos. Se esta afirmativa é real há sensíveis diferenças entre o caso de Jefté e os sacrifícios pagãos de oferecer os filhos em holocausto, visto que estes jamais eram feitos a Jeová. Os israelitas que ofereceram sacrifícios, eles o fizeram por que se tinham afastado do culto ao verdadeiro Deus, como vemos com os reis Acaz e Manassés. Estes sacrifícios eram terminantemente condenados na Bíblia, como vemos em II Reis 3:27. Leve-se ainda em consideração que tais sacrifícios eram oferecidos antes e não depois da batalha.

O argumento mais valioso para o SDABC se perfilhar entre os que aceitam a morte da moça é este: “Se a filha de Jefté fosse apenas dedicada à perpétua virgindade, não necessitaria de dois meses para chorá-la, pois, teria a vida inteira para fazê-lo”.

Para melhor compreensão deste assunto é bom também conhecer a lei dos votos do culto hebreu, relatada no capítulo 27 de Levítico. Os votos eram de duas naturezas: remissíveis e irremissíveis. Todo o problema surge pelo fato do voto de Jefté ser de natureza irremissível.

Leiamos o voto em Juízes 11:31: “Quem primeiro da porta da minha casa me sair ao encontro, voltando eu vitorioso dos filhos de Amom, esse será do Senhor, e eu o oferecerei em holocausto.”

Os defensores da idéia do sacrifício da própria filha se apegam a Lev. 27:29, onde declara que no voto irremissível de pessoas a morte era requerida.

Carlos Trezza, em extenso estudo sobre a filha de Jefté, discute problemas de tradução e de interpretação de algumas passagens, de onde transcrevemos o seguinte:

Afirma que o estudioso Dr. Hale, citado por Adão Clarke apresenta a seguinte explicação para Juízes 11:31. O hebraico justifica uma tradução disjuntiva, consistente de duas sentenças, regidas por conjunção dual – ‘Será do Senhor, ou lhe oferecerei em holocausto’. E sustenta esta idéia com a afirmativa de que a conjunção vau tanto pode ser e como ou. Assim no caso de Jefté, dever-se-ia ler: ‘Será do Senhor, ou lhe oferecerei em holocausto’.

Outros comentaristas declaram que o verso 31 de Juízes 11 devia ser lido – e a forma original o autoriza – da seguinte maneira: “Será do Senhor, e lhe oferecerei um sacrifício”. O Ministério Adventista, maio-junho, 1970, págs. 22 e 23.

Dentre os comentaristas bíblicos que rejeitam a idéia de ter Jefté oferecido a filha em sacrifício destacam-se Lang e Adão Clarke.

Diz o primeiro: “A filha de Jefté não lamenta o ter de morrer como uma virgem; o que ela lamenta é a virgindade em si mesma”. Lang’s Commentary, sobre o cap. 11 de Juízes.

Sentencia o segundo: “E ela não conheceu varão. Isto é, continuou virgem todos os dias de sua vida”. Comentários do Dr. Adão Clarke sobre Juízes 11.

Se ela tivesse sido sacrificada a declaração do verso 39 – “E ela não conheceu varão” – seria supérflua. Parece-nos ser mais consentâneo com a personalidade de Jefté, com os ensinamentos divinos quanto a sacrifícios humanos, aceitar que ele não ofereceu a filha em holocausto, mas construiu uma casa à parte e fez que ela se mantivesse virgem até o final de sua vida.

Sumariando diríamos: Embora saibamos que a maioria dos comentaristas defende o sacrifício cruento.

a) Não cremos que Jefté tenha sacrificado sua filha contra a lei de Deus. Deut. 12:31. Este ato estaria totalmente em oposição com todos os preceitos bíblicos.

b) De acordo com o original hebraico o verso 31 de Juízes 11 poderia ser assim traduzido: “será do Senhor e lhe oferecerei um holocausto”.

c) Jefté sabia muito bem que os sacrifícios humanos eram condenados por lei (Deut. 12:30 e 31). Se tivesse cometido tal ato teria a total desaprovação divina, ipso facto; seu nome não poderia ser arrolado em Hebreus 11.

d) Encontraríamos na Bíblia e nos escritos de Ellen G. White uma enérgica condenação ao seu procedimento indigno.

e) A única conclusão segura a que se pode chegar é que a filha de Jefté foi devotada a perpétua virgindade, como se pode inferir das declarações bíblicas: “chorou a sua virgindade”, “ela jamais foi possuída por varão”.

f) Apenas lamentamos que o SDABC sempre criterioso em tomar posição, tenha esposado a idéia de que Jefté a ofereceu em sacrifício.

Nota: Como auxílio valioso para esta pesquisa, valemo-nos do estudo de Carlos Trezza, publicado em O Ministério Adventista, maio-junho de 1970, págs. 18-24. Vale a pena ler todo o seu relato.

Texto de Autoria de Pedro Apolinário extraído da Apostila Leia e Compreenda Melhor a Bíblia.

Sobre Weleson Fernandes

Escritor & Evangelista da União Central Brasileira

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