Existe Música Sacra?

Não fizeram diferença entre o santo e o profanoEzequiel 22:26.

O Velho Testamento demonstra claramente que Israel deveria fazer distinção entre o sacro ou santo e o secular ou comum:

“Deveis fazer distinção entre o santo e o comum, entre o imundo e o limpo” – Levítico 10:10 (RSV). A observância do sábado no sétimo dia da semana baseava-se no fato de que Deus descansara naquele dia no final da semana da criação e de tê-lo tornado um dia santo. Diz Êxodo 20:11 (RSV): “Portanto abençoou o Senhor o dia de sábado e o santificou”. Em aparência exterior não há diferença entre um dia e outro, pois o sol se levanta e se põe e o tempo é variável no dia de sábado como nos outros seis dias. Mas é um dia santo, não um dia secular. Também era assim com outras partes do culto hebraico. Algumas coisas eram sagradas, tais como a arca do concerto e partes do tabernáculo, e outras não o eram.

Hoje há uma tendência para desconsiderar todas as distinções entre o sacro e o secular. Com a rejeição, por muitos, da Bíblia como o guia inspirado e regra de vida, surgiu a crença de que não há diferença entre o que é secular e o que é sagrado. Há um processo crescente em desenvolvimento que elimina todas as distinções. Não é uma tendência nova, pois tem existido através dos séculos, mas está sendo enfatizada, atualmente, de um modo novo. Isto trouxe uma falta de reverência pelas coisas sagradas, uma falta de deferência e respeito pelos legisladores e autoridades, uma falta de reconhecimento àqueles que ocupam posições nas quais merecem respeito e honra. Pelo menos esta é uma causa que contribui para que existam tais condições.

Esta mesma atitude tem afetado a música na igreja. Alguns dizem, hoje, que não há diferença entre a música sacra e a secular; que toda música, em certo sentido, é sacra, e que toda música é apropriada para ser usada na igreja. Vemos, atualmente, o uso da linguagem do “jazz”, com músicos e conjuntos de “jazz”, tomando conta da música em algumas igrejas.

A Bíblia reconhece distintamente a diferença entre o mundo e suas muitas atrações e a igreja com o evangelho da salvação. Tudo o que é secular, não é necessariamente mau. Somos advertidos contra o mal que há no mundo. O apóstolo João admoesta: “Não ameis o mundo nem o que no mundo há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo”. I João 2:15-16 (RSV).

A música sacra não será aquela que tem associação com prazeres mundanos. O romance e a excitação do teatro, com sua apresentação de todas as espécies do mal, não encontrará eco na música sacra. A dança moderna com todas as suas sutilezas, seu “jazz”, seu sentimentalismo, suas associações com a bebida, fumo e drogas, não encontrarão nenhuma sugestão na música religiosa. A parada militar, o circo e outras formas de expressão secular, seja elas legítimas ou não para um cristão, de maneira nenhuma devem estar associados a, ou ser sugeridas pela música ouvida na igreja. A música usada para cultos religiosos nunca deveria trazer à mente dos ouvintes qualquer uma destas atividades ou prazeres mundanos.

Há também, no modo de interpretar, uma distinção entre o sacro e o secular. Há estilos de apresentação claramente associados à religião pela tradição e uso, e há outros estilos característicos de várias espécies de música secular. O estilo sussurrante de cantar que atualmente é muito popular em canções de amor e música sentimental, dificilmente é apropriado para cânticos religiosos. Há um estilo de tocar órgão que é característico do teatro. Este estilo não é apropriado para o uso na igreja. O estilo teatral salienta certas sonoridades peculiares, uso excessivo do trêmulo e outros artifícios que servem bem para o teatro mas que não são apropriados para o culto.

Há também alguns tipos de instrumentos como tambores, guitarras, marimbas, saxofones e outros que não são associados tradicionalmente à igreja, mas que são usados amplamente na música secular. Estes instrumentos não devem ser considerados como proibidos para o uso na igreja, mas devem ser tocados com habilidade e técnica de modo a não sugerir o secular. Nenhum instrumento é, em si, sacro ou secular. Há, contudo, estilos de tocar que são tradicionalmente associados à igreja. O importante é manter a música em harmonia com o que é sagrado.

Não se deve pensar que a música religiosa deve ser sempre suave e doce, calma e tranqüila, pois, assim, ela poderá não ser nada mais do que fraca. Nem precisa ela ser intensamente emocional. Música a serviço da religião pode ser, na verdade, bela e poderosa; forte, vibrante, estimulante e que apele a nossos mais elevados sentimentos e pensamentos. Pode ser da mais elevada qualidade musical.

A beleza de um culto da igreja ou a excelência estética da música, porém, não é o mais importante. Pode ser de grande ajuda a alguns adoradores em suas devoções, mas não é essencial em nossa aproximação a Deus. O maligno usa excesso em muitas formas para seus maus intentos. Excesso em algumas formas leva ao fanatismo; excesso em emoção e sentimento leva ao sentimentalismo e à fraqueza em vez da força.

A característica do “jazz” é o exagero das qualidades normais da música. Há ênfase em sonoridades estranhas e excesso de ênfase no ritmo. Muitos elementos musicais que não são maus em si tornam-se maus quando usados fora da proporção adequada. Ritmos com notas pontuadas, dissonâncias, síncopes, efeitos de surdina — estes e outros artifícios musicais, quando super-enfatizados, ou usados em excesso, são características comuns de “jazz” e música de dança popular. A ênfase parece ser colocada sobre o volume do som e nos ruídos. Embora algumas destas características possam ser legítimas e aceitáveis na música artística secular, elas são questionáveis e indesejáveis na música religiosa.

Muitas coisas que são boas com moderação tornam-se más quando em excesso. Um pouco de sal para dar gosto é bom, mas, em excesso, torna-se um veneno. Alimento em excesso causa obesidade e outras desordens físicas. Um uso moderado de dissonância é útil na música, mas levada ao extremo pode conduzir ao caos. Emoção, sentimento e sensibilidade são todos próprios e apropriados, mas levados ao extremo, levam ao sentimentalismo e falta de sinceridade. Ordem e forma são boas no culto da igreja, mas sem o espírito de adoração tornam-se sem vida e de frieza formal. A liberdade é um precioso dom, mas ultrapassando as restrições da lei, leva à licenciosidade e “libertinagem”.

Há dificuldade em manter uma separação entre o que é genuinamente religioso e o distintamente secular, mas a música do culto na igreja é de importância suficiente para merecer um cuidadoso e refletido estudo.


 


Fonte: Revista Adventista, Setembro de 1978, pp.15-6.

Autor: Harold B. Hannum

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Escritor & Evangelista da União Central Brasileira

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