Causas dos Erros na Transmissão do Texto Bíblico

Como o médico precisa fazer um diagnóstico antes de tentar realizar a cura, da mesma maneira a Crítica Textual deve estar ciente dos vários perigos a que está exposto um texto transmitido por manuscritos antes de corrigir os erros.

É importante conhecer não apenas o que pode acontecer, mas também o que tem acontecido na cópia de manuscritos.

Este capítulo irá limitar-se à apresentação do problema e em classificar os erros, porém as soluções são apresentadas parcialmente, em outros tópicos nesta apostila.

Se livros impressos, cuja revisão de provas é feita com o maior cuidado, apresentam muitos erros, estes eram muito mais comuns em livros copiados manualmente.

Antes da invenção da imprensa, no século XV, a transmissão de qualquer escrito, apenas poderia ser feita copiando, pacientemente, à mão, palavra por palavra: podemos imaginar quantas probabilidades de erro tal método comporta. Experimente-se pedir a 20 pessoas que copiem determinado trecho, copiando sucessivamente, cada uma da outra cópia, no final ficaremos estupefatos diante do resultado obtido. Nos manuscritos tiravam-se cópias e apesar do estrito cuidado, as variantes logo apareciam.

I) ERROS INVOLUNTÁRIOS

1º) Erros provenientes de uma visão deficiente.

a) O escriba atingido por astigmatismo, achava difícil distinguir as letras gregas que se pareciam, especialmente se o copista anterior não escreveu com cuidado. Assim num manuscrito uncial, onde o sigma era feito como sigma lunar, era fácil confundi-lo com o épsilon, o teta e o ómicron .

Se dois lambdas fossem escritos muito juntos poderiam ser tomados pela letra Mi, como aconteceu em Romanos 6:5, em muitos manuscritos está A  A (mas), noutros está AMA (juntos).

Há divergência em alguns manuscritos com a parte final de I Cor. 12:13. A maioria traz: “E a todos nós foi dado beber de um só Espírito”; contudo em alguns aparece: “E a todos nós foi dado beber de uma bebida”. Esta variante surgiu quando alguns copistas leram erradamente IMA (a contração comum da palavra INEYMA – espírito, como IIOMA (bebida).

b) Erros provenientes de igual terminação.

Tecnicamente, este erro chama-se homoioteleuton = final igual de duas linhas.

Pelo fato de duas linhas seguidas terminarem com a mesma palavra ou sílabas, os olhos do copista podiam pular da primeira para a segunda, omitindo acidentalmente várias palavras. Assim é explicada a curiosa tradução de S. João 17:15 no Códice Vaticano, onde não aparecem as palavras aqui colocadas entre parênteses: “Não peço que os tires do (mundo mas que os livres do) mal”.

Algumas vezes, os olhos do escriba, apanhavam a mesma palavra ou grupo de palavras uma segunda vez e como resultado copiava duas vezes, o que deveria ter feito apenas uma. Em Atos 19:34 a expressão: Grande é a Diana dos efésios, aparece duas vezes do Códice Vaticano. Chama-se ditografia a repetição daquilo que ocorre apenas uma vez e haplografia a falta da repetição de uma letra ou palavra.

2º) Erros provenientes de audição deficiente.

Era comum ditarem ao copista e ele escrever uma outra palavra parecida, como as nossas imersão e emersão, despercebido e desapercebido, comprimento e cumprimento. Outro problema com o ditado encontrava-se nas homônimas não homógrafas, como ilustram as palavras portuguesas: sinto e cinto, incipiente e insipiente, cocho e coxo.

A confusão entre épsilon e eta, ômega e ómicron era muito comum em ditados. Um problema desta natureza está em Romanos 5:1, onde a variante tenhamos se alterna com temos, em grego ecwnen e econen .

Dr. Benedito de Paula Bittencourt, em seu trabalho pioneiro de Crítica Textual em Língua Portuguesa – O Novo Testamento, páginas 199-200, fez a análise crítica deste versículo e a quem pedimos vênia para citar algumas de suas conclusões.

“Crítica externa – Quantitativamente e qualitativamente as evidências externas parecem favorecer o subjuntivo. No entanto, descoberta recente, a do fragmento do MS 0220, vem suprir o que falta a P. 46, que começa em 5:17. Este manuscrito, cuja leitura é dificultada pelo estado em que se encontra, parece indicar que o verbo está escrito com ómicron e não com ômega, sendo, no caso, um indicativo e não subjuntivo, como indicam os escribas primários do Sinaítico e Vaticano. . .

“Crítica interna – Se a Teologia de Romanos e dos escritos paulinos como um todo for examinada, poderá o crítico chegar a uma conclusão final, na qual os elementos já compulsados das evidências externas darão sua colaboração conclusiva.

O indicativo dá idéia de algo ativo no presente, enquanto o subjuntivo é modo exortativo e que traz em si a idéia de ação volitiva no tempo futuro. Há no subjuntivo também a idéia de ordem, imperativa. O subjuntivo coloca o Apóstolo exortando o homem justificado pela fé em Cristo a alcançar por seus esforços sua paz com Deus. Mas, isto é contra o pensamento paulino. Para Paulo não há necessidade de esforços humanos para alcançar paz com Deus, pois o homem é incapaz de realizar sua própria salvação e mesmo manter sua paz. Cristo, e somente Cristo, é seu Salvador e só Ele é capaz de reconciliar o homem com seu Deus e lhe dar paz. Esta é a idéia do indicativo.”

No grego Coinê os ditongos oiui, e as simples vogais hiu não apresentavam diferença de pronúncia soando todos como o nosso “i” resultando daí trocas entre hmeiv = nós e umeiv = vós; eieroiv = outros e eiairoiv = companheiros. (Mat. 11:16).

Em Hebreus 4:11 o escriba do Códice Claromontano escreveu aletheias = verdade, por apeitheias (desobediência) com resultados desastrosos para o sentido.

A declaração de Paulo de I Cor. 15:54: “tragada foi a morte na vitória (nicós em Grego)” está no papiro 46 e Códice B: “tragada foi a morte no conflito (neicós)”.

3º) Erros de Memória.

Estes erros surgiram porque a memória falhava enquanto o copista olhava para o manuscrito e procurava escrever o que lá se encontrava. Este tipo de erro explica a origem de um grande número de mudanças, especialmente nos evangelhos sinóticos, envolvendo a substituição de sinônimos, variação na ordem das palavras, troca de palavras por influência de outra passagem paralela, talvez conhecida do escriba.

A substituição de sinônimos aparece em exemplos como: eipen por efe, ec por apó, etc.

Um exemplo de troca de palavras temos em Mat. 19:16-17, onde alguns copistas alteraram o relato para que este concordasse com Mar. 10:17 e Luc. 18:18.

À declaração de Col. 1:14 copistas acrescentaram em alguns manuscritos, “através do seu sangue”, por influência da passagem paralela de Efés. 1:7.

4º) Erros de Julgamento.

Encontramos alguns erros que apenas podem ser explicados por culpa de copistas pouco inteligentes ou descuidados.

Palavras ou notas explicativas, encontradas na margem, eram muitas vezes, incorporadas ao texto do Novo Testamento. Ao copista encontrar na margem, notas explicativas como sinônimos de palavras difíceis, correções, comentários pessoais, ficava perplexo sem saber o que fazer com elas. Alguns resolveram o problema da seguinte maneira – colocaram a nota no texto que estavam copiando. Por isso, é provável, que um comentário marginal explicando o movimento da água no poço de Betesda (S. João 5:7) foi incorporada no texto de João 5:4.

Há manuscritos que trazem acrescentadas a Rom. 8:1 as seguintes palavras: “que não andam segundo a carne, mas segundo o espírito”. Esta era uma nota explicativa na margem do primeiro versículo, talvez tirada do verso quatro.

Somente descuido em alto grau pode justificar alguns absurdos perpetrados por escribas pouco perspicazes. Talvez um dos piores desatinos cometidos por um escriba se encontra no manuscrito 109 do século XIV. Este manuscrito, dos quatro evangelhos, agora no Museu Britânico, foi transcrito de uma cópia que deve ter tido a genealogia de Jesus era duas colunas de 28 linhas cada uma. Em vez de transcrever o texto seguindo as colunas em sucessão, o escriba do 109 copiou a genealogia seguindo as linhas através das duas colunas, surgindo como era de se esperar um resultado desastroso. Quase todos os filhos estão com os pais trocados; Deus é dado como filho de Adão e Fares é a fonte de toda a raça e não Deus.

II) ERROS  INTENCIONAIS

Por estranho que pareça, os escribas que pensavam, eram mais perigosos do que aqueles que se limitavam a copiar o que tinham diante de si. Muitas das alterações, que podem ser classificadas como intencionais foram, sem dúvida, introduzidas de boa fé por copistas que criam estar corrigindo erros ou infelicidades de linguagem, que se haviam introduzido no texto sagrado e precisavam ser retificados.

A despeito da vigilância de eclesiásticos zelosos, alguns escribas, chocados com erros reais ou imaginários, de ortografia, gramática e fatos históricos, deliberadamente, introduziram mudanças no que estavam copiando.

1º) Correções na Ortografia, Gramática e Estilo.

O livro de Apocalipse, com seus freqüentes semitismos e solecismos, apresentava muitas tentações aos escribas ciosos da correção gramatical.

Para melhorar a sintaxe do nominativo depois da proposição apó (Apoc. 1:4), eles inseriram tou~Qeou~ ou Kurivon .

O escriba culto era tentado a melhorar a linguagem.

2º) Correções Harmonizadoras.

Intencionalmente ou não, procurando harmonizar passagens paralelas ou relatos idênticos, os copistas alteravam algumas passagens bíblicas.

Os exemplos são muitos, mas aqui serão apresentados somente dois:

a) Em João 19:20 encontra-se a expressão – Jesus Nazareno, o Rei dos Judeus, estava escrito em hebraico, latim e grego. Em muitos manuscritos, os copistas acrescentaram no texto de Lucas 23:38, isto foi escrito em hebraico, latim e grego.

b) A forma mais curta da Oração do Senhor em Luc. 11:2-4 foi alterada, em muitas cópias, para concordar com a forma mais familiar e mais longa encontrada em S. Mateus 6:9-13.

3º) Acréscimo de Complementos Naturais e Semelhantes.

A obra dos copistas na amplificação e arremate das frases é evidente em muitas passagens.

Vários escribas, supondo que algo estava faltando na declaração de Mat. 9:13 “Pois não vim chamar os justos, mas os pecadores”, acrescentavam “ao arrependimento”. Outros copistas achavam difícil deixar a palavra escriba, sem acrescentar fariseu, como aconteceu em Mat. 27:41.

Em Col. 1:23 há um interessante exemplo ilustrando como os copistas não resistiram à tentação de realçar a dignidade do Apóstolo Paulo. Neste verso Paulo diz que ele se tornou ministro do Evangelho, em grego está “diácono”. Sendo que a palavra grega “diácono” significa, literalmente, aquele que serve, ministro, passou a designar uma ordem inferior do ministério, isto é, aqueles que executam trabalhos mais simples na Igreja; os copistas dos manuscritos alefe a e P mudaram diáconos para querix e apóstolos, por acharem que estes títulos eram mais apropriados ao grande Apóstolo dos Gentios. O manuscrito A traz os três títulos para Paulo – arauto, apóstolo e ministro.

4º) Esclarecimento de Dificuldades Históricas e Geográficas.

A citação de Mar. 1:2 é introduzida pela fórmula “Como está escrito no profeta Isaías”. Acontece que a citação é proveniente dos profetas Isaías e Malaquias: Isaías 40:3 e Malaquias 3:1. Alguns escribas sentindo esta dificuldade substituíram a expressão “no profeta Isaías” por “nos profetas”.

Sendo que Mateus 27:9 atribui ao profeta Jeremias o que na realidade veio de Zacarias 11:12; não é de admirar que alguns copistas procurassem corrigir o erro, substituindo o nome, ou omitindo-o.

Alguns copistas, tentaram harmonizar o relato da cronologia da paixão com a de Marcos, pela mudança da “hora sexta” de João 19:14 para “terceira hora”, que aparece em Marcos 15:25.

Porque a declaração de Marcos 8:31 – “depois de três dias ressuscitará”, parece envolver um problema cronológico, alguns copistas a alteraram para “ao terceiro dia”.

Dificuldades  Geográficas

Orígenes alterou Betânia para Betabará em S. João 1:28 a fim de remover o que ele considerava uma dificuldade geográfica. Assim se encontrava nos manuscritos II , q , 33, 69 e muitos outros, incluindo  aqueles que serviram de base para a tradução da King James.

5º) Duplicidade de Textos.

O que faria um escriba consciencioso quando descobria que a mesma passagem fora dada diferentemente em dois ou mais manuscritos que tinha diante de si? Em vez de fazer uma escolha entre as duas variantes (com a probabilidade de omitir a genuína) muitos incorporaram as duas na mesma cópia que estavam transcrevendo. Isto produziu a chamada duplicidade de textos ou de leituras, característica predominante da família bizantina.

Os dois exemplos seguintes confirmam este fato: A declaração de Lucas de que os discípulos estavam continuamente no templo bendizendo a Deus, aparece em alguns manuscritos, “estavam continuamente no templo orando a Deus”. Não poucos copistas concluíram que era mais seguro transcrever as duas declarações, aparecendo assim: “estavam continuamente no templo orando e bendizendo a Deus”.

Atos 20: 28 aparece em alguns manuscritos como: “Igreja de Deus”, e em outros: “Igreja do Senhor”. Vários manuscritos posteriores trazem “Igreja do Senhor e Deus”.

6º) Alterações Feitas por Questões Doutrinárias.

Estas alterações são difíceis de serem avaliadas.

Irineu, Clemente de Alexandria, Tertuliano, Eusébio e muitos outros Pais da Igreja acusaram os heréticos de corromperem as Escrituras para apoiarem suas opiniões pessoais. Por exemplo Márcion tirou do Evangelho de Lucas todas as referências judaicas relacionadas com Jesus. A Harmonia dos Evangelhos de Taciano traz várias alterações textuais para apoiar suas opiniões ascéticas.

Os manuscritos do Novo Testamento preservam traços de duas espécies de alterações dogmáticas: as que envolvem eliminação ou alteração do que era considerado doutrinariamente inaceitável ou inconveniente e as que introduziram dentro das Escrituras “provas” para uma prática ou um dogma teológico.

Os exemplos são muitos, como podem ser vistos em The Text of the New Testament, página 202 e 203, mas destes apenas um será transcrito: Escribas que não podiam harmonizar a declaração de Jesus de Mat. 24:36 e Mar. 13:32 “que Ele não sabia o dia da sua vinda”, com a sua divindade, omitiam a expressão: “nem o Filho”.

7º) Acréscimo de Pormenores:

Acréscimos feitos na margem ou em notas no rodapé, uma vez ou outra eram introduzidos para o texto.

Sempre houve e ainda há grande curiosidade em saber o nome de alguns personagens que aparecem anonimamente no texto bíblico. Como a tradição dava nomes a estas pessoas, copistas eram tentados a colocá-los no texto que estavam copiando. Velhos Manuscritos latinos apresentam os seguintes nomes para os dois ladrões crucificados com Cristo: Zoatan, Camma, Magatras. Entre nós é comum ouvirmos que o nome do bom ladrão era Dimas.

O nome do homem rico de Lucas 16: 19 aparece na versão saídica como Níneve ou Ninivita, nome comum para ricos dissolutos naquele tempo.

Uma adição apócrifa num antigo manuscrito latino declara que quando Jesus foi batizado uma tremenda luz brilhou da água atemorizando a todos os que estavam presentes.

Os títulos dos livros apresentam curiosidades dos amanuenses. O mais original neste aspecto é o título que o copista do manuscrito 1775 deu ao Apocalipse: “Apocalipse do todo glorioso evangelista, amigo do peito de (Jesus), virgem, amado de Cristo, João – o teólogo, filho de Salomé e Zebedeu, mas filho adotivo de Maria, a mãe de Deus, e filho do trovão”.

Conclusões

Todos os estudiosos dos problemas dos copistas estão bem cientes de que o estudo comparativo de vários textos é de grande ajuda para a eliminação destes erros. Estes erros têm sido denominados de periféricos, porque não abrangem a essência dos ensinamentos divinos.

Quem sabe pessoas iniciantes ou despreparadas em “Crítica Textual” pensem da seguinte maneira: este estudo não deveria ser apresentado, porque pode levar pessoas a descrerem da Palavra de Deus e a concluírem que os escribas eram descuidados, caprichosos e tendenciosos.

Verdades e realidades não podem e não devem ser escondidas.

Todos devem ter em mente esta verdade fundamental: o que foi apresentado neste capítulo aconteceu com alguns manuscritos e com poucos copistas, o que vem mostrar a fragilidade da natureza humana.

Existem muitas evidências mostrando o trabalho dedicado, cuidadoso, honesto e fidelíssimo da maioria dos copistas, bem como abundante messe de manuscritos não alterados, que nos levam a crer firmemente na fidelidade da transmissão das Santas Escrituras.

Veja neste mesmo livro o Capítulo – Trabalho dos Massoretas.

A Crítica Textual não abate os fundamentos da nossa crença, antes os solidifica.

Para a elaboração deste ponto valemo-nos, especialmente, de idêntico capítulo apresentado por Bruce M. Metzger, no livro The Text of the New Testament.

Pedro Apolinário, História do Texto Bíblico, Capítulo 29.

Sobre Weleson Fernandes

Weleson Fernandes
Escritor & Evangelista da União Central Brasileira

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