Comparando Escatologias – Parte 2: Daniel 7

Na primeira postagem dessa série, analisamos as interpretações católicas e protestantes em geral a respeito de Daniel 2. Nessa segunda postagem, vamos analisar as interpretações e protestantes em geral a respeito de Daniel 7. Quem não leu a primeira postagem, pode ler aqui.

 Os quatro reinos de Daniel 7

No capítulo 7 (o segundo capítulo profético do livro de Daniel), a sucessão de reinos é representada por uma visão que envolve quatro grandes animais: um leão alado (Dn 7:4), um urso que se levantava sobre um dos seus lados e come três costelas (Dn 7:5), um leopardo com quatro asas e quatro cabeças (Dn 7:6) e um quarto animal terrível, espantoso e muito forte, que tem dentes de ferro, devora em pedaços e possuía dez chifres na cabeça (Dn 7:7).

Como interpreta cada vertente cristã? Mais uma vez, os protestantes são unânimes quanto aos quatro reinos. Todos eles entendem que os quatro animais representam os mesmos quatro reinos de Daniel 2: Babilônia, Medo-Pérsia, Grécia e Roma. A diferença fica, novamente, em relação à interpretação católica. A Bíblia de Jerusalém continua afirmando, nas notas do capítulo 7, que os quatro reinos seriam Babilônia, Média, Pérsia e Grécia. Podemos especular aqui uma possível razão para essa interpretação divergente. O império romano tornou-se católico após o quarto século. E a Igreja tornou-se romana, no sentido de ter como sede a cidade de Roma. Assim, possivelmente, católicos não se sintam confortáveis em ver Roma como uma besta terrível e que será destruída. Mas é só uma especulação.

Seja como for, a interpretação católica acaba tratando a Média e a Pérsia em dois reinos, algo que a Bíblia não faz; colocando a Pérsia como sendo o Leopardo de quatro cabeças, o que não faz sentido, já que a Pérsia não se dividiu em quatro (ao passo que a Grécia se dividiu em quatro após a morte de Alexandre, o Grande); e colocando o império grego como um animal terrível e espantoso, o que também faz pouco sentido já que Roma foi muito mais poderosa que a Grécia. Todos os comentaristas protestantes citados mencionam esses argumentos bíblicos e outros, demonstrando que parece muito mais natural e bíblico entender a sucessão como Babilônia, Medo-Pérsia, Grécia e Roma.

O chifre pequeno de Daniel 7

Assim como as grandes vertentes protestantes, no geral, se afastam do entendimento mais bíblico e natural em relação aos reinos representados pelos pés da estátua de Nabucodonosor, isso também acontece em relação aos dez chifres do quarto animal de Daniel 7 e o chifre pequeno aparece entre eles. Primeiro, vamos expor o que o profeta vê a respeito disso.

O quarto animal tinha dez chifres, como já mencionado (Dn 7:7). Daniel vê sair do meio dos dez chifres um chifre pequeno, diante do qual três outros são abatidos. Esse pequeno chifre tinha olhos e falava com insolência (Dn 7:8). Depois segue-se um julgamento feito pelo Filho do Homem, autorizado pelo Ancião de Dias; então o espantoso animal é morto e funda-se o Reino de Deus (Dn 7:9-14). A partir do verso 17, um mensageiro de Deus explica o sentido do sonho para o profeta, afirmando que cada um dos animais representava um reino (poder terreno) que se sucederia (Dn 7:17).

Daniel se sente curioso para saber mais a respeito do quarto animal, dos seus dez chifres e do chifre pequeno e insolente que subia dentre eles e abatia outros três. O mensageiro, então, explica que o quarto animal é o quarto reino/poder da sucessão, que se diferirá dos demais por ser mais forte e ter maior extensão (Dn 7:23). Os dez chifres são dez reis (ou reinos) que surgem do quarto reino. O chifre pequeno é um rei (ou reino) que surge dentre os dez e se torna diferente dos demais (Dn 7:24). Sobre este é dito: “Proferirá palavras contra o Altíssimo, magoará os santos do Altíssimo e cuidará em mudar os tempos e a lei; e os santos lhe serão entregues nas mãos por um tempo, dois tempos e metade de um tempo” (Dn 7:25).

Quem é o chifre pequeno? Os calvinistas da Bíblia de Genebra sustentam que os dez chifres “simbolizam dez reis ou reinos associados com o Império Romano (v. 24 )”. E continuam:

07:08 ‘outro chifre pequeno’. Os dez chifres são anteriores no tempo ao ‘pequeno chifre’, que arranca três deles, simbolizando uma nova fase do quarto reino. Muitos intérpretes sugerem que o chifre pequeno representa o anticristo (2 Ts. 2:03 , 4 , 8). Esta seria a primeira referência nas Escrituras para o Anticristo”.

 Aqui os comentaristas continuam pressupondo que a sucessão de reinos na profecia termina no império romano. Assim, os dez chifres são considerados como reis ou reinos dentro do império romano apenas, não algo que o sucede. Por outro lado, eles abrem concessão para a possibilidade de que o pequeno chifre seja o anticristo, citando a passagem de II Ts 2:3-8. Isso não é coerente. Se os dez chifres e os pés da estátua não são os reinos que sucedem Roma com as invasões bárbaras, então como o pequeno chifre pode ser o anticristo? Teria o anticristo aparecido já dentro do império romano? Ora, se o império romano já foi vencido, então o anticristo também já foi? Todo o Apocalipse, então, já ocorreu? Então, por que Cristo não veio?

Como o leitor pode perceber, a não ser que se assuma que os dez chifres e os pés da estátua são os reinos que sucedem Roma, é incoerente dizer que o pequeno chifre é o anticristo. Por outro lado, assumindo essa última sucessão, o que temos é o chifre pequeno surgindo depois da fragmentação romana, isto é, entre os reinos que formam a Europa. Esses reinos nunca mais conseguiram formar um grande império, embora conservem um pouco da força do “ferro” romano e tenham tentado união mediante casamentos e acordos ao longo dos séculos até hoje. Em suma, essa é a única interpretação que torna coerente entender o pequeno chifre como o anticristo.

Os comentaristas da Bíblia de Genebra continuam mais adiante:

07:21 ‘fazia guerra contra os santos’. Daniel dá informações adicionais sobre a hostilidade do chifre pequeno, possivelmente, o Anticristo (v. 8 ), para o povo de Deus (cf. Apocalipse 13:7).

07:22 ‘até o Ancião dos Dias veio’. Embora o Anticristo vai prevalecer por um tempo contra o povo de Deus, no final ele vai cair sob o julgamento de Deus (Zc 14:1-4; Ap. 13:7-17; 19:20)”.

Os comentaristas continuam flertando com a possibilidade de o chifre pequeno ser o anticristo. Como veremos mais adiante, realmente o chifre pequeno é o anticristo. Mas, como vimos, a não ser que se defenda a ideia de que os reinos europeus são os pés da estátua e os dez chifres, não é possível defender essa ideia. Por isso, os calvinistas precisam escolher uma das duas interpretações.

As interpretações do próprio Calvino também são problemáticas. Ele diz:

“Não tenho dúvida de que o pequeno chifre se relaciona com Júlio César e com os outros Césares que o sucederam, a saber: Augusto, Tibério, Calígula, Cláudio, Nero e outros”. Diz ainda: “Não surpreende, pois, que Daniel tenha denominado a monarquia de Júlio e dos demais Césares de pequeno chifre, seu esplendor e dignidade não eram bastante grandes para eclipsar a majestade do senado”.

Para Calvino, o quarto animal, Roma, “foi morto logo depois da promulgação do evangelho. Então o pretenso discurso do pequeno chifre chegou ao fim, e o quarto animal foi concomitantemente extinto. Desde então nenhum romano se fez imperador que reivindicasse para si alguma participação de poder”. Sobre a questão de mudar os tempos e a Lei, Calvino pontua:

“Enquanto os intérpretes continuam discutindo acerca desta palavra, alguns a atribuindo ao Decálogo e outros à pregação do evangelho, creio que a intenção simples do profeta era: os Césares perverteram todas as leis, tanto humanas quanto divinas”.

Há diversos problemas aqui. Primeiro: Calvino continua pressupondo que a sucessão na profecia termina em Roma. Já mostramos que isso é incoerente. A sucessão termina nos reinos europeus. Assim, o chifre pequeno precisa surgir no cenário profético após a fragmentação de Roma, não durante a vigência do império romano. Isso destrói a possibilidade do chifre ser o conjunto de Césares.

Segundo: as profecias de Daniel 2 e Daniel 7 claramente apontam para a concretização do reino de Cristo (Dn 2:28, 34-35, 44-45 e 7:13-14 e 26-27). E essa concretização só acontece quando Cristo volta pela segunda vez, no juízo final. Ou seja, é incoerente dizer que os quatro impérios foram totalmente destruídos pela pedra e ela encheu a Terra quando o evangelho começou a ser pregado.

Por mais que os quatro impérios tenham caído, permanecem suas reminiscências. Tais impérios eram controlados por poderes e culturas humanas. Os governantes foram mudados, mas continuam sendo humanos. E parte da cultura de cada império permanece viva. Assim, a Europa carrega reminiscências de Roma, que por sua vez carregou reminiscências da Grécia, da Medo-Pérsia e da Babilônia. Enquanto os governos terrenos e as culturas ímpias não forem totalmente destruídas, não se pode dizer que a profecia se cumpriu. Ademais, embora o evangelho tenha sido pregado pelo mundo inteiro e isso seja considerado, espiritualmente, o Reino de Deus na Terra (Mt 12:28; Mc 1:15, 9:1; Lc 9:27, 10:9-11, 17:20-21, 18:16-17; Rm 14:17; I Co 4:20), só se pode dizer que a pedra enche toda a Terra e substitui todos os reinos quando Cristo efetivamente institui o novo mundo sem pecado após o juízo final. Ou seja, o reino profetizado em Daniel 2 e 7 só se estabelece mesmo após a volta de Cristo. Isso torna ainda mais plausível a interpretação de que o chifre pequeno aparece no cenário profético depois de Roma, não durante.

Se Calvino erra na interpretação de quem era e quando aparecia o chifre pequeno, os comentaristas da Bíblia de Jerusalém passam ainda mais longe da interpretação correta. Seguindo a ideia de que o quarto reino não é Roma, mas a Grécia, eles postulam que os dez chifres seriam dez reis da dinastia selêucida (uma das divisões do império grego pós-Alexandre). E o chifre pequeno seria “Antíoco IV Epifânio (175-163), que só adquiriu preeminência ao se desembaraçar de certo número de seus concorrentes”.

Antioco IV Epifânio foi um rei selêucida que ficou conhecido na história por ter entrado em Jerusalém, profanado o santuário durante três anos e feito decretos para que o povo adotasse costumes pagãos. Baseado nisso, os comentaristas de da Bíblia de Jerusalém afirmam que a mudança dos tempos e da Lei profetizada por Daniel se referia “à política de helenização de Antíoco Epifânio, notadamente a sua interdição do sábado e das festas (cf. I Mb 1:41-52)”. A referência aludida pelos comentaristas é ao livro de I Macabeus, que faz parte da Bíblia católica e conta um pouco da história do que sofreu o povo judeu nas mãos de Antíoco.

Para além do fato de que essa interpretação depende de ver o quarto reino como sendo a Grécia e não Roma (o que já demonstramos não ter base bíblica), há outros problemas sérios aqui. O primeiro e mais aparente problema é que o período de perseguição de Antíoco não bate com o período profetizado por Daniel (3,5 tempos). Mas veremos isso em detalhe no próximo tópico.

O segundo problema é que a destruição do chifre pequeno por Cristo está intimamente relacionada com a concretização de seu reino. Uma coisa implica a outra. As visões de Daniel 2 e 7, ao contrário do que pensam os católicos e Calvino, tem como âmago a vinda do reino de Cristo no sentido pleno, não apenas no sentido espiritual (o que se iniciou na primeira vinda de Cristo). As profecias descrevem os eventos históricos como componentes de uma história geral que tem o seu desfecho na segunda vinda de Cristo, quando realmente todos os reinos terrenos são postos abaixo em definitivo. Ou seja, o chifre não pode ser Antíoco Epifânio. No máximo, Antíoco poderia ser um símbolo do anticristo do fim dos tempos.

O terceiro problema é que as profecias de Daniel 2 e 7 não falam sobre indivíduos, mas sobre poderes, reinos, instituições. Assim, não é adequado inferir que o pequeno chifre seria uma pessoa. Portanto, Antíoco Epifânio está fora de cogitação aqui.

O Comentário Bíblico Moody é um pouco mais coerente. Ele afirma que a profecia de Daniel 7 apresenta os mesmos reinos de Daniel 2, mas “avança muito além do sonho de Nabucodonosor, para dar detalhes de predição ao Anticristo”. Diz ainda que a quarta “besta é de interesse especial porque produz o pequeno chifre, o ‘Anticristo’”. Ainda assim, o comentário não dá informações sobre a identidade do chifre. Quem o faz e de maneira muito coerente e profunda é Isaac Newton. Ele afirma:

“Os reis representam os reinos, como já foi dito. Portanto, o pequeno chifre é um pequeno reino. Era um chifre da quarta Besta e arrancou três dos primitivos. Por isso devemos procurá-los entre as nações do Império Latino, depois do aparecimento dos dez chifres. Mas era um reino com um rei diferente dos outros, tendo uma vida ou alma que lhe era peculiar, caracterizada com tendo olhos e boca. Por seus olhos era, portanto, um Vidente, e por sua boca, falando insolências e mudando os tempos e as leis, era ao mesmo tempo um profeta e um rei. Tal vidente, profeta e rei é a Igreja de Roma.

 Um vidente é um bispo, no sentido literal do vocábulo; e essa Igreja reivindica o bispado universal. Com a boca, dá leis aos reis e nações, assim como um Oráculo o faz; arroga-se a infalibilidade e pretende que os seus decretos ou éditos, tidos como Dogmas, obriguem o mundo inteiro; o que quer dizer que se arroga o papel de um Profeta no seu mais alto grau”.

Curioso que seja, a ideia de que a Igreja Romana desempenha um papel negativo nas profecias escatológicas não era estranha aos primeiros protestantes. Por exemplo, a Confissão de Fé de Westminster (1643-1646), adotada até hoje pela Igreja Presbiteriana e muitas outras igrejas protestantes, afirma:

“Não há outro cabeça da Igreja, senão o Senhor Jesus Cristo. Em sentido algum pode ser o papa de Roma o seu cabeça, senão que ele é aquele anticristo, aquele homem do pecado e filho da perdição que se exalta na Igreja contra Cristo e contra tudo o que se chama Deus” (Capítulo 25, parágrafo 6).

Lutero, em seus comentários ao livro de Daniel, especialmente em Daniel 11:36-40, também considerou o Papa (não um Papa específico, mas o papado) como o Anticristo predito. Em suma, a ideia era corrente, por mais que nem todos vissem o papado nas profecias de Daniel (como era o caso de Calvino). Portanto, a não ser que a Igreja Católica Romana seja realmente a correta – a Igreja fundada por Cristo, como sua teologia alega –, a visão de que ela e/ou o papado são o Anticristo é plausível. Sendo ela ou não, é inegável que ela se enquadra perfeitamente nas especificações do chifre pequeno. Newton e outros antigos protestantes parecem ter acertado.

O tempo de perseguição (Dn 7:25)

Os problemas em relação às interpretações sobre o chifre pequeno não acabam na identificação de quem ele é e quando ele vem (ou veio). A segunda parte de Daniel 7:25 fala que esse chifre oprimiria os santos por “um tempo, tempos e metade de um tempo”, isto é, 3,5 tempos. O que isso significa?

Os comentaristas da Nova Bíblia de Estudo de Genebra não dão explicação convincente sobre a expressão. Limitam-se a dizer que “Alguns intérpretes tomam este versículo para se referir à última metade da septuagésima semana de Dn. 9 (ver 09:27). Outros não atribuem uma duração específica para a expressão, mas um período de tempo que é reduzido porque Deus intervém”.

A primeira interpretação não faz sentido, pois, como veremos em outro tópico, não há sentido em separar a metade da última semana da referida profecia e empurrá-la para a perseguição dos últimas dias. Nada no texto de Daniel 9 indica essa possibilidade. A segunda interpretação também não faz sentido, pois não parece coerente que Deus daria uma profecia com um período descrito de modo tão detalhado e seu sentido não poder ser apreendido pelo homem. Claramente, Deus deu uma previsão temporal para que o homem pudesse saber a duração da perseguição. Calvino também não apresenta uma interpretação convincente. Ele diz:

“Um ‘tempo’, pois, não equivale a certo número de meses ou dias, nem ainda a um único ano, mas a qualquer período cuja determinação só está no secreto conselho de Deus. Eles, pois, serão entregues em suas mãos por um tempo, diz ele, e em seguida acrescenta tempos; ou, seja, por uma seqüência de tempos; e, outra vez, ainda até uma seção ou divisão de um tempo; significando: essas calamidades chegariam a um fim quando Deus, em sua misericórdia por sua Igreja, restringisse aqueles tiranos por meio de sua ira contra eles”.

Essa interpretação de Calvino, à semelhança da interpretação dos comentaristas da Nova Bíblia de Estudos de Genebra, é pouco plausível. É preciso fazer um estudo mais aprofundado para descobrir qual seria a duração da perseguição, visto que a expressão usada é detalhada demais para não significar nada de específico para o homem. A nota dos comentaristas da Bíblia de Jerusalém também é frágil. Ela diz:

“Segundo [Daniel] 4:13, é preciso entender aqui por ‘tempo’ um ano. São três anos e meio, a meia semana de anos de [Daniel] 9:27, correspondente mais ou menos à duração da perseguição de Antíoco. Esse número, expresso equivalentemente por quarenta e dois meses (de trinta dias) ou mil duzentos e sessenta dias, é retomado, com sentido típico, em Ap 11:2-3; 12:14; 13:5 (cf. também Lucas 4:25 e Tg 5:17). Exprime, pois, e numa perspectiva constantemente presente em Dn, um período de calamidades permitidas por Deus, mas cuja duração, para consolo dos aflitos, será limitada”.

O primeiro problema aqui é que o período de perseguição do povo profetizado por Daniel não bate com o período de perseguições e profanação do templo por Antíoco Epifânio. Conforme as passagens de I Macabeus 1:54-59 e 4:52-54, a profanação durou exatamente três anos e dez dias. Antes disso, Antíoco já oprimia o povo desde dois anos antes (I Mb 1:20-53). Então, tanto se usarmos só a duração da profanação contínua do templo, quanto se usarmos os demais dois anos, não obtemos os três anos e meio. Talvez, por isso, a nota diga que o período se refere a “mais ou menos” à duração da perseguição de Antíoco. A verdade é que os números não batem.

O segundo problema é que parece ser muito mais natural entender que o poder que persegue os santos em Daniel 7:25 por 3,5 tempos (anos) é o mesmo que persegue os santos em Ap 11:2-3, 12:6 e 14 e 13:1-5, isto é, a besta. Afinal, as mesmas durações de tempo aparecem em todas essas passagens (3,5 tempos, 42 meses e 1260 dias). Além disso, as características do poder perseguidor em Apocalipse batem com as características do poder perseguidor em Daniel. Em suma, o Apocalipse parece ser uma ampliação de Daniel, o que nos leva à conclusão de que o chifre pequeno é a besta. E a besta não só é um poder de caráter universal (Ap 13:1-18) como só será vencida nos últimos dias dessa Terra (Ap 19:19-20). Como Antíoco não foi um poder mundial e sua derrota já ocorreu há mais de dois mil anos, ele não é a besta de Apocalipse. Se não é a besta de Apocalipse, não é o chifre pequeno de Daniel 7. E se não é o chifre pequeno de Daniel 7, então os 3,5 tempos não se referem à perseguição que ele promoveu.

Essas considerações nos levam à conclusão de que o período de perseguição que compreende 1260 dias (que são 42 meses e 3,5 tempos) ou se refere à perseguição final aos cristãos ou a algum outro período de perseguição anterior. Em qualquer um dos casos, o autor da perseguição é a besta.

O Comentário Bíblico Moody é mais coerente, nesse sentido, ao reconhecer que é a besta quem persegue aqui. Ele relaciona Daniel 7:25 com passagens sobre a besta no Apocalipse, dizendo: “Seu tempo será curto (v. 25), um tempo, dois tempos e metade de um tempo (cons. Ap. 11:2; 13:5; Dn. 9:25; 12:7-12)”. No entanto, o Comentário entende o período como literal e ocorrendo no fim. Na nota à Daniel 12:7, que fala sobre os 1260 dias, o comentário diz:

“A consumação terá lugar quando os três tempos e meio (3 anos e meio; 1.260 dias, 42 meses) tão freqüentemente mencionados nas profecias anteriores de Daniel tiverem se esgotado. Este versículo é base importante para sustentar a interpretação futurista não só de Dn. 9:27 (a septuagésima semana), mas das porções principais do Apocalipse”.

Já na nota a Apocalipse 11:1-2, podemos ler: “Faz-se a declaração de que a cidade santa será pisada por quarenta e dois meses (v. 2), um período de tempo também encontrado em 13:5, idêntico aos 1.260 dias de 11:3 e 12:6. Eu o entendo como sendo a primeira metade do período de sete anos da nossa dispensação, ocorrendo a Grande tribulação na segunda metade, quando o Anticristo exercerá poder universal”.

E na nota a Apocalipse 12:6, lemos: “Eu, pessoalmente, creio como Weidner, Walter Scott e muitos outros, que este versículo é antecipatório e aponta para o tempo da tribulação de Israel no final dos tempos”.

No geral, tanto protestantes como católicos entendem que ou os dias citados por Daniel e Apocalipse representam ou um período indefinido ou dias literais. A Bíblia de Estudo Apologia e a Bíblia de Jerusalém sequer mencionam a possibilidade de que cada um desses dias represente outra unidade de tempo específica e calculável, como um ano, por exemplo. Calvino, em seus comentários a Daniel 12, menciona que alguns consideram um dia como um ano nessas passagens. Mas rejeita a hipótese.

Nesse recorte que faço, o único que trabalha com a ideia de que os 3,5 tempos, 42 meses e 1260 dias representam outra unidade de tempo e calculável é Isaac Newton. Ele toma um dia como um ano. Assim, teríamos um período de 1260 anos de aflição. Mas Newton não explica como chegou a essa conclusão. Ele apenas a pressupõe. Quem estaria certo? Bom, em primeiro lugar, é preciso perguntar se realmente devemos considerar a hipótese de que tais dias sejam símbolos de outras unidades de tempo calculáveis. A resposta é: “Sim”. Não é uma hipótese absurda. Em dois livros tão altamente simbólicos como Daniel e Apocalipse, é perfeitamente possível que também os dias mencionados sejam simbólicos. Da mesma forma, é perfeitamente possível que eles tenham sido dados para que as gerações posteriores pudessem olhar para a história e constatar que a profecia numérica foi cumprida. Neste caso, os dias precisam representar algo calculável e preciso.

Sabendo que a hipótese não é absurda, podemos partir para as evidências. Há boas razões para pensarmos que esses dias são simbólicos, precisos e calculáveis? Sim. Em primeiro lugar, a profecia das setenta semanas (Daniel 9:24-27) é interpretada por quase todos os cristãos ao longo da história como se referindo ao período entre a ordem da reconstrução do templo e a primeira vinda de Cristo. Ora, há nesse intervalo 490 anos. Assim, as 70 semanas são semanas de anos, não de dias. De fato, como veremos em outro tópico, o próprio texto indica isso em suas expressões hebraicas originais e em seu contexto. Da mesma forma, como também veremos em outro tópico, a profecia das 2300 tardes e manhãs se refere a anos (de acordo com informações dadas no próprio texto que veremos na próxima postagem). Portanto, parece plausível que outros dias proféticos mencionados no livro de Daniel também sejam símbolos de anos.

Em segundo lugar, o livro de Daniel segue uma estrutura em que as profecias se desenrolam ao longo de vários séculos. Assim, também parece plausível que os dias sejam símbolos de anos que se estendem pela história. Isso inclusive parece mais coerente com a ideia de que “não havendo profecia, o povo se corrompe” (Pv 29:18). O cumprimento das profecias ao longo da história, incluindo profecias numéricas, permite o fortalecimento da fé do povo ao olhar o registro histórico.

Em terceiro lugar, se realmente o papado é a besta, então temos que ela já está no mundo há séculos. É natural, portanto, que a profecia se ocupe de falar de seus atos ao longo dos séculos, não apenas no finzinho do mundo.

Em quarto lugar, a ideia de relacionar dias com anos não é estranha ao pensamento hebraico. Há passagens que trabalham com esse conceito (Nm 14:34; Ez 4:5; Lv 25:1-8), bem como paralelismos mostrando a relação (Jó 10:5; Sl 77:5; Is 61:2). Isso torna  plausível que Deus tenha usado esse expediente em profecias escatológicas.

Para além disso, embora não seja uma evidência, é importante mencionar que interpretar esses dias das profecias de Daniel e Apocalipse como anos não é uma invenção de Isaac Newton ou de algum protestante (muito menos da Igreja Adventista). É possível constatar a interpretação em alguns documentos do período intertestamentário, como Livro dos Jubileus, O Testamento de Levi e O Livro de Enoque. Na literatura patrística, Tertuliano, Clemente de Alexandria, Júlio Africano, Eusébio Pamphili, Atanásio, Cirilo de Jerusalém, Teodoreto, Policrônio, Isidoro de Pelusa, Teodósio, Mileteno, Andrônico e Próspero da Aquitânia enxergavam as setenta semanas (Daniel 9) como 490 anos. Na literatura rabínica, a interpretação é encontrada no Talmude, no Midrash Rabbah e nos escritos de exegetas judeus da idade média como Saadia Gaon, Rashi e Ibna Ezra. Esses últimos interpretaram os 1260 dias como anos e também os 2300 dias (Daniel 8).

Entre os católicos da idade média, Joaquiem de Floris, Arnold de Villanova e Nicholas Krebes de Cusa também se utilizaram da interpretação dia-ano para os 2300 dias. Já na literatura da Reforma, defenderam o principio dia-ano em relação aos 2300 dias e/ou às 70 semanas teólogos como Johan Funk, Cappel, Bullinger, George Downham, Edward King, John Tillinghast, Heinrich Horch, Thomas Beverley, Lowth, Whiston, Fletcher, Giblehr, Cotton Mather, Richard Clarke, Johann P. Petri, Hans Wood, William C. Davis, Joshua L. Wilson, John P. K. Henshaw, Alexander Campbell, entre outros. A ampla defesa dessa interpretação ao longo de séculos pode ser entendido como um indicio de que, no mínimo, a hipótese deve ser analisada, pois é respeitável.

Considerando essas evidências, podemos tirar a prova real olhando para a história e buscando o cumprimento da profecia dos 1260 dias. Se um dia equivale a um ano, então devemos procurar por um período de 1260 anos em que a Igreja Romana ou algum outro grande poder tenha exercido autoridade para mudar tempos e Lei, perseguir santos e falar coisas que não estavam de acordo com a Palavra de Deus. Curiosamente, podemos achar um período que se encaixa nessas descrições. Dos anos 538 a 1798, a Igreja Romana exerceu sua maior autoridade. Desde o início da década de 530, o imperador Justiniano, da parte oriental de Roma (Constantinopla), declara apoio ao bispo de Roma (Papa), considerando-o cabeça de todas as igrejas da terra. O apoio não vem só de boca. Auxiliando o bispo com seus exércitos, Justiniano vence três tribos bárbaras que se opunham ao catolicismo romano. Em 538, com o fim das tribos opositoras, o bispo inicia sua supremacia como chefe da Igreja na terra. O papado encarna ali a Roma católica, transformando-se no porta-voz do romanismo e refletindo a arrogância do sistema em sua presunção de infalibilidade.

Ora, se as visões de Daniel preveem que o poder papal ascenderia (ou se tornaria supremo) logo após a fragmentação de Roma, em meio ao caos das tribos bárbaras, então o ano de 538 parece ser o início dos 1260 anos. É justamente ali que o poder papal (e, por conseguinte, a Roma católica) preenche o vácuo deixado pela fragmentação da Roma Ocidental, passando a ser um poder com muito apoio e extremamente influente em toda a Europa, Ásia e costa da África. E se esse é o marco inicial da profecia, os 1260 anos nos levam a 1798, ano em que o general francês Louis Alexandre Berthier, representando o exército de Napoleão Bonaparte, prende o Papa Pio IV. O Papa morre na prisão, pouco mais de um ano depois, e só em 1800, Napoleão autoriza que os seus restos mortais sejam levados para Roma.

Os 1260 anos de supremacia papal se iniciam quando um poder secular (Justiniano) que o apóia e por ele milita, vence o último de seus principais inimigos da época; termina no momento em que, igualmente, um poder secular (Napoleão) se opõe ao papado, milita contra ele e o vence (temporariamente). O Apocalipse descreve essa queda como uma ferida mortal na besta (Ap 13:3). O papado já vinha perdendo força havia mais de dois séculos, por conta do advento da Reforma e, posteriormente, o Iluminismo. O golpe dado pela França concretizou o declínio. Entretanto, o mesmo verso 3 afirma que a ferida seria curada. Nem o papado, nem o romanismo foram mortos. O catolicismo romano permanece vivo e seu líder supremo torna a ganhar influência progressiva no decorrer a partir da segunda metade do século 20.

Tal interpretação é bastante lógica. Se realmente a Igreja Romana não é a verdadeira, ela e o Papa são, sem dúvida, o maior poder que já se levantou na história arrogando ter a autoridade de Cristo. Ela e o Papa são maiores que o comunismo, por exemplo, que só tem dois séculos, não conseguiu adesão mundial e não é aceito por milhões de pessoas como vindo de Deus (antes, nega a Deus). São maiores que o islã, tendo também mais tempo, maior penetração no mundo e maior poder de persuasão àqueles que crêem em Cristo como Senhor e na Bíblia.

A natureza da ICAR e do papado só permitem a eles duas opções: ou eles são uma instituição criada por Cristo, com autoridade suprema, infalibilidade e sendo a própria voz de Cristo na terra, ou eles são uma instituição humana que usurpa essa imagem e autoridade. Se o segundo caso é verdadeiro, não há qualquer outra instituição que tenha chegado tão longe nessa usurpação. Logo, a Igreja Romana e o Papa são a instituição que melhor se encaixa na ideia de “Anticristo” – aquele que se coloca no lugar de Cristo. Ademais, é um poder ligado a Roma e aparece no cenário profético após a fragmentação do império ocidental. Tudo bate.

Resumo e Conclusão

As vertentes protestantes tendem a convergir na identificação dos quatro animais de Daniel 7, mas interpretam o chifre pequeno e o tempo de perseguição de modos bem diferentes. Vimos que não faz sentido bíblico ver o chifre pequeno como os Césares, como entende Calvino, pois esse chifre surge depois da fragmentação de Roma. Os calvinistas da Nova Bíblia de Estudo de Genebra, por sua vez, precisam escolher se aceitam a interpretação de Calvino ou a ideia de que o chifre é o Anticristo. As duas coisas não dá. O Comentário Moody acerta ao reconhecer que o pequeno chifre é o Anticristo, mas não dá grandes informações sobre ele. Newton é quem vai mais longe e identifica o pequeno chifre como o poder Romano, o que faz todo o sentido bíblico e histórico.

As interpretações protestantes sobre o tempo de perseguição também são frágeis e divergem entre si. Calvino entende que a profecia não significa um tempo mensurável para o ser humano, ao contrário do que o texto parece indicar. O Comentário Moody adota a visão dos dias como literais. Os calvinistas da Nova Bíblia de Estudo de Genebra também flertam com essa interpretação. Os comentaristas da Bíblia de Estudo Apologia não só aceitam essa ideia, como sequer mencionam outra possibilidade (muito embora haja melhores argumentos de que o período representa anos). Newton adota a visão de dias como anos (o que é mais coerente biblicamente), mas não explica como chegou a essa interpretação.

A Bíblia de Jerusalém é a que mais diverge de todos esses comentários. Seus intérpretes católicos, seguindo a ideia de que o quarto reino de Daniel 2 é a Grécia, interpretam que também o quarto animal é a Grécia (a despeito de todas as evidências em contrário). A visão acaba colocando Antíoco Epifânio como o chifre pequeno. Entre as diversas fragilidades dessa interpretação, está o fato de que os 1260 dias de perseguição não se encaixam no período de perseguição de Antíoco em Israel. Para resolver isso, as notas da Bíblia de Jerusalém se limitam a dizer que o período representa “mais ou menos” o tempo de perseguição de Antíoco e é um símbolo bíblico para todos os períodos de perseguição (independente de levarem três anos e meio ou não).

Como é a interpretação adventista? A Igreja Adventista mais uma vez concorda com os protestantes em geral na interpretação dos quatro reinos. Concorda ainda com a maioria dos protestantes que o chifre pequeno é o Anticristo. Mas entende que esse Anticristo se desenvolve a partir da fragmentação de Roma (o quarto reino), se estendendo ao longo da história. Esse Anticristo é Roma católica/sistema papal. Os 1260 dias e outros períodos de tempo proféticos são entendidos como anos. Assim, a perseguição referida em Daniel 7:25 é interpretada como tendo ocorrido entre 538 d.C. e 1798 d.C. (período de ascensão e queda da supremacia papal). Nesse sentido, a IASD se aproxima mais da interpretação dos primeiros protestantes e de Isaac Newton.

Esse tipo de interpretação é chamada de historicismo (isto é, vê o cumprimento das profecias de Daniel e Apocalipse como ocorrendo ao longo da história). Essa vertente de interpretação foi sendo abandonada na medida em que os evangélicos aceitaram o dispensacionalismo, visão que trabalha essencialmente com o futurismo (isto é, que vê o cumprimento das profecias de Daniel e Apocalipse como ocorrendo quase todas um pouco antes de Jesus voltar). A Igreja Adventista é uma das poucas instituições cristãs protestantes que se mantém interpretando de modo Daniel e Apocalipse de maneira historicista.

No próximo post, vamos analisar as interpretações a respeito de Daniel 8. Essa também deve ser uma análise densa.

Por Davi Caldas

Fonte: Reação Adventista

Sobre Weleson Fernandes

Escritor & Evangelista da União Central Brasileira

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