O Segredo da Felicidade Conjugal

O lar é o ambiente natural e mais propício para que floresça e frutifique a alegria.

Não podemos ser felizes sozinhos.

Se considerarmos que psicologicamente temos a necessidade de amar e ser amados, compreenderemos facilmente que uma das formas mais sábias de assegurar o prazer individual é formar lares sólidos que provejam o ambiente adequado para o desenvolvimento da alegria.

Contudo, por paradoxal que pareça, não é fácil alcançar a felicidade familiar.

A Academia de Ciências Morais e Políticas de Paris estudou o caso de 96.834 casamentos e assinala que somente 17 eram felizes.

Qual é a causa de tantos fracassos? Evidentemente não se trata de uma razão mas de muitas, algumas das quais comentaremos.

Há os que pensam que a cultura pode garantir a felicidade doméstica.

Particularmente sinto um profundo respeito pelas ciências, mas devo dizer que o termómetro da felicidade familiar nem sempre concorda com o da cultura, nem com o da capacidade intelectual.

Quando penetramos na intimidade dos grandes homens de todas as épocas, surpreendem-nos pela vida do lar pouco satisfatória que tiveram uma percentagem tão alta deles.

Sócrates orientou uma corrente de pensamento que chega até aos nossos dias, mas não pôde orientar satisfatoriamente as relações no seu lar, onde eram muitos os momentos ingratos. Conta-se que em uma ocasião Jantipa, sua esposa, começou a repreendê-lo furiosamente. Era cedo. Como as coisas não melhoravam e Sócrates chegou a cansar-se, saiu de casa. A mulher, fervendo de ódio, arremessou da janela uma bacia de água na cabeça. Sócrates parou, olhou para cima e assim como estava, molhado até aos ossos disse:

– Eu já estava a prever. Depois da trovoada costuma chover.

Lincoln, no tempo em que era advogado, realizava longas viagens recusando voltar ao seu lar quando outros colegas o faziam, pelas amarguras da sua vida conjugal.

E esses problemas continuaram até à sua morte.

Leon Tolstoi, pensador e novelista russo de grande talento, contraiu matrimónio e teve 13 filhos. Mas não foi feliz no seu lar. O seu diário íntimo reflecte a angustiosa tragédia do seu casamento. E assim os exemplos poderiam preencher muitas páginas, mas não seguiremos com eles para dar lugar à enunciação de problemas específicos que deveríamos evitar e princípios que faríamos bem em seguir.

A IMATURIDADE CONSPIRA CONTRA A FELICIDADE CONJUGAL

Muitos lares fracassam porque aqueles que contraem matrimónio chegam a este ponto sem ter plena consciência do que estão a fazer. Perdem de vista a solenidade dessa união e entram para as bodas nupciais com leviandade.

Crêem que o matrimónio é uma espécie de contrato no qual cada uma das partes arrisca o mesmo, e que o poderão dissolver diante das desavenças. É correcto pensar deste modo? Não. O lar não deveria ser estabelecido sobre as bases de um contrato que pode ser dissolvido, mas sobre promessas de valor perpétuo, mesmo diante das dificuldades que poderão surgir.

Mas não é suficiente que concebamos o matrimônio como um contrato para toda a vida. Quando Deus o estabeleceu propôs muito mais que fazer que um homem e uma mulher vivessem juntos para sempre. O Criador quis prover o ambiente de paz e amor onde nascessem e crescessem os filhos. Quis oferecer-nos a oportunidade de dar e receber amor, produzindo assim a maturidade da personalidade.

Há pouco tempo atrás, os diários de Buenos Aires publicaram a notícia de uma jovem de 20 anos de idade que castigou sua mãe e a queimou com água fervendo porque esta não lhe permitiu açoitar a seu filhinho. Esta reação colérica fala de um carácter imaturo não capacitado para ser a cabeça de um lar que, contudo, se formou.

Ao falar de imaturidade não nos referimos necessariamente a pessoas jovens.

Nesse mesmo dia li a notícia de um casal de maior de idade que não soube encontrar uma saída pacífica para suas desavenças. O esposo tomou um pau, sua mulher o imitou e se lançaram um contra o outro em um encarniçado duelo. A esposa ganhou a partida, embora ficasse com várias costelas quebradas e muitas outras lesões. Ambos estão detidos, e quando o esposo sair do hospital – indicava a nota do jornal – passarão à disposição do juiz para prestar conta de seus atos.

Um caso extremo! Exclamaram muitos. Admito que é assim. Contudo a mesma imaturidade – embora se manifeste com menor ferocidade – está asfixiando a muitos casamentos da atualidade. Se não, pensemos nos gritos encolerizados, estridentes, inoportunos, bruscas represálias que não guardam relação com a magnitude dos fatos, etc.

Ao fazer uma análise dos motivos que levam os casais a discutir, teremos que reconhecer que no fundo da maioria das disputas há criancice.

Tieche, em seu livro El Arte de Vivir, narra o caso de Felipe e Catalina. Uma noite estavam em sua salinha e viram cruzar um rato. Ambos perguntaram-se de onde pôde sair.

– Entrou por aqui, disse Felipe.
– Não, foi por este lado – replicou Catalina.
– Te disse que veio desta direcção!
– Não, eu o vi chegar de lá!

A disputa se agravava rapidamente até o ponto de o serão terminar em uma atmosfera carregada de eletricidade, e ambos esposos não se dirigem a palavra por vários dias. Felizmente a cena se produziu poucos dias antes do ano novo, e como é o momento dos novos começos, é necessário arrumar as coisas. Felipe rompe o silêncio e diz:

– Vamos, Catalina! Não devemos passar assim o dia de ano novo. Façamos as pazes, está bem?
– Como não, Felipe!

Confundem-se em um comovedor abraço, e enquanto Catalina seca as lágrimas por cima do ombro de Felipe, acrescenta:

– Mas recorda que o rato veio deste lado, sabes?
– Oh, não! Te asseguro que foi por este outro lado.
E a disputa se renova.

Os dois esposos brigam por uma insignificância. Como não têm suficiente maturidade em suas personalidades, deixam-se levar pelo amor próprio e negam-se a ceder. Não é pois estranho que seja incômodo viver nessa casa, e talvez se torne impossível com o tempo.

Joseph Sabath, magistrado de Chicago, depois de atuar como árbitro em mais de 40.000 casamentos desgraçados, declarou: “No fundo da maior parte da infelicidade matrimonial, há trivialidades.”

Sem dúvida, este homem estava autorizado a dizer essas palavras, pois tinha material em abundância diante de si para emitir juízo.

Muitos outros, com experiência semelhante, mencionam-nos que aqueles que recorrem ao divórcio para solucionar suas diferenças conjugais e depois concretizar outra união, não são felizes. A mesma imaturidade que os levou a ser incapazes de estabilizar o primeiro casamento leva ao precipício a segunda tentativa.

Sem dúvida, expressa muita sabedoria aquele provérbio espanhol que diz: “No casamento é preferível a pior tormenta ao naufrágio.”

O PRIMEIRO PASSO DA SOLUÇÃO: CRESCER EMOCIONALMENTE

Pois bem – dirá alguém – que devo fazer agora para solucionar as dificuldades com meu esposo?

O essencial, no caso de disputa, é dar prova de boa vontade e ter um ânimo perdoador.

Até me animaria a dizer que nos convêm imitar o que acontece no Dahomey em ocasiões semelhantes. Os esposos aborrecidos sentam-se nos extremos da choça. Depois de um momento um deles – as más línguas dizem que é o esposo – levanta-se e passeia de um lado para outro repetindo:

– Sou um imbecil, sou um imbecil!

Ambos se reúnem no centro do quarto e repetem em diversas ocasiões:
– Somos uns imbecis!

Uma vez de acordo quanto ao primeiro ponto é fácil entender a respeito dos demais, e a disputa cessa.

Você e eu não vivemos no Dahomey e sem dúvida não somos o que eles dizem ser. Mas, às vezes, quando penso em todas as coisas belas da vida de lares que destruímos, pergunto-me se os que nos contemplam não estarão a pensar que não parecemos uns imbecis.

Antes de tomar decisões trágicas e definitivas valeria a pena que provássemos como seria colocar-nos em lugar da nossa esposa, reconhecer os nossos defeitos e estar dispostos a perdoar. Com toda segurança que o resultado será visto na solução do que nos havia parecido um beco sem saída.

Devemos crescer emocionalmente para evitar uma das razões frequentes pelas quais surgem dificuldades que é a perda gradual do respeito mútuo entre os casais que, como resultado lógico, culmina na falta de respeito entre pais e filhos.

A melhor maneira de não cair nesta situação é evitar a primeira briga.

Uma vez que esta se produziu, as seguintes terão lugar com mais facilidade, pois já existe certo grau de desvalorização da instituição matrimonial como do companheiro.

Evidentemente nem todos os leitores serão recém-casados, muitos estarão procurando uma solução feliz para uma vida conjugal plena de amargas dificuldades. Os tais terão que colocar muita boa vontade de sua parte e exercer muita renúncia.

Conheci o Dr. Santiago A. Chichizola por motivo de uma série de conferências que ministrei em Flores, Buenos Aires. Este proeminente médico que foi por mais de 20 anos director do Hospital Alvarez de Buenos Aires narrou-me um incidente que ilustra nitidamente o que queremos dizer.

Uma senhora humilde entrevistou uma curandeira para pedir-lhe que realizasse algum mal ou encanto para dominar a seu esposo, que costumava beber e castigá-la brutalmente. Depois de dar toda sua informação, a atribulada mulher viu que em meio de uma espécie de ritual misterioso a curandeira enchia um frasco escuro de certo líquido e lhe dizia:

– Este frasco contém água milagrosa. A próxima vez que seu marido vier com ameaças e injustiças, você terá que encher a boca de água milagrosa e mantê-la ali todo o tempo que puder. Não a tome nem a jogue fora. Quanto mais tempo a conservar na boca, maior poder terá sobre ele. Logo verá como o dominará completamente.

Logo depois ao regressar para sua casa pôde colocar à prova a receita. O esposo abriu a porta visivelmente alterado e com voz áspera começou a recriminar, a ameaçar, enquanto erguia seus punhos cerrados, a proferir fortes insultos. Diante desse quadro a infeliz esposa tirou dentre suas roupas o frasco e encheu sua boca com a “água milagrosa”. O marido continuou com suas injustiças e insolências. Ela manteve a “água milagrosa” na boca durante vários minutos, e finalmente viu que as palavras foram cada vez mais serenas e entre palavras entrecortadas apareceram as primeiras desculpas. Depois de um silêncio longo e finalmente chegou a calma. Então, desocupou a boca da “água milagrosa” que lhe deu tão surpreendente resultado, pois cada vez que quis responder – e os impulsos eram de utilizar o mesmo tom que seu esposo – encontrou que não podia fazê-lo sem tragar ou lançar fora a água. E como “quando um não quer, dois não brigam”…

Contei esta história quando em certa oportunidade dissertava sobre a felicidade no lar. Sugeri aos assistentes que aplicassem a moral. Em meio do auditório, sorridentes, escutavam meus pais, os quais levavam quase meio século de casados. Dias depois os visitei e enquanto abraçava o papai, perguntei-lhe como marchavam as coisas.

– E já verás, filho – respondeu – com o frasquinho no bolso.

Eu não sou curandeiro e não creio nisso. Mas se me ocorre que alguns de nós deveríamos pensar na possibilidade de aplicar de alguma maneira esta receita, não é verdade?

Omito voluntariamente neste capítulo as consequências que produz nos filhos a ruptura do vínculo matrimonial, pois será tratado ao falar da delinquência juvenil. Contudo, será bom dizer claramente que o homem ou a mulher que procuram solucionar suas diferenças conjugais por vias do divórcio devem pensar antes que têm uma responsabilidade contraída com os filhos: Diante deles, da sociedade e diante do Criador. Se nas decisões não estão incluídos os interesses reais dos filhos estaríamos frente a um ato egoísta que não trará alívio e menos ainda felicidade. Onde quer que procurássemos formar um novo lar, a sombra desses pequenos nos perseguirá.

O AMOR QUE DÁ CRESCIMENTO EMOCIONAL, CRIA A FELICIDADE CONJUGAL

Hamilton enumera o que considera são elementos necessários para um lar feliz. Expressa-o assim: “Seis requisitos são necessários para um lar feliz. A integridade deve ser o arquitecto e o asco o tapeceiro. Deve ser amornado pelo afeto, iluminado pela alegria e o labor deve ser o ventilador que renova a atmosfera e traz nova saúde; tanto que, sobretudo, como pavilhão protetor e de glória, nada será suficiente excepto a bênção de Deus.

É provável que alguém pergunte a si mesmo: Por que incluímos Deus ao falar do casamento? A resposta é clara: porque a experiência demonstra que assim deve ser.

Costuma-se dizer que para o matrimônio necessitam-se de dois seres: um homem e uma mulher. Tornou-me muito sábia a declaração do monsenhor Tihamer Toth: “Na realidade necessitam-se de três: um homem, uma mulher… e Deus.”

Nos Estados Unidos, onde de cada três enlaces produz-se um divórcio, comprovou-se que dentre as famílias que assistem assiduamente aos cultos religiosos só se divorciam um de cada cinquenta casamentos. Ou seja, apenas dois por cento. Essa é a diferença que existe entre o lar onde se praticam os princípios cristãos e o que os esquece.

Finalmente quero dizer que para que a alegria reine no lar este deve estar fundado no amor.

Há os que formalizam o compromisso matrimonial por interesses de ordem material e logo choram por não haver encontrado a felicidade que esperavam; outros chegam ao matrimónio pela força das paixões, que se desvanece quando se murcha a beleza física, e ainda antes, ao desaparecer o deslumbramento inicial.

Severo Catalina expressou: “O matrimônio é um magnífico castelo que não tem mais que uma porta: o amor.”

E quando dizemos amor não nos estamos referindo a um arrebatamento, a uma atitude mística, nem tampouco ao fogo impetuoso das paixões.

Falamos desse princípio inspirado no carácter sublime do Criador. Um princípio que rege a vida e que nos leva voluntariamente ao respeito da personalidade alheia e ao desprendimento, à renúncia sem segundas intenções nem malícia, ao bem do ser amado.

O amor é tão necessário para manter o lar como foi no momento em que este foi constituído.

Através dos anos os cônjuges deveriam buscar a forma de cultivá-lo a fim de manter sua louçania inicial.

O esposo deveria manter o trato cortês e as considerações que tinha para sua esposa quando eram noivos e lhe prometia amor eterno. Lembre-se de que sob essa promessa você a tirou da casa de seus pais para fazê-la sua esposa. Quando você uniu sua vida à dela recebeu o produto dos sacrifícios e ilusões de um pai; dos desvelos e esforços que durante anos ofereceu uma mãe que sonhava com a felicidade da que hoje é sua esposa. E você tomou essa menina da casa desses pais com a promessa de amá-la toda a vida. Não esqueça nunca disso.

Quando chegarem as datas especiais ou aniversários, dê-lhe um presente, como o fazia antes… e embora não haja datas especiais, qualquer dia é propício para a galanteria e o reconhecimento dos esforços de uma boa esposa.

Seus filhos aprenderão o exemplo e lhes será natural e agradável amar e respeitar a mãe. Eles recordarão sempre com respeito e gratidão o trato considerado que você tenha para com ela.

Carlyle, depois da morte de sua esposa, escreveu em seu diário: “Oh, se pudesse vê-la outra vez para dizer-lhe que sempre a amei! Oh, que pena! Ela nunca o soube!”

Muitas esposas estão sedentas de manifestações de amor por parte de seus esposos e, como a companheira de Carlyle, descem à tumba sem havê-lo percebido no trato quotidiano.

O mesmo costuma ocorrer com esposos que não têm a felicidade de ver suas esposas empunhar as agulhas que tecem a felicidade doméstica.

Quando vejo 200 homens sozinhos, sentados num salão público, penso: aqui há 200 pobres homens que não sabem o que é companheirismo no lar.

Uma revista muito prestigiada, publicou em certa oportunidade uma nota interessante.

Intitulava-se “Como trata você ao seu cachorrinho?”

Toda a página estava cheia de fotografias que ilustravam o trato carinhoso que uma senhora oferece a este animal: como o penteia, acaricia-o, dá-lhe de comer, preocupa-se com seus passeios, etc. Etc.

Ao dar volta a folha lia-se: “Trata assim ao seu marido?”

Um esposo tratado dessa maneira não terá muito interesse em sair de casa.

Quando ele sente que é querido, que é tratado como um rei, termina por ficar como um escravo voluntário.

CONCLUSÃO:

Amigos, cultivemos o amor a fim de que o lar seja o reino do pai, o paraíso dos filhos, e o mundo da mãe.

Autor: Weleson Fernandes

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Escritor & Evangelista da União Central Brasileira

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