A SIMULAÇÃO COMO ARMA PARA VENCER

José Ingenieros (1877-1925) foi um notável pensador e escritor argentino. Destacou-se como preeminente médico psiquiatra e professor de Psicologia. De seus múltiplos escritos, os dois livros que mais o notabilizaram foram O Homem Medíocre e A Simulação na Luta pela Vida.

Inspirado neste livro e baseado nos ricos subsídios que ele nos fornece, elaborei a seguinte palestra, almejando que ela seja de utilidade para todos vocês, como sua leitura me foi bastante proveitosa.

Que é simulação? O dicionário nos dirá que é sinônimo de fingimento, disfarce, fraude, engano, dar a aparência de alguma coisa que não corresponde à realidade.

Quero contar-vos um incidente de nossa vida colegial que bem ilustra o que é simulação.

EXPLICAÇÃO


Um de nossos estudantes, ao vir prestar exame de grego, em segunda época, chegou à classe com a cabeça toda envolta em panos. Ao perguntar-lhe o que havia acontecido, afirmou estar sofrendo de um forte resfriado, com muita dor de ouvido. 

Posteriormente, soube que ele trazia um aparelho receptor no ouvido para captar as explicações que outro colega iria transmitir de um aparelho que eles haviam instalado, à noite, no porão do edifício. As experiências da noite foram válidas, mas durante o dia se mostraram ineficazes e o moço foi reprovado. Estava simulando doença, quando na realidade visava vantagens escusas.

A simulação é muito comum no lar, no trabalho, na escola, na política, enfim, em toda a nossa sociedade.

A menina que diz à mãe estar com dor de cabeça para não enxugar a louça, quando na realidade não a está sentindo, é uma simuladora.

O aluno que finge estar se sentindo mal para sair da classe, ou no dia do exame estar doente para não fazer a prova, está simplesmente simulando.

Quantas vezes você já simulou que estava doente para não ajudar os pais, para não assistir às aulas, para faltar aos cultos? Tenho observado nos exames orais (isto foi escrito há uns 25 anos), alunos que fingem ter estudado muito, para que o professor seja complacente ao atribuir-lhe a nota. 

Alguns simulam uma amnésia transitória, aparentando escavar no recôndito da mente, noções que jamais adquiriram, para quebrar a severidade dos examinadores.

Há outra classe curiosa entre os estudantes, são aqueles que gastaram horas e horas em cima dos livros, mas querem dar a impressão, por palavras e atitudes, que não estudaram nada, com o objetivo de mostrarem inteligência, já que aprenderam sem estudar.

Lembro-me bem de um estudante, no dia da prova, perguntava aos colegas – há prova hoje? Posteriormente descobrimos que havia deitado tarde e que levantado de madrugada para o estudo.

A simulação difere da mentira no seguinte aspecto. Mentira é uma afirmação que contrasta com a verdade, a simulação é um fato. A diferença pode ser mostrada com este exemplo corriqueiro. Uma moça de 30 anos que declara ter 20 está mentindo, mas outra de 20 que se veste e finge ser velha está simulando.

Infelizmente a nossa sociedade se caracteriza pela simulação: finge este para subir na vida, aquele para pedir e todos para poderem prosperar. 

Finge o ignorante que tem capacidade, o sábio que é muito humilde, o velhaco que é homem sincero e direito, os homens do governo que têm sempre um coração magnânimo para com o povo, os políticos que visarão apenas o interesse daqueles que o elegeram, quando irão visar apenas os seus.

Diante destas afirmações e de muitas outras que poderiam ser acrescentadas concluímos que os homens usam máscaras. A criança convivendo nesta sociedade, bem cedo aprende a dissimular suas intenções. Com o passar dos anos ela reconhece a utilidade deste fingimento e começa a aplicá-lo para fins utilitários.

A Simulação no Passado


A simulação existe desde os primórdios da história da humanidade, ou dizendo melhor desde que o pecado entrou no mundo, pois Adão e Eva foram os primeiros simuladores, quando transgrediram a lei de Deus e se apresentaram como muito inocentes.

Heródoto nos relata que os gregos incidiram muito nesta peculiaridade. Ele narra o caso de Pisístrato, que para satisfazer suas ambições políticas, feriu-se em várias partes do corpo e se apresentou ao povo, dizendo que havia sido ferido por seus inimigos.

Em um epigrama de Marcial, encontramos a história pitoresca e fatídica de Célio, que fingia estar atacado de gota para não cumprir certas obrigações da vida cortesã. 

Foi, porém, bastante infeliz, porque de tanto fingir a enfermidade, acabou contraindo este mal verdadeiramente. Houve outro que para fugir das perseguições colocou um emplastro nos olhos para passar por cego. Depois de algum tempo ao retirar o emplastro, na realidade ele estava privado da vista.

A Simulação na Bíblia


As páginas sagradas nos fornecem múltiplos exemplos deste defeito de caráter, sendo talvez os mais frisantes os seguintes:

1º) Gênesis 27. Jacó simulou sob vários aspectos ser Esaú para enganar o seu pai.

2º) Labão simulou tristeza pela partida secreta de Jacó. O livro Patriarcas e Profetas declara na página 193 o seguinte:

“Labão tinha retido para si o dote matrimonial de suas filhas, e sempre tratara a Jacó com engano e aspereza; mas com uma dissimulação característica censurou-o agora pela sua partida secreta, a qual não dera ao pai oportunidade de fazer uma festa para a partida”.

3º) I Samuel 21. Neste capítulo se encontra relatado o mais frisante caso de simulação da Bíblia. Davi se portou como uma pessoa totalmente tresloucada por temer ao rei Aquis. 

Seus filhos parecem ter sido contaminados pelo seu procedimento, pois Amon aparentou estar enfermo para satisfazer o seu amor incestuoso, como nos relata II Samuel 13. Absalão simulou ser grande amigo do povo quando aspirava ao trono.

4º) Judas. Um estudo detido de sua vida nos revelará um dos maiores simuladores que a Bíblia registra.

5º) Pedro quando negou a Cristo, para simular não conhecer o Mestre, usou linguagem não compatível com um discípulo do meigo Nazareno.

Simulação nos Animais


A simulação não existe apenas entre os seres humanos, pois é muito comum entre os animais. Os animais simulam na luta pela sobrevivência, dela colhendo benefícios contra os inimigos ou contra o ambiente. 

Há animais que se disfarçam mudando de cor, e outros que se ajuntam a objetos que têm a sua cor, confundindo-se assim com eles. O exemplo clássico é o do camaleão, cuja cor se harmoniza com o meio que o rodeia. Ele será mais terroso se permanecer entre a ramagem das árvores e, mais esverdeado se permanecer entre a folhagem.

Tem-se observado que, em geral, a coloração branca é o tom predominante nos animais que vivem nas zonas polares; o amarelo e o terroso são as cores próprias dos habitantes do deserto; o verde domina nas selvas tropicais perpetuamente frondosas, enquanto os animais noturnos são de cores escuras. 

Tem-se observado ainda, que os ovos de inúmeros animais se adaptam perfeitamente à cor do meio onde são depositados, tornando-se difícil descobri-los.

São numerosos os insetos que, em presença de seus inimigos simulam estarem mortos ou se imobilizam para aproveitar sua semelhança com coisas inanimadas. 

Outros animais simulam estar dormindo enquanto espreitam suas presas; o rato costuma fingir-se de morto para escapar do gato; a raposa é célebre por seu fingimento, tendo inspirado memorável livro de Goethe, e fábulas conhecidíssimas de todos nós.

Muitos animais cobrem o corpo com folhas, flores, etc., ficando perfeitamente dissimulados sob o disfarce; para evitar o ataque dos seus adversários. Alguns se cobrem com outros animais não comestíveis, para se livrarem dos inimigos. 

Esse caso é análogo ao de alguns índios americanos, que costumam ocultar-se debaixo do ventre dos cavalos, para não serem vistos pelos inimigos, quando empreendem ataques de surpresa.

A Simulação e as Mulheres


José Ingenieros declara que as mulheres são mais simuladoras que os homens, e muitas vezes as lágrimas são usadas eficientemente para este fim. Há muitas que simulam desmaios ou enfermidades para obterem qualquer vantagem.

Existem entre as mulheres caracteres consagrados pelos cânones artísticos, que no conjunto constituem a beleza. Entre muitos outros bastará citar o frescor juventude, a face rosada, o lábio vivo, a pupila brilhante como índices de beleza feminina. 

As mulheres privadas destes caracteres, ou quando a natureza foi avara em proporcionar-lhes estes atributos ou ainda quando a idade começa a apagá-los, suprem-nos simulando com os vestidos, as pinturas e os mil enfeites que existem.

Quem já não viu solteironas de 40 anos fingirem ter 20. O tingir o cabelo e as operações plásticas são exemplos eloqüentes deste processo de enganar os semelhantes.

Outros Tipos de Simulação


Uma simulação com características diferentes é a nascida do sentimento patriótico e exercida pela classe dirigente sobre a classe dirigida, inculcando em sua mente que o país é o melhor do mundo, sua história a mais gloriosa, seus escritores os mais inspirados, seus filhos os mais inteligentes. 

Parece ser uma constante entre as nações simularem superioridade perante as outras. O escritor patrício, Afonso Celso, escreveu um livro intitulado “Porque me Ufano do meu País”, onde apresenta todas as coisas nacionais como as maiores e melhores do mundo.

Em todas as profissões existem simulações específicas: os ourives apresentam como ouro, metais que estão longe de possuírem esta qualidade nobre. Os marceneiros revestem com madeira fina e boa os móveis de tábua ordinária. 

Os simples chacareiros, colocam na parte de cima das caixas, as melhores frutas e verduras. Trabalhadores braçais fingem serem muito operosos, quando estão sendo vigiados pelos responsáveis pelo trabalho.

Há cantores que antes dos programas simulam resfriados com o objetivo de aumentar o êxito ou atenuar o fracasso de sua execução.

A classe mais numerosa de simuladores encontra-se entre os pedintes. Há muitos que simulam doenças, quando na realidade são pessoas de boa saúde. Note esta página curiosa do livro A Simulação na Luta pela Vida, quando os jornais de Chicago denunciaram e a polícia descobriu um sui-generis clube de mendigos:

“Foi ali encontrada uma chusma de indivíduos perfeitamente sãos e alegres, que comiam, bebiam, jogavam, fumavam, possuindo ainda uma biblioteca de filósofos clássicos para se entreterem nas horas do ócio. 

Todos eles durante o dia, simulavam ser coxos, cegos, mudos, idiotas surdos, e mendigavam pelas ruas da cidade; à noite, reuniam-se num clube, para gozarem tranquilamente o resultado de seu trabalho diário.

“A polícia encontrou, numa das dependências do prédio, grande quantidade de caleches para entrevados, muletas, pernas de pau, sapatos simulando pés disformes, óculos e vendas para olhos, bastões para anciãos débeis, barbas postiças, caixas de pintura destinadas a simular sobre a epiderme toda espécie de chagas e pústulas, ocupando-se nesta especialidade dois membros do clube, verdadeiros artistas do pincel. 

Havia numerosos cartazes com inscrições apropriadas: sou cego de nascimento, sou surdo-mudo por um susto, inválido da guerra civil, adquiri a lepra prestando serviços a outros enfermos, etc. 

Presos, verificou-se o seu excelente estado de saúde e perfeita aptidão para o trabalho; desde muito tempo se haviam associado para explorarem a caridade dos filantropos, em prejuízo dos verdadeiros pobres”.

Esta página nos deixa estarrecidos e contrafeitos, porque revela uma triste realidade, que em maior ou menor escala se sucede em várias partes do mundo, por vivermos numa sociedade fingida e afastada da orientação divina.
Antes de concluir, seria oportuno citar casos curiosos de simulação, encontrados entre os jovens que têm de fazer o serviço militar. 

Há grande número de enfermidades que podem ser simuladas. Hoje os médicos estão alerta contra estes simuladores. Muitos soldados ingleses provocaram a conjuntivite para obter baixa. Na grande guerra européia foram constatados vários casos de cataratas provocadas pela introdução de agulhas muito finas até o cristalino.

Dostoievski, o conhecido romancista russo, e um dos maiores escritores de todos os tempos, por questões políticas foi condenado à morte por fuzilamento. O czar lhe concedeu perdão, mas apenas o fazendo no último momento. 

Ele foi cumprir pena nas prisões da Sibéria, onde esteve dez anos, e um relato tétrico destes amargurados dias se encontra na famosa obra Recordações da Casa dos Mortos. Neste livro, que merece ser lido por todos, ele apresenta casos inéditos de simulação entre os presos para conseguir a liberdade.

Conclusão


Como jovens cristãos devemos combater a simulação pelas seguintes razões:
Que diria Cristo da simulação? Aprovaria ou condenaria este processo? Sua vida foi um constante protesto contra a simulação.

A simulação é uma arma de defesa na luta pela vida, mas uma arma de origem satânica, porque é uma modalidade de mentira.

Sejamos sempre verdadeiros, leais e autênticos em palavras e atos.
Estas palavras bíblicas deviam sempre servir de diretriz em nossa vida:

 

“Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento”.

Filipenses 4:8.

 

Autor: Pedro Apolinário
 

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Escritor & Evangelista da União Central Brasileira

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