O Cristão e a Música Contemporânea

Desde a antiguidade, a experiência do homem, em todos os seus aspectos, tem sido acentuada através da música. E esta, na vida contemporânea, tem assumido um papel preeminente, predominante. Parece ser um acessório necessário em todas as atividades em que o homem se acha empenhado. Há música no supermercado, no restaurante, na barbearia, no escritório, no gabinete dentário, no carro, no avião, na igreja e, por todos os meios, em cada compartimento da casa.

Sempre se tem reconhecido que existe grande poder, mesmo um poder mágico, nesse reino sonoro. Na Grécia antiga, grandes intelectos atribuíam influência especial a várias combinações de sons. Hoje até um observador casual percebe que a música realmente afeta o comportamento humano. E isto tem sido demonstrado por cuidadosas pesquisas científicas que não dão margem à refutações. Interesses comerciais há muito estão cônscios dessa relação. Fortunas já foram feitas, e ainda se fazem por empresários que sabem como satisfazer de uma experiência induzida pela música.

A relação entre tão poderoso meio e a filosofia, e ultimamente o comportamento humano, deve ser de vital importância para o cristão. “Experimentar” a música afeta o homem e, em conseqüência, tudo o que o homem cria, resultando num crescimento espiral, cuja direção depende da natureza e qualidade da experiência.

De alguns anos para cá, tem-se presenciado o desenvolvimento de um fenômeno sem paralelo na História da música. O modo de vida de um setor vital de nossa sociedade tem sido, em grande escala, criado e nutrido pelo tipo de música popular chamada “rock and roll”. Através do mundo a sociedade adolescente está quase totalmente dominada pela cultura rock. E o ponto central da filosofia desse movimento é a remoção de todas as restrições sobre o comportamento do indivíduo, sejam quais forem. É, portanto, natural que tal conceito seja muitíssimo atraente para aqueles cuja tendência de rebelar-se contra as restrições está no auge de sua intensidade.

A capacidade dos meios de saturar o ar através do rádio e da televisão, a fácil e gratuita disponibilidade de discos e toca-discos, e as numerosas publicações sobre as atividades dos fornecedores desse meio de expressão – tudo isso tem sua parte na cena.

Uma Cena Confusa

Nesta última década, a conseqüente e rápida aceleração na mudança social criou um tremendo problema de comunicação. Afirmam alguns que os mais idosos continuam a prover as respostas para as indagações que a geração mais nova não mais está fazendo. Outros preferem dizer que os jovens estão buscando responder, por si mesmos, às perguntas que os mais velhos não puderam responder. E em meio a essa cena confusa, muitos líderes jovens e pastores estão lutando para desenvolver novos programas destinados a apelar aos jovens. Embora atinjam vários graus de sucesso, acham cada vez mais difícil determinar a validade desses programas. Reconhecendo o papel central da música na vida dos jovens, os líderes dão grande ênfase à música, em qualquer reunião, seja de reavivamento da juventude, ou conferências evangelísticas, Escola Sabatina ou culto divino.

Enquanto muitos estão preocupados, outra grande parte de adultos está muito despercebida de haver qualquer necessidade de preocupação neste sentido. A exibição por mais de vinte anos de entretenimentos teatrais pela televisão tem-lhes anestesiado a sensibilidade para o problema. A inexorável pressão exercida pelos seus filhos tem ocasionado um progressivo afrouxamento do controle sobre o comportamento. Os jovens ameaçam os pais com um comportamento rebelde, sendo a paz adquirida por alto preço.

Ainda existe outro grupo na igreja o qual defende a música “pop”, achando que ela contém muita coisa boa. Acham que, quanto ao envolvimento moral, isso tem sido muito exagerado, se é que de fato existe algum. Aqueles que falam contra essa música são considerados obtusos, pessoas retrógradas, que estão impedindo que a denominação alcance maior “relevância”. Eles apontam para os textos de orientação sociológica ou mesmo religiosa, para justificar seu envolvimento com a música “pop”.

Em meio a tal complexidade de pontos-de-vista, como pode alguém chegar a uma consideração inteligente desse tão importante assunto? Afinal de contas, é realmente uma questão de opinião e de bom gosto? Se assim é, então muitos dariam um suspiro de alívio e voltariam a atenção para assuntos menos controvertidos, enquanto sintonizaram novamente o rádio nas estações que transmitem o rock, sem qualquer sentimento de culpa. Se não houver envolvimento moral na nossa escolha de música, então seremos forçados a admitir que o gosto individual é o que vale. Aqueles que consideram esse assunto do ponto-de-vista puramente educacional, esperam naturalmente desenvolver a fluência musical dos indivíduos, de maneira que possam ter acesso a todos os tipos e estilos. Deve-se buscar qualidade dentro de cada tipo, para que somente o melhor de cada um seja aceito, ou seja: a melhor qualidade no rock, no jazz, na música folclórica e mesmo na música clássica.

Uma vez que se admita a dominante influência da música pop na vida dos jovens, não se pode negar o desafio que esse fato oferece ao cristão bem-intencionado. Deve-se desenvolver certa habilidade nesse assunto mediante um confronto direto com fatos disponíveis e conselho inspirado. Em qualquer área onde a opinião pessoal prevalece tanto como o faz nessa área de música, é difícil perceber-se a verdade. Essas tendências são tão evidentes que a objetividade se torna impossível.

O pesquisador honesto começará buscando na Palavra de Deus os princípios básicos que possam ser aplicados. Um dos primeiros textos de que por certo se lembrará, é Filipenses 4:8: “Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento“. A palavra puro não admite atenuação, nem transigência quanto à qualidade do conteúdo daquilo em que se permite à mente demorar. “Por isso, cingindo o vosso entendimento, sede sóbrios e esperai inteiramente na Graça que vos está sendo trazida na revelação de Jesus Cristo. Como filhos da obediência, não vos amoldeis às paixões que tínheis anteriormente na vossa ignorância; pelo contrário, segundo é santo aquele que vos chamou, tornai-vos santos também vós mesmos em todo vosso procedimento“. I Pedro 1:13-15. Note-se que o cristão deve abster-se da anterior concupiscência. O chamado para mais elevados conceitos de vida encontra eco na bem conhecida passagem do livro de E. G. WhiteEducação, pág. 18. “Mais elevado do que o sumo pensamento humano pode atingir, é o ideal de Deus para com seus filhos. A santidade, ou seja, a semelhança com Deus, é o alvo a ser atingido”. O cuidadoso estudante das Escrituras e do Espírito de profecia, sem dúvida se lembrará de muitas passagens que estabelecem diretrizes para as escolhas diárias do cristão.

Ao buscarmos a identificação com a vontade de Deus, nenhum meio de comunicação com Ele deve ser negligenciado. Em primeiro lugar as Escrituras, depois os escritos do Espírito de Profecia. Nessas fontes acham-se claramente estabelecidos conceitos básicos de um viver correto. As opiniões formadas e expressas, sem se ter recorrido a essas fontes fundamentais, são prematuras e sujeitas a todas as variações de gostos e aversões pessoais. Mesmo ao serem consultadas essas fontes, a verdade pode ser obscurecida, a menos que o pesquisador esteja desejoso de ser guiado por ela. E quando se inicia esse estudo é absolutamente necessária a mais fervorosa oração, na qual seja buscada verdadeira submissão à vontade do Senhor. “Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las porque elas se discernem espiritualmente“. I Coríntios 2:14. É somente sob a guia do Espírito que se pode descobrir a verdade.

Inúmeras Referências

Com isto em mente, é apropriado considerar algumas referências específicas à música encontradas nos volumes do Espírito de Profecia. Que maravilhosa fonte de orientação direta sobre esse assunto! E que tragédia, tanta gente considerar esses livros apenas como uma vasta coleção de proibições em vez de uma providencial provisão para ajudá-los em sua jornada para o Céu. Os que buscam conhecer os desígnios de Deus quanto à música, nada melhor fariam do que ler estas bem definidas afirmações: “Fazia-se com que a música servisse a um santo propósito, a fim de erguer os pensamentos àquilo que é puro, nobre e edificante, e despertar na alma devoção e gratidão para com Deus”. E. G. White – Patriarcas e Profetas, pág. 637. “A história dos cânticos da Bíblia está repleta de sugestões quanto aos usos e benefícios da música e do canto. A música muitas vezes é pervertida para servir a fins maus, e assim se torna um dos poderes mais sedutores para a tentação. Corretamente empregada, porém, é um dom precioso de Deus, destinado a erguer os pensamentos a coisas altas e nobres, a inspirar e elevar a alma”.

Está claro, por implicação direta, que a música pode não ser corretamente empregada e pode satisfazer a fins contrários aos propostos por Deus. É certo que tal instrumento tão pleno de potencial não passaria despercebido por alguém que está tão ansioso por frustrar os planos de Deus. “Satanás não faz objeções à música, uma vez que possa tornar um caminho de acesso à mente dos jovens….Ele opera através dos meios que mais forte influência exerçam para manter o maior número possível numa aprazível absorção, enquanto se acham paralisados por seu poder”. E. G. White – Mensagens aos Jovens, pág. 295. São particularmente dignos de nota os termos “o maior número”, aprazível absorção e “paralisados”. No livro Testimonies, vol. 1, páginas 496, 497 (de E. G. White), lemos: “Fico alarmada ao testemunhar em toda parte a frivolidade de moços e moças que professam crer na verdade… Eles têm o ouvido aguçado para a música, e Satanás sabe que órgãos excitar para animar, encantar e absorver a mente de tal maneira que Cristo não seja desejado. Faltam os anseios espirituais da alma por divino conhecimento, por crescimento na graça”.

É claro que Satanás pode usar a música para produzir exatamente os efeitos opostos àqueles que são expressamente pretendidos por Deus. Em vez de despertar “na alma devoção e gratidão a Deus”, a música pode paralisar o ouvinte e criar uma condição na qual “faltam os anseios espirituais da alma por divino conhecimento e crescimento na graça”. Considerando esse ominoso fato, é de admirar que se torne extremamente difícil a comunicação com aqueles que se alimentam de uma constante dieta de tão debilitante cardápio?

Essas afirmações foram feitas por arguta observadora das condições espirituais reinantes entre os jovens de seus dias, e profundamente preocupada com assuntos eternos. Foram feitas em resposta a um pedido do conservatório musical de um de nossos colégios, mas brotaram de um grande amor pelos jovens e intenso desejo de vê-los ganhar a vida eterna. À luz desses conselhos poderíamos mesmo supor que não há envolvimento moral em nossa escolha de música?

O conhecimento sempre traz responsabilidade. Conhecendo as intenções de Satanás com respeito à música, o cristão se torna um observador da cena musical contemporânea, dirigido pelo Espírito, procurando evitar os enganos que enfraquecem seu anseio por Cristo e destruem seu gosto pelas coisas espirituais. Deve-se enfrentar o repto, reconhecendo que Deus não esperaria algo de Seus filhos, deixando-os, então, a debater-se sem orientação no assunto. Especificamente, o cristão deve buscar descobrir as maneiras em que Satanás está operando mediante as formas contemporâneas da música.


Fonte: Revista Adventista, Julho de 1980, pp. 41, 42 e 43.

Autor: Harold Lickey

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Escritor & Evangelista da União Central Brasileira

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