O Homem, “Esse Desconhecido”

Uma das qualidades mais produtivas da criatura humana é o espírito de investigação. Vivendo embora cercado de mistérios, o homem como que se rebela contra essa fatalidade singular e aparentemente calculada, e manifesta sua rebeldia procurando penetrar o profundo das coisas. Graças a essa qualidade criadora, vai a experiência humana sendo enriquecida dia a dia com novos conhecimentos em todos os ramos de sua atividade. Derrotado aqui, vitorioso ali, o homem não esmorece em sua ânsia de descobrimentos. No entanto – estranha ironia – é o próprio homem o seu maior mistério. O homem é o enigma do homem.

Desde que teve consciência de sua presença sobre o globo, o homem sentiu-se intrigado com os mistérios de sua origem. “Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos?” Interroga-se aflito, mas a única resposta é o eco do seu próprio coração angustiado.

Refere a mitologia que Pirineu, rei de Daulis, aprisionou certa vez em seus aposentos as musas, na esperança de arrancar-lhes o segredo do seu poder de inspirar os mortais. Mas o rei, que era sábio e por isto mesmo descuidado, deixou aberta uma pequena janela por onde as musas, pondo asas de cotovia, ganharam o espaço. Na ânsia de persegui-las, o desolado Pirineu lança-se pela janela aberta, mas cai sobre a álea do jardim, quebrando a cabeça.

Dizem que esta é uma figura do homem que persegue a felicidade; mas cremos poder fazer dela uma aplicação diferente. Podemos admitir que as musas sejam o próprio homem, misterioso, indefinível, e Pirineu uma figura do esforço humano no sentido de penetrar o seu próprio mistério.

Com efeito, o homem é um ente mais maravilhoso mesmo que as musas, e os sábios de todos os tempos não se tem cansado de quebrar a cabeça na busca de uma explicação para os mistérios que o envolvem. Mas nem a Filosofia, nem a Psicologia e nem a Ciência foram capazes até hoje de encontrar uma explicação racionalmente satisfatória para a presença sobre a Terra desse ser extraordinário, e menos ainda de entender cabalmente a natureza humana com sua complexidade de fenômenos.

A Chave do Próprio Destino

Mas o homem sente que lhe é imperioso conhecer-se, pois compreende que o conhecimento de si mesmo é a chave que lhe permite informar-se do próprio destino. Então brada aos céus e à Terra, esconjura, escogita, clama, pede, suplica. Como bem diz Mumford, “na ânsia de conhecer-se a si próprio, e saber qual o seu lugar no mundo, vem o homem desde os primórdios da civilização interrogando os céus e perscrutando, numa análise introspectiva, o seu mundo interior.” – A Condição de Homem, pág. 10.

Ao procurar localizar-se na escala da criação, o homem descobre uma coisa surpreendente: verifica que o mundo, com todos os seus acessórios, está organizado de tal maneira que parece haver sido feito especialmente para ele. Todo o labor da Natureza se processa no sentido do bem-estar do homem. Ora, isto lhe dá logo a idéia de que o ser humano não é simplesmente aquela “sujeirinha” que evoluiu e adquiriu organização como num passe de mágica, segundo o ensino de algumas escolas evolucionistas. Se tenta estabelecer relação entre si e os outros animais, percebe que, não obstante algumas notórias semelhanças com as espécies mais elevadas, em tudo lhes é superior. Mas a angustiosa interrogação persiste.

A Primeira Grande Conquista

Não é de hoje, porém, que o homem vêm procurando saber que espécie de criatura é. A máxima “Conhece-te a ti mesmo” atravessou os séculos e chegou até nós com o mesmo sentido de verdade necessária com que a formulou um dos maiores luminares da sabedoria humana. E parece que Sócrates, de quem o Oráculo de Delfos disse ser o mais sábio dos homens, teve de atravessar o Rubicão da vida sem haver logrado conhecer-se de maneira a poder assegurar-se do destino que o esperava nos domínios da morte. Quando condenado a beber cicuta, o velho filósofo riu de seus algozes. Queriam castigá-lo, disse, dando-lhe a morte, e contudo não sabiam se não o estavam porventura premiando, visto que todos ignoravam o que sucede ao homem depois da morte.

Assim, o mais sábio dos homens desconhecia o próprio fim depois da fronteira da vida. Isto quer dizer simplesmente que nem antes e nem depois de Sócrates o homem logrou conhecer-se, pois continua temendo a morte; e teme-a pelo simples fato de não saber o que virá depois. São milhões os que professam admitir que a morte não é mais que uma porta que se abre para uma existência melhor; mas lançam mão de todos os recursos para prolongar a presente vida, mesmo com todas as suas agonias e sofrimentos. É que no fundo não estão seguros do que os aguarda do outro lado. Em outras palavras, malgrado sua profissão de fé numa vida melhor, na realidade ainda não se encontraram a si mesmos, pois a primeira grande conquista do homem que se descobre a si mesmo é a perda do exagerado temor da morte.

O Valor do Homem

O fato de que a Criação parece estar disposta de tal maneira que não vise senão servir aos propósitos humanos, já traz em si o pensamento de que é o homem o soberano dessa criação, o seu elemento mais importante. É de W. P. King, este pensamento: “Quando um cético petulante diz: Astronomicamente falando, o homem é desprezível, nós respondemos: Astronomicamente falando, o homem é o astrônomo.”

Faz bem pensar que não valemos muito pouco. O conceito do homem como “um mísero verme da terra,” tão a gosto de nossa pretensa humildade, devia ser posto de lado, a fim de que aprendêssemos a ver no homem um tesouro de alto preço, que apenas a ignorância de sua origem não tem sabido avaliar. Faz algum tempo um turista americano comprou numa joalheria de Paris um colar por alguns francos. Voltando a sua pátria mandou, por mera curiosidade, avaliá-lo por um joalheiro americano. Qual não foi o seu espanto quando lhe foi dito que o colar valia alguns milhares de dólares. É que numa plaqueta que acompanhava o colar, o olho treinado do joalheiro descobriu esta inscrição: “De Napoleão a Josefina”. Era uma caríssima jóia, cujo valor era menosprezado unicamente pela ignorância de sua origem.

Isto ilustra bem a condição humana. Pode dizer-se mesmo que a crise do mundo jaz na base da desvalorização do homem. Se o ser mais importante do universo não vale mais que um verme da terra, como é comum ouvir-se, que siga o destino dos vermes: viva o pó, na lama, no lodo. Tal filosofia é um incentivo para o fabrico de guerras, visto que os que vão morrer valem apenas a soma dos seus elementos materiais. é uma filosofia que estimula tão somente a brutalidade, reconhecida na lei do mais forte. Conta-se que um filósofo grego queixava-se a um seu amigo, nobre romano, de que nunca vira morrer um homem. O homem fez soar uma sineta e chamou um servo. Mandou que lhe trouxessem um escravo e, ali mesmo, na presença do filósofo, fez degolar o escravo, para que seu amigo visse morrer um homem. Isto dá bem a medida do valor que o homem se atribui. Mas, como bem diz James Robertson, “nenhum limite se pode pôr ao valor do homem, se este chega a ser filho de Deus.” E acrescenta: “É coisa bem estranha o verificarmos que o homem é um assunto dos mais difíceis, quando investigado pelo próprio homem.”

Temos de reconhecer que é de fato difícil o problema do homem, quando estudado pelo próprio homem. Recentemente o jesuíta padre Bouillard, defendendo na Sorbona uma tese sobre a teologia de Karl Barth, um dos maiores pensadores cristãos da atualidade, apresentou três volumes escritos, dos quais dois tratavam do homem. Assim, numa tese de teologia, o problema da pessoa do homem mostrou-se mais complexo que o da Pessoa de Deus.

Não obstante, por difícil que seja este problema, é ao homem mesmo que compete descobrir-se no emaranhado do meio em que vive. Quando considerado em relação com o seu próprio mundo, o homem verifica que a crise de um é o reflexo da do outro. Assim uma análise do homem em face dos problemas do mundo, e destes em relação com aquele, seria o único meio de se chegar a uma solução satisfatória dos problemas de ambos: do homem e do mundo.

***

Do exposto, deduzimos que o homem deve procurar descobrir-se atribuindo-se desde logo um valor infinito. É preciso examinar a matéria e a essência, a superfície e o fundo, para que se tenha uma idéia do todo.

Certa vez Miguel Angelo descia por uma íngreme ladeira da cidade de Florença, em companhia de um amigo, quando deram com um grande bloco de mármore abandonado:

– Veja – exclamou o famoso escultor – há um anjo nesta pedra!

– Anjo! – admira-se o outro – não vejo aí senão um bloco de mármore sujo e cheio de arestas.

– É que não tens olhos para ver – torna Miguel Angelo – mas eu vejo, sim, eu vejo um anjo nesta pedra.

O grande escultor manda incontinenti buscar o enorme bloco de mármore, leva-o para o seu atelier. Dias depois convida o amigo a visitar-lhe a oficina.

– Oh! – exclama o amigo ao entrar – que maravilhoso anjo vejo ali esculpido! Não o havia visto antes em teu atelier.

– Este é o anjo que estava naquela pedra – declara o escultor.

Assim é em relação ao homem. Uns não vêem mais que a matéria bruta: um monte de carnes e ossos animados. Estes nunca estão seguros de que o homem permaneça em sua condição humana, pois como sustentam que o homem veio do animal, temem o risco de uma “volta atávica ao seu passado animal.” Os outros, porém, com carradas de razões, crêem que o homem saiu do anjo, da inocência, da santidade, e busca seu estado primitivo. São duas correntes de pensamento, idênticas na forma, pois admitem ambas que o homem busca o seu passado, a sua condição original, mas inteiramente diversas na essência. Ambas as correntes cogitam do mesmo homem, mas de pontos de vista diferentes, senão opostos.

Se todas as escolas do pensamento humano, abrindo mão de sua fabulosa soma de orgulho pessoal, se dispusessem a considerar o problema do homem e do mundo de um ponto de vista comum, haveriam de descobrir que ele não leva a mais de uma conclusão. Certa vez uma pessoa quis mostrar a um amigo a beleza de um cenário que tinha diante dos olhos e que se lhe abria à distância. Mas o amigo afirmava nada ver. Então ela lhe disse: “Fica aqui no lugar onde estou.” Isto mudou a situação, e ambos puderam ver a mesma coisa.

Revisão de Velhos Conceitos

Partindo deste princípio vê-se que não seria tão difícil a harmonização em torno da maioria das questões que agitam os homens. Todo o óbice parece residir no orgulho da opinião. E todos nós sabemos que as opiniões se formam com base nos subsídios que o costume, a educação e as tradições dos antepassados nos legaram. Em relação a muitos de nossos hábitos, principalmente religiosos, ouvimos constantemente esta declaração: “Meus antepassados criam assim, e assim devo eu também crer.” É difícil erradicar do espírito de uma pessoa opiniões preconcebidas. Os homens vivem amarrados ao tradicionalismo. Ainda a respeito de Sócrates, conta-se esta interessante anedota: Ia o filósofo caminhando por uma rua de Atenas quando, diante de si, passa correndo um homem. Atrás deste vinha outro também a correr, enquanto gritava:

– Pega! Pega! É um assassino!

– Um assassino? Que é isto? – Sócrates pergunta ao que vinha gritando.

– Um homem que mata – respondeu o outro.

– Ah – disse Sócrates – um magarefe, então.

– Oh, não – acrescentou a rir o primeiro – um homem que mata outro homem.

– Então um carrasco – tornou Sócrates.

– Não, não – explica o outro, já um tanto impaciente – um homem que mata outro homem sem autorização da justiça.

– Compreendo. É um soldado.

– Senhor, procurou esclarecer o primeiro, visivelmente irritado – um assassino é um homem que mata outro homem sem motivo, fora de tempo de guerra, que não fora condenado por nenhum tribunal e que estava tranquilo em sua casa, sem esperar por isto.

– Ah, sim, então é um médico – concluiu tranquilamente o filósofo, enquanto o outro se afastava, certo de que havia falado com um louco.

Esta historieta bem humorada encerra uma preciosa lição: Não é verdade que há muito de convencional no dogmatismo com que sustentamos velhos conceitos e definições? Que é realmente um assassino, se há tantas maneiras de matar que fogem  à definição convencional? Que é um ladrão, quando há tantas formas de roubo que se revestem de aparente licitude? Temos que renovar nossa concepção das coisas. O apóstolo S. Paulo, literato, filósofo e jurista, que foi, tem esta declaração: “E vos renoveis no espírito de vosso entendimento.” Efésios 4:23. Muitas vezes a razão completa é formada da justaposição de duas meias-razões. É a necessidade de revermos nossa posição a fim de ajustá-la a uma possível segunda metade.

As filosofias humanas não lograram até hoje descobrir o que seja o homem afinal. Depois de tantas buscas, o máximo que nos legaram foi um punhado de definições vagas, tolas ou jocosas.

Pascal dizia ser o homem um caniço, mas acrescentava, um caniço pensante; uma associação misteriosa de força e fraqueza. Na vulnerabilidade da matéria, tão débil que uma aragem mais forte a faz oscilar, a fôrça criadora do pensamento que só encontra limites no infinito.

Platão definiu o homem como um bípede sem penas. Ouvindo isto, outro filósofo depenou um galo e saiu pelas ruas de Atenas exclamando: “Eis o homem de Platão!” Há ainda quem definisse o homem como “o animal que ri e chora.”

Como vê o leitor, estas e outras definições do homem, “esse desconhecido”, esse ignorado, “semi-anjo, semi-demônio”, carecem todas daquele sentido espiritual que o diferencia soberanamente de todos os outros animais. Por isto pode dizer-se que o homem, a quem Diógenes procurava com sua lanterna acesa em pleno meio-dia, ainda não foi descoberto pelo próprio homem.

Busca objetiva

Uma coisa, porém, é certa: Quanto mais objetivo e menos fantasista for o homem na busca de si mesmo, mais depressa se encontrará. O homem real é uno e indivisível, e embora deva ser considerado de todos os ângulos, é como indivíduo que o devemos examinar. Uma das razões por que o homem não pôde ainda localizar-se no conjunto da criação é o processo de busca de que se tem servido. Para uns é ele demasiado abstrato, para que se encontre dentro de fórmulas concretas. Para outros é apenas material, todo substancial e concreto, para que se encontre por meio de fórmulas abstratas. E se esquecem de que o homem é a média. Considerá-lo de um ponto de vista unilateral, seria como dizer que somos feitos de pano, só porque andamos vestidos.

Opiniões Filosóficas Contraditórias

É por isto que psicólogos, sociólogos e filósofos que se entregaram à busca do homem, chegaram  a conclusões inteiramente opostas. Para Descartes, por exemplo, o homem é sobretudo pensamento, mas regido pela consciência. Esta é instrumento seguro na orientação dos atos morais. Referindo-se à consciência, disse ele: “Ó tu, guia divino, infalível,” etc. Comentando este passo de Descartes, um de nossos mais profundos pensadores patrícios, o Dr. Miguel Rizzo, contou certa vez a seguinte história:

Lá no interior do sertão havia um terrível pistoleiro, matador por empreitadas. Esse homem foi certa vez contratado para dar cabo da vida de um fazendeiro, por questões políticas. Ajustado o preço, recebeu o bandido a importância e dirigiu-se para a fazenda de sua vítima.

Quando o fazendeiro, do terraço da fazenda, viu aproximar-se um estranho, alegremente fez-lhe sinal para que entrasse. Apressou-se para recebê-lo com demonstrações de cortesia e bondade. Embora já fosse tarde, mandou que lhe preparassem um bom jantar. Ofereceu-lhe também uma cama muito limpa e macia.

O jagunço, depois de se recolher ao leito, começou a pensar: “Devo eu matar um homem contra quem nada tenho, que não me fez mal nenhum, e que além do mais tratou-me assim tão bondosamente? Não, eu não posso fazer isto.”

Pela primeira vez a consciência, que Descartes dizia ser guia infalível, despertou no matador, e começou a incomodá-lo. Estava ele já decidido a levantar-se pela manhã e ir-se embora, quando se lembrou de que já havia recebido o dinheiro da empreitada assassina. “Ah – disse consigo o bandido – acima de qualquer outra consideração está minha palavra de honra.” E de manhã bem cedinho levantou-se e matou o fazendeiro, para cumprir a palavra empenhada.

Podemos confiar na consciência como guia das ações morais de nossa vida? Descartes ensinava que sim, mas é uma afirmação temer´paria e perigosa. A razão está com Vergilius Ferm, quando sustenta:

“A consciência não é infalível. Daí necessitar ser educada, conservada iluminada, aprendendo a ser consciente da vida, e o próprio crítico de seu juízo … Uma consciência que confia demais em si mesma é um perigo mortal. Torna-se mesquinha a não ser que ultrapasse os limites de si mesma. Deve enfrentar a realidade de suas possíveis faltas.” – Vergilius Ferm, Encyclopedia of Religion, Pág. 198.

Não, evidentemente Descartes não tinha razão. A consciência é um guia por demais precário, para que nela confiemos sem reservas.

Berkeley dizia não existir a matéria, mas apenas o espírito. E podemos acrescentar aqui Davi Hume que contrariamente a Berkeley, ensinava a inexistência do espírito, e a respeito de quem se disse esta frase: “Hume suprimiu o espírito, como Berkeley suprimira a matéria.”

Como vê o leitor, mencionamos apenas três dentre os mais eminentes filósofos, e vimos como são contraditórias suas opiniões sobre o homem. E é avisadamente que estamos passando como um meteoro sobre essa seara de feno, dado que não nos propomos considerar a pessoa humana à luz de proposições filosóficas já por si inconsistentes. Se quiséssemos ir mais fundo nessa densa floresta de conceitos divergentes sobre o ser humano, correríamos o risco de cair na mais tremenda confusão e desapontamento.

Mas afinal, que é o homem? Como se relaciona ele com o resto da criação? Até que ponto é matéria, ou em que medida sua capacidade de criar idéias, de lucubrar sobre temas do espírito, está limitada pelas contingências materiais? É o homem livre, inteiramente livre, ou sua liberdade é fictícia, como a de um prisioneiro que, sem embargo de poder ir e vir dentro de sua cela, está não obstante cerceado entre grades de ferro? Sim, que é o homem?

Na escala animal é o homem classificado como “mamífero, bípede, bímano, racional, moral, social, capaz de linguagem articulada, de rir emitindo som, cuja posição normal é a vertical.” – Grande Enciclopédia Brasileira e Portuguesa, artigo Homem.

Esta é uma definição completa, mas cremos não exagerar se afirmarmos que pelo menos metade dessas características são atribuídas ou atribuíveis também a diferentes espécies animais. Uma análise extrínseca da pessoa humana não basta para defini-lo com segurança, de maneira que se possa estabelecer entre o homem e os outros animais uma linha de separação mais nítida.

Análise Instrospectiva

É somente quando o homem se entrega àquela “análise introspectiva do seu mundo interior,” de que fala Mumford, que se vê forçado a confessar que veio de mais alto e de mais longe – do infinito mesmo – e tudo leva a crer que caminha para lá. Ou confessará isto, ou cairá no materialismo biológico das inúmeras escolas filosóficas que proliferam abundantemente hoje em dia.

Temos de convir, pois, que a descoberta do homem tem de ser feita a partir do seu “mundo interior,” se quisermos compreendê-lo na sua totalidade. A busca do homem por vias externas, tem resultado nas maiores aberrações e incongruências. Darwin percorreu o mundo e malbaratou uma fortuna no desempenho dessa tarefa, e no final nos apresentou um símio. Outros se enveredaram por diferentes caminhos e nos falaram de ameba, de monera, etc.

Mas houve alguém que dirigiu sua espectante interrogação Àquele de quem se diz que “sabia o que estava no homem” (S. João 2:25), e a quem Pilatos apresentou à multidão como o homem perfeito, dizendo: “Eis o homem!” (Vede que perfeição de homem, é o sentido original do texto.) S. João 19:5.

Davi, o homem múltiplo, que foi a um tempo rei, poeta, pastor, profeta e general de exército, desejando conhecer a verdadeira natureza humana, dirigiu ao próprio Deus a interrogação: “Que é o homem?” E depois de haver sondado o profundo se sua alma, encontrou esta confortante resposta: “Tu o fizeste um pouco menor do que os anjos, e de honra e de glória o coroaste.” Salmo 8:5.

Olhando para dentro de si mesmo, o velho rei de Israel encontrou para a raça humana a gênesis mais gloriosa. “De um modo terrível, e tão maravilhoso fui formado,” concluiu ele. (Salmo 139:14). Buscando a origem de si mesmo por vias do homem interior, o patriarca foi forçado a admitir a existência de um poder criador fora do homem e superior ao homem. Esse poder é Deus, pois Davi reconheceu humildemente: “Tu [Deus] o fizeste.”

Concluímos, pois, que não se pode bem compreender o homem a não ser em função de sua relação com Deus. Logo, tudo quanto nos é possível saber a respeito do homem, forçosamente deve ter-nos sido revelado por Deus.

A Fórmula Divina

Com efeito, o Criador colocou à disposição do homem o fichário, por assim dizer, de toda a sua história, para que ele aprendesse a se conhecer a si mesmo, e conhecendo-se conhecesse também o seu Criador; pois a descoberta do homem, é forçoso reconhecer, leva à descoberta de Deus, assim como reciprocamente a descoberta de Deus leva à descoberta do homem. Deus e homem são, por assim dizer, uma fórmula reversível.

Mas desgraçadamente o homem, principalmente o homem dos últimos séculos, entendeu que devia procurar conhecer-se mediante fórmulas que ele mesmo ideasse, e pôs de lado a única Fonte segura de informação sobre a pessoa humana. No benefício exclusivo do homem, Deus proveu-lhe um compêndio sobre a história da raça. Esse compêndio é a Revelação bíblica. Reconhecendo a suficiência dessa revelação, o profundo historiador Tomás Carlyle escreveu: “O único Livro no qual, durante milhares de anos, o espírito do homem tem encontrado luz e sustento, e a resposta a todos os mais profundos anelos do seu coração.”

Com efeito, essa obra monumental a que chamamos Bíblia, embora escrita com o objetivo precípuo de revelar Deus ao homem, é a par disto uma revelação do homem ao próprio homem, visando levá-lo a compreender sua verdadeira natureza, sua condição primitiva e atual, o objetivo que o Pai de todas as criaturas tinha em vista ao criá-lo; como e por que se modificou esse objetivo; em suma, como pode o homem vir a reencontrar aquela primeira condição, que era uma condição de felicidade. De posse destes conhecimentos, o homem será fatalmente levado em humilde submissão aos pés do seu Criador, reconhecendo a primazia e soberania de Deus em sua vida.

É somente através das Escrituras Sagradas – esse processo de revelação que sintetiza a história do homem desde o seu primeiro dia de existência – que recebemos um conhecimento mais ponderável da verdadeira natureza humana. Tinha razão, pois, Sir William Dawson, presidente da Universidade de McGill, de Montreal, quando afirmou, isto no tempo em que estava em efervescência a controvérsia darwiniana: “Não sei coisa alguma acerca da origem do homem, a não ser o que em dizem as Escrituras – isto é, que Deus o criou. Não sei nada senão isso, e não conheço homem algum que mais soubesse.” Isto confere bem com o que diz o católico Daniel Ropps: “Há um livro, único, inesgotável, no qual aprendemos a respeito do homem e de Deus.” – Que é a Bíblia? pág. 115. Fora da Bíblia não teríamos jamais uma explicação racional para a condição pecaminosa do ser humano, sua insatisfação e desassossego em face dessa mesma condição pecaminosa, e sua busca insofrida de um Poder soberano que lhe sirva de orientação e o leve para um destino melhor.

Carlos A. Trezza, A Reconquista do Homem, livro I, capítulo 1.

Sobre Weleson Fernandes

Escritor & Evangelista da União Central Brasileira

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