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O “Homo Religiosus”

Ao procurarem explicação para a presença do ser humano sobre o globo, os homens se afastaram da revelação bíblica, caindo num emaranhado de sofismas filosóficos que os enredaram a eles mesmos e aos que pensavam poder encontrar nas subtilezas das filosofias uma explicação para os fenômenos relacionados com esse maravilhoso e estranho ser chamado homem. O resultado é o que está aí: uma humanidade desorientada, sem norte, sem rumo, ansiosa por encontrar dentro da espessa floresta uma clareira que se abra para a luz.

Mas por que razão o homem se encaminha para Deus, da mesma forma como os pequenos riachos buscam os rios, e os rios buscam o mar? É uma inclinação natural esta, que não encontraria nunca uma explicação, não fôra a revelação bíblica que nos apresenta o homem com sua origem em Deus. Lançando mão mesmo agora, do Instrumento que é a um tempo Bússola e Roteiro, pode o homem desnorteado e atônito encontrar ainda o rumo da casa paterna. Como o filho pródigo da parábola de Cristo, ele acabará por “cair em si” (S. Lucas 15:17), descobrindo-se afinal no meio da multidão de outros pródigos transviados. “Levantar-me-ei,” dirá consigo, “e irei ter com meu pai.” Verso 18.

Somente depois que o pródigo “caiu em si,” reconhecendo sua infeliz condição – mísero apascentador de porcos, ele que era filho de um príncipe – pôde lembrar-se de que não era um desventurado órfão, encontrando afinal o caminho de volta. “Estava perdido,” disse Jesus, “e achou-se.” Achara-se o pródigo, e com isto entrava na posse de uma nova herança: a casa paterna, o verdadeiro lugar do filho de um grande senhor, sua legítima habitação.

Nessa parábola do filho pródigo, que ilustra com suficiência a condição do homem desgarrado do lar de Deus, encontramos o problema do homem fora do seu meio. O pródigo se deslumbrara por algum tempo com um mundo que não era o seu mundo. Ao dar, porém, acôrdo de si, encontrou-se num ambiente miserável. O seu problema estava intimamente associado ao meio. Ele não nascera para aquilo. Sua situação só se resolveria se deixasse a pocilga asquerosa rumo ao seu lugar de origem.

É assim precisamente com o homem. O grande erro de muitos que se tem dedicado à busca de solução para o problema humano tem consistido em não relacionar o homem com o mundo que habita. Não devemos esquecer que o homem foi criado para viver no mundo, embora não no mundo como o temos presentemente. Por isto mesmo a reconquista do homem tem forçosamente que envolver também a restauração da Terra que ficou desfigurada com o pecado.

Afetada a Natureza Física

A natureza física sofreu uma distorção, quando o coração retilíneo do homem padeceu um desviamento dos princípios de justiça que lhe deviam reger a vida. A humanidade nascente foi-se aglomerando e formando núcleos à medida que ia crescendo, contrariando assim o propósito divino de que cada família tivesse um lar no campo com terreno bastante para cultivo. Essa aglomeração em cidades, que foi uma das condições geradas pelo pecado, pois não pertencia ao plano original do Criador, forçou uma modificação nos hábitos de vida que, por sua vez, obrigaram o homem a proceder a profundas transformações na estrutura física do mundo. Demoliram-se montanhas, construíram-se mares artificiais, e em muitos casos o mar teve que ceder terreno à pertinácia do homem; a terra foi forçada a produzir intensamente até o esgotamento, e a necessidade de desflorestamento para a produção de alimentos para multidões aglomeradas provocou tremendas mutações na atmosfera e nas condições climáticas. O homem passou então a viver fora de ambiente. Ele mudou a face do mundo, e afetou o padrão de sua própria vida e dos outros animais. O homem profanou a terra e esta vinga-se dele produzindo-lhe espinhos e abrolhos.

O apóstolo S. Paulo, falando da condição ruinosa a que o homem, pela transgressão, submeteu a Natureza, assim se expressa: “Toda a Natureza geme.” Romanos 8:22. Era a criação que ficara transtornada com a indisciplina da criatura humana.

No plano divino de restauração do homem está incluída também, como veremos adiante, a restauração do mundo em sua beleza primitiva e edênica. Nem podia ser diferente. A reconquista do homem perdido não significa apenas restaurar-lhe na alma e no corpo a imagem de Deus que se desfigurara com o pecado, mas também promover a restauração da Terra, para que o homem possa viver nela como no seu ambiente natural. Homem e Terra foram criados um para o outro. Com o pecado ambos se perderam. Com a erradicação do pecado ambos serão recompostos segundo o modelo primitivo. Conforme o plano divino, claramente exposto nas Escrituras, a restauração do homem para a Terra será seguida da renovação da Terra para o homem. Isto significa que tudo voltará a ser como antes do pecado. Vale a pena, pois, examinar à luz do Livro divino, como chegou o homem ao estado de penúria física e espiritual em que o encontramos hoje, por que lhe sobreveio semelhante tragédia, e que destino final o espera.

A Confissão dos Incrédulos

Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? Esta interrogação tríplice é cabalmente respondida pelas Sagradas Escrituras. São elas  o único documentário fidedigno sobre a criatura humana. A busca do homem por qualquer outro meio que não a humilde sujeição ao que a Escritura diz, dará em resultado o que já vimos páginas atrás: uma babel de opiniões, fórmulas e conceitos estravagantes ou chulos, afirmações esquivas, negações infundadas e depois de tudo a confissão de que não sabemos quem somos, de onde viemos e nem para onde vamos.

É curioso notar que os estudiosos das diferentes teorias sobre a origem do homem, sempre que tiveram um impulso de honestidade em suas investigações, ou confessaram a origem divina do homem, ou chegaram muito perto disto. Cantu, que estuda exaustivamente o assunto em sua História Universal, faz referência ao afastamento de Wallace da escola darwinista, por haver reconhecido o elemento divino da origem do homem. Diz Cantu: “Wallace admite, pois, a ação de uma inteligência superior no mundo orgânico, e estabelece que, se a seleção natural, regulada somente pelas leis da Natureza, deu origem às espécies selvagens; se a seleção artificial, ou humana, produziu as raças animais e vegetais, foi uma espécie de seleção divina que formou o homem atual e deu impulso ao seu desenvolvimento intelectual e moral.” – História da Civilização, de César Cantu, Livro I, pág. 141 (os grifos são do historiador.)

Por pouco Wallace deixa de confessar que não houve seleção divina, mas sim, inteligência divina, na criação do homem, e que este, longe de evoluir, regrediu depois de criado. Ora, como não temos o propósito de nos meter no cipoal das opiniões humanas sobre o tema que nos ocupa, vamos diretamente à Fonte, onde a água é límpida e cristalina.

Primeira Referência Bíblica ao Homem

A primeira referência à criatura humana nas Sagradas Escrituras encontra-se no primeiro livro da Bíblia, chamado Gênesis, nome que lhe é atribuído por tratar da origem do homem e do mundo segundo o conceito criacionista. Este livro foi escrito por Moisés, conforme o consenso quase unânime dos pesquisadores bíblicos, lá pelo anos 1450 A.C., aproximadamente. Assim, tinha a humanidade já cerca de 2500 anos de experiência quando, possuído da inspiração divina, Moisés relatou a história da Terra e da humanidade.

Nessa primeira referência bíblica ao homem, nós encontramos a gênesis do ser mais importante do mundo. Diz o texto: “E disse Deus: façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a Terra…” Gênesis 1:26.

O Dominador Vencido de Si mesmo

“Façamos … conforme a nossa imagem … e domine.” Parece que o homem experimentou no próprio sangue o sentido de sua criação como alguém que devia dominar. E tem procurado exercer seu domínio sobre a criação de Deus da maneira mais ampla. O homem dominou os espaços, dominou a superfície dos mares e as profundezas dos oceanos; subjugou as forças conhecidas da Natureza e descobriu novas potências para sobre elas exercer o seu domínio. E esse homem que domou os espaços, revela em sua natureza características de abutre; dominou as águas que cobrem três quartas partes da superfície da Terra, e possui a ferocidade dos monstros marinhos; subjugou as feras que habitam as florestas, e briga com os semelhantes como se fôra mais feroz que os leões. Sim, o homem dominou toda a Natureza, e caiu vencido de si mesmo.

“Conforme a nssa imagem.” Quem diria que aquele farrapo humano que outro dia o autor viu caído numa sargeta da rua, saturado de álcool, salpicado da lama da enxurrada que rolara após a noite de chuvarada fria, quem diria que “aquilo” ali estendido, coberto de moscas, de imundície e de lodo, fosse um ser humano, criado segundo a imagem de Deus! E no entanto, amigo leitor, se você tomar essa infeliz criatura e, mediante um processo de retroação genealógica constante, for penetrando os milênios que ficaram no passado até o Éden, acabará chegando a nosso pai Adão, de quem está escrito: “E Adão de Deus” (S. Lucas 3:38), isto é, na relação genealógica da raça, chega-se até Adão, depois do que encontramos Deus. Assim, a descendência do homem se liga em linha reta à própria pessoa de Deus. O apóstolo S. Paulo, falando perante os cultos atenienses reunidos no areópago, interpretou este ponto de vista da origem divina do homem, citando um poeta grego, Epimênides, que afirmara: “Somos também descendência Sua.” Atos 17:28.

Talvez a inclinação de alguns em atribuir a um símio o antecedente mais próximo do homem, seja no fundo uma espécie de complexo, que os leva a quererem justificar o haver o homem descido tão baixo em sua condição moral. Seria como dizer: “Nossas faculdades morais se ressentem de nossa gênese simiesca; e se estamos declinando, até mesmo no físico, é porque existe sempre a possibilidade de um “retorno atávico” ao nosso passado de monos.”

Mas apesar da profunda degradação a que desceu esse maravilhoso ser criado à imagem de Deus, permanece no fundo de sua alma o anelo de retornar ao Criador; ele anseia por Deus, e suspira pela renovação de sua personalidade espiritual. “A Minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo” (Salmo 42:2), disse o inspirado rei de Israel.

Os que se inclinam por atribuir ao homem uma origem tão baixa, isto é, do símio, nunca deveriam esquecer que há no homem alguma coisa que, se outras não houvesse, o torna inconfundível entre os outros animais. Não se trata apenas da inteligência, pois, como diz Marsh, “a inteligência em certo sentido é partilhada pelo homem com quase todos os animais.” – Estudos Sobre Criacionismo, pág. 9.

Verdades e Fantasias

Há alguns animais, cães, por exemplo, cuja inteligência faz inveja a não poucos seres humanos. Não precisamos rechear estas páginas de exemplos, pois o leitor mesmo deve t~e-los em quantidade. Mas ocorre-nos recordar uma visita que fizemos – o autor e esposa – a uma família amiga. Esta família possuía um belíssimo cão policial. O inteligente animal, que se nos afeiçoara depressa, parecia uma criança travessa; gostava de brincar, e podia ver-se-lhe nos lhos a alegria, quando atirávamos algum objeto para que ele o fosse buscar e no-lo trouxesse com visíveis mostras de satisfação. Minha esposa se pusera a brincar com ele algum tempo, mas cansando-se afinal, dirigiu-se para junto da senhora que visitávamos. O cão pôs-se a correr-lhe em torno; aproximava-se de uma acha de madeira que servira para o brinquedo e corria de novo para junto de minha esposa, numa evidente insinuação que ela não podia deixar de compreender. À distância eu observava aquele jogo do travesso animal. Finalmente, percebendo não estar sendo compreendido, o cão tomou a acha de lenha na boca, trouxe-a para junto de minha esposa e, colocando-lha delicadamente bem juntinho dos pés, saiu a correr desabaladamente, indo esperar lá bem longe que a lasca de lenha fosse atirada, certo de que desta vez havia sido compreendido.

Animais existem que possuem extraordinariamente viva essa centelha que muitas vezes não se sabe se é instinto ou pensamento. O autor conheceu uma vaca que abria a porteira do currar com os chifres, conservando-a aberta até que todas as companheiras houvessem passado. Depois dava uma virada brusca no corpo, de maneira que pudesse soltar a porteira, escapando por sua vez com as outras reses.

Numa viagem que fizemos ao Araguaia, faz alguns anos, tivemos uma experiência interessante. Descíamos o rio em nosso barco, quando uma enorme anta, saindo de uma das margens, procurava atravessar o rio para a margem oposta. Imprimimos maior velocidade ao barco, a fim de cortar-lhe a travessia. Quando a anta nos percebeu, mergulhou. Ficamos atentos, esperando vê-la surgir na outra margem quando, para surpresa nossa, vimos que ela retornara ao ponto de partida. Como sabia o animal que a distância para voltar era mais curta? Não; evidentemente não é a inteligência que torna excepcional o homem no conjunto da espécie animal.

Não é somente uma frases dizer que o homem ocupa o mais preeminente lugar na escala da criação. Ele não é apenas o “animal que ri e chora.” Estudos profundos de renomados naturalistas tem levado à quase conclusão de que os animais também riem e choram. O mugido plangente da rês que descobre o sangue do companheiro morto possui todo o sentimento da lamentação humana. Há os que sentem saudades, como um elefante industânico de que fala Kipling, o qual condenado à morte num circo por ferocidade insana, voltou a sua mansidão após ouvir do escritor palavras em idioma industânico. O animal estava possuído de saudades da pátria! E há os que, como os psitacídeos, imitam a voz humana “quase conscientemente.” Não tem faltado pessoas que endossam as maravilhosas fantasias de Edgar Rice Burroughs, como sendo alguma coisa digna de mais acurados estudos. Nessas fantasias do fecundo escritor inglês, a garrulice dos macacos é apresentada como uma linguagem que o homem pode perfeitamente aprender. Faz algum tempo, lemos um artigo em que o articulista narrava, com toda a seriedade, o caso de um caçador que abandonara o hábito de caçar porque, havendo certa vez atirado numa macaca com o filhinho nos braços, ouvira distintivamente esta dizer a um mono que lhe estava próximo: “Segura o menino que estou ferida.”

É evidente que não subscrevemos tais fantasias, mas ainda que toda esta analogia pudesse realmente existir entre o homem e os outros animais, ainda assim algo restaria, mais importante, que bastaria para estabelecer entre ambos – homens e animais – a mais estupenda diferenciação.

Dois Processos de Criação

Recorrendo ao relato da criação, verificamos que quando o divino artífice trabalhou a argila para fazer dela o homem, não pôs entre este e os outros animais apenas algumas “ligeiras diferenças.” Embora haja entre essas duas classes de seres algumas semelhanças que levam certos estudiosos a afirmar enfaticamente que o homem – o ser superior – veio do animal – o ser inferior – há entre elas tão profundas dessemelhanças que, como muito bem diz Marsh, “elas impressionam mais que as semelhanças”.

Do próprio relato da criação do homem e dos animais pode-se destacar uma grande diferença no processo usado pelo Criador.  É dessa diferença de processo que inferimos com toda a segurança a superioridade do homem. Na criação dos animais, de todos eles, exceto o homem, Deus ordenou simplesmente que a terra os produzisse: “E disse Deus: Produza a terra alma vivente conforme a sua espécie.” Gênesis 1:24. Já na criação do homem, conquanto tenha sido este também elaborado da mesma matéria de que vieram os animais, Deus operou de maneira diversa. Ele colocou as próprias mãos na massa de onde iria sair o homem, essa criatura superior: “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra.” Gênesis capítulo 2, verso 7. Notai o verbo aí empregado: “Formou o homem,” e comparai-o com o outro: “Produza a terra.” Há grande diferença entre formar e produzir. Para se formar alguma coisa é preciso aplicar a inteligência, a vontade, a imaginação, ao passo que produção é atividade impessoal, e lembra uma máquina montada e ajustada para ação automática. Assim, os animais foram elaborados pela terra; o homem foi trabalhado por Deus. Não queremos dizer, naturalmente, que a terra produziu as espécies animais com exclusão do Criador, assim como, insistimos na imagem, a máquina não funciona sozinha, sem a vigilância do operador.

Mas, pergunte-se a qualquer pessoa o que torna o homem superior aos animais, e ela responderá para logo: “É que o homem possui uma alma imortal.” Será isto, realmente? Recorramos ao Livro infalível. Que diz ele? Vejamos:

Depois de haver formado o homem do pó da terra, Deus soprou-lhe “o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente.” Gênesis 2:7. Mas  este texto, que relata a criação dos animais, diz que também eles foram feitos almas viventes. E não somente estes, mas todos os seres vivos foram dotados do mesmo princípio de vida. Se homens e animais ativados pela vida são chamados alma vivente, então não se pode dizer que o homem possua uma alma imortal, sem que se diga o mesmo dos animais. No entanto, coisa singular, enquanto por um lado nos repugna atribuir aos animais uma alma imortal, sem nenhuma razão necessária atribuímos ao homem essa qualidade. Há no entanto, quanto à posse da vida, absoluta identidade e igualdade entre homens e animais. Este ponto, porém, será melhor esclarecido páginas adiante.

A diferenciação de processo usado por Deus na criação do homem e dos animais estabelecia, por isto mesmo, uma evidente linha de separação entre ambos. Os animais não deveriam possuir o sentido da vida, o desejo de felicidade e de eternidade, qualidades que nunca abandonaram o homem, mesmo depois da queda e consequente entrada do pecado no mundo.

O Senso Religioso

Mas o que deveria constituir o mais estupendo marco de separação entre o homem e os brutos, é sua consciência religiosa. Nenhum animal possui o senso de adoração, a inclinação para prestar culto a alguma coisa. Note-se, por exemplo, o seguinte: O animal que mais se aproximaria do homem, segundo os estudiosos do assunto, é o orangotango africano de grande porte; e o homem que mais se aproxima do macaco, é o selvagem africano fortemente degenerado. No entanto, é curioso notar, nem o macaco desenvolvido adquire o senso do culto, da adoração, nem o homem retrógrado o perde. Por que? A resposta é óbvia: O homem traz no coração as marcas de Deus. Como disse o patriarca Davi, o homem “tem sede de Deus, do Deus vivo,” como “os cervos bramam pelas correntes das águas.” Salmo 42:1.

Assim, o conceito que as Escrituras fazem do ser humano, é o do “homo religiosus.” Estabelecem as Escrituras  o fato de que o senso religioso do homem não é produto da educação. As tribos mais retrógradas da Terra possuem alguma forma de culto e religião. “De todos os povos apontados como irreligiosos um havia – diz Miguel Rizzo – com referência ao qual se afigurava certa essa afirmativa. Eram os cubos, da Samália. Estudos recentemente conduzidos pelos especialistas Van Dongen e P. Schebesta mostraram, positivamente, que aquele povo tem religião.” – Religião, págs. 28 e 29. “Todo homem que pensa – escreve Harold Begbie – por mais enfase que dê a seu culto do Não-Deus, sente, nas profundezas do ser, uma íntima relação com o universo. Todo homem tem alguma religião.” – Homens Renascidos, página 8.

Este impulso irresistível que leva o ser humano a buscar uma consciência superior é a maior e toda suficiente prova da existência de Deus. A idéia de Deus é uma necessidade que só se manifesta no ser humano, geral e uniformemente. Logo a existência de Deus se associa definidamente à existência do homem. Por isto podemos repetir com ênfase: Homem e Deus são uma fórmula reversível. Para os grandes vultos bíblicos a existência de Deus era coisa tão natural, tão axiomática, que as Escrituras chamam de tolo quem afirmar que Deus não existe. (Ver Salmo 14:1)

Uma pessoa que se disponha a ser ateísta verificará, no final das contas, que tem estado a lutar contra sua própria natureza, pois terá que contrariar o mais profundo anseio de sua alma para pôr Deus fora de suas cogitações. Mas o momento derradeiro de tal pessoa lhe descobre toda a falácia do seu esforço para viver sem Deus.

O Arrimo do Crente

Não há, na realidade, pessoas convictas de ateísmo. O que existe são pessoas vaidosas, que pensam ser “chique” dizerem-se incrédulas da existência de Deus, ou pessoas temporariamente indiferentes ao espírito religioso. Mas na hora extrema o coração bradará por alguma coisa em que se arrime. Conta-se que um ateu estava à morte. Um seu amigo, igualmente ateu, veio visitá-lo para assistir-lhe s derradeiros momentos.

– Firme-se – dizia  amigo ao agonizante – firme-se bem até o fim; não desanime.

– Sim – respondeu o moribundo – é o que estou procurando fazer; mas firmar-me em quê?

“Firmar-se em quê”, eis a pergunta que milhões fazem, quando sentem que estiveram procurando expulsar a Deus de suas vidas. É fácil viver alegre, parecer feliz, quando a maré está baixa e o mar é calmo, quando a saúde sobeja e a vida palpita exuberante em nosso ser. Mas, na hora extrema, todos necessitamos de alguma coisa em que nos firmar. Essa alguma coisa é a certeza da presença de Deus no âmago do coração. E a maneira em como o homem se relacione com esta “verdade inexorável” é que determinará se ele terá ou não alguma coisa em que se firmar no derradeiro momento.

Nas vestes de um soldado australiano morto em combate na última guerra, encontrou-se escrito em forma de poesia o seguinte pensamento: “Os que tendes fé para olhar sem temor para além da tragédia de um mundo em conflito, e sabeis que passada a morte e a noite, brilhará a aurora de uma vida mais ampla, rejubilai, seja qual for a angústia que vos parta o coração. Eu vi expulsos os poderes das trevas, e vi raiar a manhã.”

Este homem sabia em que se arrimar. Sua fé não era, como dizia William James a respeito de alguns formalistas religiosos, “como corpos sem alma em busca de sua origem.” Ele conhecia essa origem, e sabia que era ed~enica. Sabia que a morte, num campo de batalha, num leito de hspital ou em qualquer outro lugar, não era o fim de tudo. E vivera em relaçao com o Criador de tal maneira que vira pela fé “expulsos os poderes das trevas,” e o raiar da manhã de glória.

Milhões de criaturas vivem descuidadamente, sem dar maior atenção aos reclamos da alma. Eles procuram sufocar tais anseios, como se isso fosse possível. Esquecem-se de que ninguém pode esvaziar tão completamente o coração que aí não haja ficado uma raiz do desejo de algo em que firmar-se.

Religião – Parte Integral das Obrigações Humanas

O homem civilizado se engana quando pensa que pode dissociar as obrigações religiosas dos demais deveres da vida. É de henry Fosdick este pensamento: “Quando alguém diz que pode viver sem religião, está simplesmente dizendo que possui uma religião que pode ser dispensada.” A religião é parte integrante de todas as obrigações humanas. Não é, como imaginam alguns, apenas “um esporte mais sério.” Conta-se que o antigo Primeiro Ministro inglês, Lloyd George, costumava ironizar as tricas religiosas de seu tempo, dizendo: “Minha igreja está dividida em dois grupos. Um entende que nós devemos ser batizados em nome do Pai, ao passo que o outro acha que deve ser no nome do Pai. Eu pertenço a um desses grupos; creio que a razão está do nosso lado.” E acrescentava enfático: “Mas não consigo lembrar qual o grupo a que pertenço.”

Há os que imaginam poder viver sua vida religiosa “por procuração.” Certa vez, em palestra com um cidadão de relativa cultura, disse-nos ele: “Em assunto de religião não tomo pé. O ministro de minha igreja cuida de meus interesses religiosos.” Deplorável engano. Só há um homem – Cristo – a quem podemos confiar uma procuração para cuidar de nossos interesses no Céu. Fora Ele nenhum outro ser humano – vivo ou morto – está capacitado a falar por nós diante de Deus. Ele somente é nosso advogado. (Ver I S. João 2:1 e I Timóteo 2:5.) Os ministros podem nos servir de orientadores e guias, mas nunca poderão ocupar diante de Deus o lugar que nos compete. O homem é pessoalmente responsável pela sua vida religiosa. O apóstolo S. Paulo dava ênfase a este pensamento, lembrando aos cristãos e seu tempo que “todos compareceremos perante o tribunal de Cristo.” II Coríntios 5:10. E em outro passo lembrava que só Cristo havia de comparecer por todos perante a face de Deus. (Ver Hebreus 9:24.) Maravilhoso e solene este pensamento! O homem comparecendo sozinho perante Cristo, e Cristo comparecendo sozinho por todos os homens perante Deus!

Viemos do Éden

Aí está, amigo leitor, como as Escrituras respondem, sem a complexidade de altos sofismas filosóficos, à pergunta que jaz em todos os lábios: Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? Somos feitura de Deus, responde a Palavra divina, criados para um elevado destino. Viemos do Éden, nossa virginal morada, e caminhamos para aquele mundo sem pecado que o Senhor prometeu restaurar juntamente com a restauração do homem, para que, feita a paz entre o homem e a Terra, integrem-se ambos na harmonia do universo.

Você e eu, leitor, viemos do Éden, na pessoa de Adão, nosso pai. Nosso coração, o seu e  o meu, não deseja mais que voltar ao ponto de onde viemos. Examine mesmo agora, com os próprios olhos, o que as Escrituras dizem a seu respeito e do destino maravilhoso que o Pai de todos os viventes tem reservado para você e para mim. Acompanhe-nos, nos seguintes capítulos desta obra, e verá que “Cristo Jesus morreu por nós, o Justo pelos injustos.” (I S.Pedro 3:18), e nessa relação você descobrirá o verdadeiro valor que Deus atribui ao homem, bem como com quanto carinho o Céu pôs a nossa disposição o Instrumento de regeneração humana para a reconquista do homem perdido.

Carlos A. Trezza, A Reconquista do Homem, Livro I, Capítulo 2.

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